16/07/2018
Ano 21 - Número 1085


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Braz Chediak



QUEM SABE?



Com o frio cortante que tomou conta de nossa aldeia, ontem à tarde fui a pé a um serralheiro num bairro pobre da periferia.
As ruas estavam vazias, apenas algumas crianças soltavam pipas, ou jogavam futebol com uma bola de borracha.
As janelas estavam todas fechadas, talvez por causa do vento.
O Armarinho, que vende brinquedos e produtos de plástico, que sempre vi aberto, estava com as portas trancadas.

No interior, quando um ponto comercial fecha as portas em pleno dia, logo vemos, pregada nela, uma pequena folha A4 escrita a pincel: “Luto”.
Mas ali não havia nada, nenhum aviso.
Na casa vizinha uma mulher abriu a janela e perguntei o que tinha acontecido.
Ela olhou para os fundos, certificando-se que ninguém a escutava e contou-me: a filha da proprietária, de 16 anos, tinha engravidado e fora expulsa de casa (está, agora, na casa da avó, em outra cidade).
A proprietária, que pertence a uma religião X, fechara as portas por vergonha.

Eu conhecia a menina de vista, de minha varanda a via passar todas as manhãs, em direção à escola. Me chamava a atenção seu jeito de carregar os livros sob as mãos cruzadas sobre o peito, como se os abraçasse.

Agora, ali, parado diante daquela porta solitária, sinto sua falta, sinto pena daquela mãe que massacra seus próprios sentimentos por ser contra uma coisa tão natural.
E me indago:
Não seria melhor ela ter a filha em casa, talvez cantando uma canção de ninar enquanto ela borda um enxoval colorido para o neto ou a neta que virá?
Não seria bom, daqui há alguns meses, ter entre os braços uma criatura que é seu sangue e que lhe sorriria pela proteção?
Não seria melhor levar a criancinha para as ruas e mostra-la orgulhosa: “É o filho, é a filha, de minha filha. É minha vida que continua...”?

Amanhã é sábado.
Como sou um velho enxerido, tenho vontade de voltar àquela rua e conversar com a mulher.
Dizer a ela que tenho um neto.
Que fiquei feliz no dia em que ele nasceu. Fiquei feliz quando, na primeira vez que o vi ele me procurou com os olhos e sorriu.
Que fico feliz quando ele me abraça porque lhe dou um iogurte. Quando corre atrás de sua cadelinha vira-latas e rola com ela na terra...
Fico feliz quando ele faz cara feia porque não lhe dou um sorvete...
Fico feliz porque ele descobre, dia a dia, o grande mundo em que vive e viverá.
Porque nos tocamos, nos aquecemos...
Fico feliz porque vivemos.

Tenho vontade de pedir a ela que acolha novamente a jovem.
Que fique feliz, porque a vida deve ser acolhida e reverenciada em todas as religiões.
Dizer que Deus está em sua filha, no ventre de sua filha, e que é assim e será assim por todo o sempre.
E isto é bom.
Tenho vontade e... quem sabe?

- Comentários sobre o texto  podem ser enviados, diretamente, ao autor:  brazchediak@gmail.com


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG


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