16/06/2020
Ano 23 - Número 1.177



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Cercados por muros


Bhuvi Libanio - CooJornal



Todos os tipos de coisas deste mundo se comportam como espelhos.
— Jacques Lacan



Uma das frases de que mais gosto foi escrita pelo neurobiólogo chileno Humberto Maturana: “tudo é dito por um observador”. Ele afirma, em suma, que existe uma estrutura interna dos seres; e onde os seres existem, há uma dinâmica da existência dessas vidas em interações recorrentes. Percepção é resultado da relação do que foi visto com a estrutura interna individual.

N’Os Upanishads, as mais antigas escrituras do hinduísmo, Brahman, mais do que um deus, é Sat-Chit-Ananda: existência, consciência e êxtase — “a única verdade, o mundo é irreal”. Nós mesmos construímos a experiência terrena.

Sidarta Gautama despertou do sono profundo da ignorância e se tornou o Buda quando renunciou ao conforto e à riqueza de uma casa aos pés dos Himalaias e se retirou nas florestas que cercavam o rio Ganges. Só então conseguiu enxergar o sofrimento que havia no mundo. Perguntavam se ele era deus, anjo ou santo; ele respondia: “eu despertei”.

No Brasil, diálogos que ultrapassam muros (altas construções fundamentadas em rancor, ódio, egoísmo) de castelos protegidos por egos armados, e se espalham nas redes, nas ruas, nos bares — e às vezes chegam aos ouvidos desta cronista — parecem vir de estruturas internas adormecidas em seu individualismo. Inconscientes. Entre ser e não ser, escolheram o sono profundo da morte, que ignora o que acontece ao redor, ignora as interações entre os seres e a existência.

Dorme o homem incapaz de perceber as consequências de sua existência para além dos limites de seu apartamento.

— Senti na pele como é importante saber descartar o lixo corretamente.
— Aquecimento global, né? O sol tá mesmo queimando a gente.
— Não. Joguei um Prestobarba na lixeira.
— O quê?
— Um Prestobarba.
— ...
— Gilete! Joguei na lixeira. Quando fui amarrar o saco, a merda do negócio cortou meu dedo.
— E o problema todo do descarte de lixo é seu dedo? Só isso?

Dorme o usuário de transporte público cujo olhar não vai além de seu umbigo.

— Senhor, seu cartão para verificação, por favor.
— Aqui...
— O senhor não validou o cartão.
— Valida ali para mim.
— O senhor tem que validar assim que entrar. Tem máquina perto de todas as portas.
— Eu acabei de entrar.
— Tudo bem, vou validar, mas da próxima vez o senhor faça isso imediatamente.
— … — (olhando para a pessoa sentada ao lado) Às vezes não conferem, aí não pago à toa.


Dormem cidadãos, como se a pandemia, um problema de saúde que afeta o mundo inteiro, fosse pessoal, uma simples questão de escolher se está ou não em sua hora de partir desta para melhor.
— Cara, tu não tá usando a máscara?
— Tô, sim. Tá ali no carro.

***

— E aí, coronavírus?!
— Fala tu!
— Vai usar a máscara não?
— Comigo é assim! Isso aqui é roleta russa. Quem tem que morrer vai morrer! É na sorte.
— No caso, azar. E o azar não é só seu, é dos outros pra quem tu passar a doença.

***

— Eu vou morrer mesmo! Se tem que morrer, morro assim, ó. Tô livre, nada no rosto; tô na rua; tô no bar.
— Só lembrando que o vírus contamina qualquer pessoa, tá?
— Mas eu sou forte.
— Tudo bem. Pode ser forte, a questão não é essa. Pensa: você pega e passa para uma pessoa que não é tão forte como você. Sacô?


A consciência individualista é uma construção de muito, muito tempo atrás. E tempo é o que temos para desconstruí-la e criar uma nova, que entenda a humanidade como única. Esse tempo é agora.

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”, disse Gandhi, porque enquanto perpetuarmos conceitos destrutivos, enquanto nossa estrutura interna compactuar com esses padrões, seguiremos contribuindo para a destruição de nós mesmos. É necessário sair do castelo, embrenhar-se na mata e despertar, para compreender que esta existência é responsabilidade nossa, só então conseguiremos mudar. É necessário ser consciente.

Enquanto uma pessoa sofrer, todas as demais sofrerão. Enquanto uma pessoa não for livre, todas as demais não serão. Enquanto uma pessoa estiver doente, a humanidade inteira estará doente.


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Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


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