01/07/2020
Ano 23 - Número 1.179



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



História não é memória


Bhuvi Libanio - CooJornal



“Quando largamos o medo, conseguimos nos aproximar das pessoas, conseguimos nos aproximar da terra,
conseguimos nos aproximar de todas as criaturas divinas que nos rodeiam.”
― bell hooks


História não é memória

Lugares são sítios onde histórias se guardam — cuidam-se e se complementam compondo a narrativa vida. Tudo está conectado. Nenhum tijolo por si só se deitou, nem o asfalto sozinho se fez. Tudo demanda tempo, paciência, dedicação. Há um pulsar da história, dos segredos e da energia dos afetos em tudo.
Ruas são arquivos, guardam acontecimentos diários acessados por seres que por elas caminham e escrevem a história. Há um silêncio nas calçadas, semelhante ao das páginas em branco, à espera de fatos.

Como o dia em que se abraçaram debaixo de um guarda-chuva, pela última vez. A água que vinha do alto para refrescar a noite na capital deu um tom hollywoodiano para a despedida. Aquela rua sabe das mãos que nunca se seguraram e do beijo que desejaram. Dizem que se por ali alguém caminhar atento, ainda ouvirá os suspiros de quem entrou no táxi e partiu e de quem fechou o portão, desejando estar do lado de fora.

Nas estradas por onde caminhamos há o som dos batuques, o cheiro do tempo, a vibração do gingado de corpos que se entregam. A melodia da existência de cada um de nós. Mas há também a história do corpo derrubado, dos passos corridos em fuga, das lágrimas derramadas.

Como no dia em que ela se deitou pela primeira vez na porta de uma loja de departamentos para fazer daquele espaço sua morada. Não houve chuva romântica, mas sim a secura nos lábios, na pele e na alma de quem foi rejeitada pela família. Não há abraços nem mesmo apertos de mão. Aquela rua sabe da fome e da solidão. Por ali transeuntes não andam atentos, ou fingem não enxergar o próximo.

“Todo dia é um novo começo” não é mero clichê. Não há como, nem por que negar a história; no entanto, é necessário cuidar para não cairmos na armadilha da memória como ritual de poder. Isto é, criar espaços no tempo onde guardamos exemplos de “triunfos” e “fracassos” que seguem modelos construídos socialmente. Esses espaços, por sua natureza, são fragmentados e, portanto, geram memórias criadas que disseminam e perpetuam lógicas dentro de conceitos que nos acorrentam ao carrossel em que vivemos, ou melhor, revivemos de novo e de novo. Memórias podem se tornar atalhos, caminhos estereotipados, saídas rápidas acessadas em caso de situações em que se espera uma reação imediata. Nesses espaços, preconceitos e, consequentemente, desigualdade surgem.
Compreender a história como história e não memória a ser revivida é o que nos permite viver o que é efetivamente novo. Viver novas consciências. Desconstruir padrões, lógicas, conceitos, e olhar para experiências como apenas aprendizados. Nessa prática, compreendemos que todas as vidas estão imersas nos acontecimentos, conectadas; então, conseguimos abordar os fatos, compreendendo que, sejam eles bons ou ruins, são experiências que podem nos afetar, no sentido de tocar, mas não precisam mudar a nossa essência, porque quando nos livramos de experiências como memórias que nos constituem, criamos uma ausência, um vazio e aceitamos a impermanência. Isso, por sua vez, é o que permite novas relações baseadas em novas condições, ou ainda, novos saberes. Porque é impossível preencher o que já está preenchido.
A rua esvaziada guarda resquícios de experiências. E quando ali passamos e preenchemos aquele vazio, quando ouvimos o suspiro e enxergamos as mãos que queriam se tocar, fazemos isso a partir da memória cristalizada; assim como quando não olhamos para o ser humano ali deitado, e não nos permitimos conectar com ele ou ela como seres divinos que somos. Ora, se desconstruirmos os padrões, as memórias cristalizadas, seremos capazes de criar novas experiências, talvez até mesmo criar condições para que as duas pessoas que desejaram, mas jamais se beijaram, possam enfim viver essa liberdade — ou se dar conta de que o desejo também é impermanente —; criaremos condições para que nenhuma pessoa trans precise fugir de casa e ser desprezada por viver sua natureza, mas que possa ter a liberdade pela qual todos os seres anseiam: de ser-se — ser o que é.
Somos silêncio e Amor — somos seres Divinos. Por isso podemos desconstruir o ódio, a ganância, o ressentimento. Podemos quebrá-los até chegar ao cerne e encontrar a humanidade. Sentimos o pulsar da história, dos segredos e da energia dos afetos, sim, mas isso deve ser usado para curar o presente e construir relacionamentos de Amor, reconhecendo as conexões entre as existências. Não para reviver a memória do que já não nos serve mais, não para repetir padrões. A diferença entre história e memória está na diferença entre consciência e inconsciência.
Assim ocupamos espaços, ou seja, preenchemos a existência com vidas, um vazio impermanente do qual cuidamos e no qual nos relacionamos. Por isso há sempre esperança. Ela está no presente. Ela existe agora. Diariamente.
Que todas as pessoas possam se ocupar, com Amor e Paz.


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Comentários sobre este artigo podem ser  encaminhados à autora no email bhuvi.libanio@gmail.com


Bhuvi Libanio é autora do blog The Book of Bhuvi
www.analuizalibanio.com


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