16/02/2021
Ano 24 - Número 1.210



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Transformação


Bhuvi Libanio - CooJornal

Terminei de digitar a última legenda de um vídeo. “Por isso tão poucas pessoas têm interesse em meditação”, ele disse. Coloquei o teclado debaixo do monitor — faço isso para as gatas não sapatearem letras indevidas nem arrancarem teclas necessárias —, coloquei as mãos sobre a mesa e abaixei a cabeça para aproximar meus olhos delas.

A primeira articulação dos meus dedos está um pouco dobrada, quero dizer, a ponta deles não é mais reta. A pele está enrugada, um tanto pelo álcool em gel — os fabricantes afirmam ter hidrante, minhas mãos mostram o contrário —, outro tanto pelo tempo. O lótus tatuado no dedo do meio da mão direita perdeu o formato original. Mas isso não deveria ser uma surpresa, se até minhas unhas hoje são diferentes.

Tudo perde o formato. Tudo se transforma.

Lembro-me de pensar isso quando, no início do ano letivo, eu levava para a escola um estojo com lápis grande e borracha retangular. No fim do ano, o que antes fora vareta era toco e o retângulo, disco. O caderno volumoso ficava esguio, a sola do tênis, lisa. Certa vez apostei comigo mesma: “ficarei com esta borracha até ela deixar de existir, pelo uso”.

Também já pensei nessas questões ao observar o comportamento do pirulito, do picolé e do sorvete de casquinha.

Vi o tempo e as formas passarem pelo corpo de pessoas amadas.

Vi pessoas amadas passarem por minhas formas e meu tempo.

Agora olho as pontas curvadas dos meus dedos dançarem no teclado, como em saudação ao senhor que passa. Se prestar atenção, dá para sentir que as teclas, não por traquinagem dos gatos, perderam o formato original.

Não há traquinagem nesta vida. O que há são interesses diversos e a eterna pergunta: “a o que você dá valor?”

Certamente, não às formas, no meu caso.

Para entender o que move esta pessoa, aqui vai um brevíssimo relato:

Um amigo me escreveu:

— Sinto você apaixonada.

— Não é paixão, é Amor — respondi.

Não sei me apaixonar, mas sou uma pessoa que vive em Amor.

Por que tão poucas pessoas têm interesse em meditação?

Porque elas têm medo de encarar a transformação, a morte daquilo que consideravam ser real. No silêncio, escuta-se apenas a verdade.

Se olharmos de perto, se prestarmos atenção, é possível sentir a existência etérea — nesta terra, tudo passa; no coração, a essência repousa. A vida é delicada como os bigodes do gato a balançar na suave brisa do ventilador. Um a um, com o tempo, eles se soltam e voam.

Pronuncio o nome de quem amo; assim, mesmo depois de alçarem voo, essas pessoas permanecem em mim — nas letras reconheço a forma, no Amor, a eternidade.


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