01/03/2020
Ano 23 - Número 1.163



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Avenca


Bhuvi Libanio - CooJornal

Há muito tempo não vou a uma casa onde crescem avencas.

Na sua tinha (ou ainda tem) um xaxim pendurado ou colocado no alto de um móvel, com os cabelos de vênus derramados? Será que vênus tem cabelos de avenca?

Li essa palavra, depois de nem sei quanto tempo sem ouvi-la, em uma biografia.

Assim como nunca mais vi avencas, minha menstruação nunca mais atrasou.

Quando eu era mais jovem, há três décadas, não se falava em preservativos, nem em métodos contraceptivos. Para evitar a gravidez era melhor não fazer sexo. Entendia-se que AIDS era doença de um tal “grupo de risco”. Ninguém era desse grupo. Ninguém fazia sexo. Mas um amigo de uma tia minha morreu em decorrência da AIDS. Depois de Cazuza. Então foi tudo bem falar na causa da morte dele. Minha gravidez na adolescência ficou escondida. Não se falava em aborto, nem mesmo no espontâneo. Mas mulheres abortavam. Uma namorada de um dos meus primos abortou. Era fácil comprar Cytotec nas farmácias. E motéis eram “clínicas” clandestinas onde a médica era a própria paciente.

Câncer era palavra proibida, como se tivesse poder de gerar a doença. E não se falava mais nisso.

Um grupo de jovens passou do outro lado da rua e eu pensei, enquanto trabalhava em pé para fazer o sangue circular: fantasia e embriaguez. Será que se protegeram nesse carnaval? Teriam eles evitado o sexo, ou só mesmo a gravidez e as doenças? Como bebem esses jovens! (Somente há pouco tempo comecei a chamar pessoas de jovens.)

No dia seguinte a essa cena, acordei com os gritos de um homem. Ele ameaçava matar o dono do bar, a esposa do dono do bar e o cliente “barrigudo” do bar. Quando cheguei na janela, ele estava no meio de sua apresentação para um transeunte: “eu não tenho nada contra tu não, mas vou matar aquele...” e levantou a camisa para mostrar uma faca na cintura da bermuda enquanto xingava alguns palavrões. Eu me senti personagem de filme antigo.

Liguei para a polícia. “Um jovem armado de faca ameaça o dono do bar, mas o dono do bar ainda não chegou...”

Lembrei meu avô. Ele contava uma anedota sobre o homem que leu “Armado de facão e revólver” em uma manchete do jornal, quando na verdade estava escrito “Armando Falcão, o repórter”. Eu morria de rir. Eu ria muito com meu avô.

Será que digo tudo o que quero dizer? Será que há tempo para dizer tudo o que há para ser dito? Quando perdemos tempo, de repente a gente diz: “a vida é um sopro”.

Mas às vezes o sopro passa e fica tudo... Como diria meu avô, “como dantes no quartel de Abrantes”. (Eu ria muito com meu avô!)
Li, também recentemente, “mulher de ferro com zonas erógenas e aparelho digestivo”. Achei uma boa descrição: substantivos são bons para esse fim.

Depois de escrever a catadupa de palavras acima (inúteis, talvez), a única coisa que importa é: muitas vezes é desnecessário falar. Como saber? Fale apenas se for verdade, se te pedirem opinião, se não fizer mal e se gerar o bem. Para falar é necessário primeiro despertar; tudo o que é dito permanece no ar. A palavra proferida é irrevogável, irresgatável, irrecuperável.

Hoje, você já disse que ama alguém? E quantas vezes já disse isso diante do espelho?

“Se eu morrer fazendo o bem, morro feliz. Pior será se morrer fazendo mal a alguém. Lutar por verdade e por justiça vale a vida” — foi o que eu disse a um pastor que me abordou, apresentou-se como líder religioso, aconselhou-me sobre como ficar rica escrevendo — “livros infantis, criança dá dinheiro” —, e depois culpou uma senhora por ter sido morta enquanto lecionava para um senhor que morava sozinho em uma casa afastada e por, consequentemente, ter deixado uma filha para criar e um marido viúvo. Da mesma forma, culpam mulheres que foram estupradas e/ou assediadas. Eu não tenho culpa. Mas o pastor afirmou que devemos desconfiar, porque todo mundo é suspeito, até que se prove o contrário. Não foi o que Jesus falou.

O tempo passa, a vida é um sopro, mas ninguém para esse carrossel.

No entanto, eu... Bem. O que passou, passou. Não quero crescer, nem sequer ver, mais avencas; também não quero minha menstruação atrasada. Quanto às palavras, por mim, todas deixam de ser tabu. Porque quando não falamos o que se tem a dizer, depois lamentamos: a vida é um sopro. Nosso tempo é agora.


Rio de Janeiro, depois do carnaval.


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Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


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