01/05/2020
Ano 23 - Número 1.171



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Na semente


Bhuvi Libanio - CooJornal


Mudei a posição dos móveis no apartamento onde moro. Agora, tomo café da manhã à janela, sempre aberta. Depois permaneço ali, sentada. Há uma árvore frondosa bem a minha frente, sinto que nos conectamos — ela abriga pássaros; um deles entrou há algumas semanas. Virginia, um dos gatos que moram comigo, gosta de deitar no meu colo, e juntas brincamos de reconhecer os cheiros que o vento traz. São diversos. Fragrâncias.

As manhãs de outono têm aroma de frescor. É tempo de voltar para casa. O chão guardará as pétalas que a primavera trouxe. Quando a casca do fruto é mais fina, a hora é de partir, saborear o doce mel da natureza. Beleza, Amor, Vida não estão nas palavras, mas sim, na simplicidade de ser; na semente da mostarda, está o paraíso. Quando ela cai em solo fértil, transforma-se em uma frondosa árvores: abrigo. Esta é a morte: não se perde a semente, ganha-se o Todo.

E o Todo está em permanente transformação.

Nas minhas mãos vejo o tempo passar. Mas já não me lembro como eram ontem. As mãos de hoje são o tempo que tenho.

Há um som que me chama a atenção: o das vassouras — arrastado, curto, repetitivo. Sem olhar, tento enxergar quantas pessoas varrem da calçada as folhas caídas. Amanhã haverá mais.

Há algumas décadas conheci uma jovem que tinha muito medo de morrer, mas ao mesmo tempo queria envelhecer. Era um paradoxo. A vida inteira ela quis estar lá na frente: aos quinze, queria ter quarenta anos; quando começou a estudar música e praticar piano, já queria saber tocar o Hino Nacional; quando conheceu o Amor, queria estar apenas com ele.

Mas nem todos os passageiros descem na mesma estação. É necessário seguir o caminho, e esperar: o movimento no universo tem efeito na Terra também. Ao fim e ao cabo.

O hino, ela jamais tocou e um acidente levou aquele Amor, deixando o pânico de ela mesma morrer sozinha dentro de um carro. Os quarenta, ela alcançou, aos trancos e barrancos, e então as coisas mudaram. Hoje ela não existe mais.

Demorou algum tempo antes que eu pudesse realmente compreender a Parábola do grão de mostarda (Lucas 13:18-19), a Parábola do bom samaritano (Lucas 10:29-37) e a sentir na alma o que, verdadeiramente, é Amor — essa divindade que nos conecta, que nos faz unos. O verdadeiro sentido só pode ser sentido, não está nas ondas, mas sim na escuridão azul, silenciosa e solitária do oceano. “Vai, e também tu, faze o mesmo.”

Onde há Amor não há medo, há entrega, não há palavras, há o Ser.

A transmigração é o retorno de uma viagem durante a qual descobrimos pessoas, lugares e vivenciamos momentos. Enquanto isso, vida e morte são dois lados da mesma medalha. Quando aprendi a desconstruir as dicotomias construídas pela sociedade, aprendi o caminho até a fonte. Não resta em mim medo. A existência é Nós.

A semente partiu, o movimento chegou, e é luz.


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Comentários sobre este artigo podem ser  encaminhados à autora no email bhuvi.libanio@gmail.com


Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


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