16/10/2019
Ano 22 - Número 1.145



 

ARQUIVO
BHUVI LIBÂNIO




 

Seja um
"Amigo da Cultura"


 

Venha nos
visitar no Facebook



Bhuvi Libânio



Coincidências
Episódio 3

 Às vezes, um hábito é apenas um hábito

Bhuvi Libanio - CooJornal



Depois de alguns anos casada, eu já não o percebia como companheiro. Não falávamos mais de coisas pessoais. Debatíamos a conjuntura política, falávamos de problemas sociais, refletíamos sobre soluções possíveis para as dificuldades do mundo. Mas não conseguíamos falar de nós. O casamento, dentro do conceito construído por nossa sociedade, já não fazia sentido. Mas eu não conseguia me desapegar. Acreditei no senso comum de que para superar um amor, é necessário ter outro amor.

Sem pensar muito nas consequências — ou talvez esperando que o destino, sozinho, proporcionasse algo sensacional, novo, extasiante para mim — baixei aquele aplicativo e cliquei em “criar uma nova conta”. Li as orientações: ser eu mesma — “não sei sobre isso... sou casada” —, respeitar os outros — “sempre; se bem que...” —, prezar por minha segurança e não dar informação pessoal muito cedo — “quando é que a gente sabe que conhece alguém o suficiente para dar informação pessoal? Às vezes não sabemos nem quem nós mesmos somos...” —, denunciar comportamentos inadequados — “para quem denuncio meu próprio comportamento?”

Okay! Entendi tudo. Só faltava informar um primeiro nome. Depois de um tempo, digitei “Roberta”, sei lá por quê. Data de nascimento, 07 de abril de 1975. Achei bonita. Cliquei em “sou mulher” e “continua”. Escola? Pulei essa informação. Fotos. Hum... Pedi algumas ao meu amigo Google. Achei que fiquei bonita no app. Depois dessa rápida configuração do meu Eu virtual, só me faltava esperar dar “match”.

E deu.

Sei lá se foi rápido demais! Mas confesso: nunca soube avaliar esse tempo. Combinamos um encontro no bar Adega da Velha — tradicional, movimentado, comida boa — para um happy hour na sexta-feira.

Sempre fui pontual, aliás, sempre gostei de chegar cinco minutos antes do combinado.

Primeiro tomei uma água da casa, enquanto lia o cardápio e me apaixonava pela ideia de comer “quiabo crocante na chapa”. Depois pedi um chope. Pedi a porção. Mais um chope. Mais uma água. A porção estava deliciosa. E enquanto comia o último dos quiabos, meu marido entrou no bar.

Quando escolhi o lugar, esqueci de pensar um detalhe: o espaço é aconchegante, pequeno, amigável, ou seja, não há como alguém entrar e não te ver. E aí, a coisa aconteceu mais ou menos assim:

— Amor! Tá fazendo o que aqui? Não ia ao cinema com as meninas?

— É... A gente combinou um filme ali no Estação NET. Como eu liberei mais cedo vim comer esse quiabo maravilhoso para fazer hora.

— É bom mesmo...

— É... Delícia... Mas e você? Não tinha uma reunião com um cliente?

— Pois é! Daquelas situações em que a gente se mete só para... Talvez dar um up na autoestima!

— Como assim? Até parece.

— Ah... Estava achando que as coisas tinham esfriado, sabe? E podia acabar perdendo um cliente que é tão importante, sabe como é?

— É. Acho que sei como é esse medo de perder algo importante.

— Então eu... Resolvi fazer uma coisa diferente.

— Entendo...

— Vou deixar você curtir aí seu momento, afinal... Como é mesmo que falam? Girls night out. É isso?

— É isso!

— Não inclui marido. Então vou esperar o cara numa mesa lá fora mesmo. Fica aí de boas, não se preocupe comigo.

— Claro, por que eu me preocuparia?

Maridão saiu, abri o app e mandei mensagem:

E aí? Tô aqui esperando. Desistiu?

Fiquei olhando para o celular torcendo para ele dizer que sim.

Claro que não, gata!

Droga! Ele ia aparecer, e...

Já aqui esperando! Pensei que você tivesse desistido.

Olhei ao redor, todas as mesas cheias. Em uma delas, no canto, um homem sozinho. Mas como ele nem se manifestou antes?

Está vestindo o quê? Eu também cheguei. Não é possível que a gente não se viu!

Estou de jeans e camisa de botão listrada.

Não era o homem solitário da mesa do canto.

E então veio a notícia que eu temia:

Estou do lado de fora.

Pensei em ficar lá dentro, dar uma de doida, dizer que desisti de tudo. Por outro lado, ele não conhecia a verdadeira eu, então era só despedir do marido e realmente ir para o cinema. Escolhi a segunda opção.

Paguei minha conta.

Caminhei até a porta do bar.

Abri.

Olhei para meu marido, ele estava distraído digitando no celular.

Nesse exato momento meu telefone anunciou uma nova mensagem.

Estou ansioso para te ver, te conhecer melhor.

Eu precisava dizer alguma coisa...

Eu também... Vamos mudar de lugar? Me encontra no cinema?

Nesse exato momento o telefone do meu marido anunciou uma nova mensagem. Alguns segundos depois, ele se levantou. Olhou para mim.

— O cliente… — e abanou o celular.

Nesse exato momento notei: ele estava usando jeans e camisa de botão listrada.

Que coincidência…

— Precisamos conversar — eu disse, balançando a cabeça e mostrando meu celular.

Hoje sigo aquelas orientações do aplicativo e deletei as fotos emprestadas do amigo Google. Postei as minhas. Notei que meu... ex fez o mesmo.

Concluímos que o relacionamento tinha se tornado apenas um lugar de conforto, um hábito. E, às vezes, um hábito é apenas um hábito.

***

Não perca! No episódio 4 de “Coincidências”:

“Nossa... Sinto muito ouvir isso. Será que não tinha nada que vocês pudessem ter feito? Deus me livre isso acontecer com meu filho.”


____________________________________________

Comentários sobre este artigo podem ser  encaminhados à autora no email bhuvi.libanio@gmail.com


Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


Direitos Reservados

É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.