01/12/2019
Ano 22 - Número 1.151



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Coincidências
Episódio 4

Jonas, fora do armário

Bhuvi Libanio - CooJornal


 


Esta história assisti ao vivo, no bairro Flamengo, mais precisamente na rua Paissandu, Rio de Janeiro. Se serei fiel a detalhes, não sei. Mas terei a certeza de relatar os fatos tal como ocorreram. Ou não (afinal, como disse o poeta: somos tão bons fingidores que fingimos tão bem a dor que deveras sentimos).

Veja bem!

Era uma quinta-feira, meio-dia. Fui almoçar sozinha em um restaurante self-service a quilo. Caseira, aromática e barata, essa comida sempre me agradou. Enquanto eu curtia salada de alface, tomate, couve crua, cenoura ralada, arroz, feijão, farofa e algum legume de que agora não me lembro, um casal de idosos se aproximou e se sentou na minha diagonal, à esquerda. Não reparei no prato deles, mas a garçonete, sim, e ainda comentou:

— Muito bem! Assim que eu gosto. Tem que alimentar direitinho para ficar forte e saudável. Vai querer tomar uma “aguinha”? Tem que hidratar, hein?

Jamais entenderei por que muitas pessoas tratam idosos como se fossem crianças e crianças como se fossem pessoas bobas, desprovidas de capacidade cognitiva.

Pois bem: o casal se alimentava “direitinho” quando chegou uma mulher e se sentou na mesa ao lado deles.

— Ah! Acho lindinho demais um casal assim... Há quanto tempo juntinhos?

— Quase sessenta anos, esse dois, acredita? — a garçonete foi mais rápida e respondeu com aquela voz “de criança”.

— Gente! Devem ter netinhos, né?

— Não — respondeu a senhora, antes de colocar o garfo na boca.

— Mas por quê? Não tem filhos?

— Sim, temos um garoto — disse o senhor.

— Ele é gay — informou a senhora, mastigando.

— Nossa... Sinto muito ouvir isso. Será que não tinha nada que vocês pudessem ter feito? Deus me livre isso acontecer com meu filho. Nem sei o que seria de mim... É... Nem consigo pensar nisso — as palavras da mulher choveram como uma tempestade de verão.

— Mas por quê? — a senhora riu, depois de engolir a comida. — Jonas vem aí, você vai ver que ele é nor-mal-zi-nho!

O casal riu junto.

— Ele e o namorado vão morar juntos e adotar uma criança. Viu? Vamos ter netinho ou netinha! — o senhor sorriu para ela.

— Deus me livre! — a mulher soltou um grito de quase horror e depois começou a falar baixo, quase cochichando. — Vai me desculpar. Mas o que eu quero para meu filho é uma família, filhos de sangue, e essas coisas, sabe? O meu também vem aí. Daniel. Um amor. Marcou de almoçar comigo porque precisa conversar. É agarrado com a mãe! Me conta tudo. Tudinho!

— Ah! Que bom, né? — disse a senhora depois de um gole de água (que tomou, provavelmente para ajudar a engolir um sapo ou coisa parecida...)

— Ele deve ter sido promovido no trabalho. Garoto dedicado, ele. Todo mundo gosta muito de como ele é envolvido, atencioso, puro amor, sabe?

— Ouviu, querido? Daniel, o nome do filho dela.

— Hum, hum... — ele olhava para o prato, concentrado.

— Não é o nome do namorado...

— Não, não deve ser. Meu Daniel não está namorando. Ele está... “Sem tempo para garotas” — ela fez sinal de aspas —, como ele mesmo me disse. Deve estar trabalhando muito e cuidando do futuro.

— Meu Jonas...

— Mas como foi descobrir isso do filho da senhora? Meu Deus!

Enquanto a senhora anunciava que contaria a história do dia em que Jonas saiu do armário e eu dava minha última garfada no feijão misturado com farofa, eis que a mulher se levanta toda serelepe anunciando a chegada de Daniel para o restaurante inteiro.

Ele, de cabeça um pouco abaixada, olhando para os lados sem se virar, caminhou entre as mesas até chegar ao leão, digo, à mãe.

— Mãe...

— Filho! Quero te apresentar a esses dois lindinhos. Acredita que estão juntos há quase...

— D. Margarida?

— Daniel, querido! — a senhora se levantou e abraçou o rapaz; depois virou-se para o marido. — Eu não disse que era o Daniel?

— Como assim? A senhora conhece meu Daniel?

— É... Mãe, deixa eu explicar...

— Mas é claro! Adoramos seu Daniel. E olha quem vem ali! Meu Jonas.

Resolvi sair da plateia, deixar a família se resolver com aquela coincidência, sem minha atenta observação. Eu já havia entendido tudo: quem se alimenta bem, mantendo-se hidratado e não é arrogante, vive muito e vive bem! E fiquei pensando na coincidência escrita nas entrelinhas. Mas esta deixarei por sua conta; a interpretação é sua!

***

Não perca! No episódio 5 de “Coincidências”:
E quando sua vida está nas mãos de quem você menos espera? Coincidência ou lição?


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Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


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