19/02/2005
Número - 408

- É tão sublime o amor
- Vida de cachorro


 

Braz Chediak



LEILA DINIZ

Madrugada de uma noite fria e chuvosa na estação de Mangueira. Uma jovem mulher, roupas humildes, sapatos pobres, cabeça escondida entre os braços cruzados que servem de travesseiro, dorme sentada nas escadarias. Um rapaz magro pega uma lata de negativo, usada, semelhante a essas latas redondas de marmelada, e coloca-a a seu lado. Depois coloca uma nota de 1 cruzeiro, a de menor valor, e se afasta. A mulher continua adormecida, imóvel.

Logo em seguida pára o primeiro trem, despejando alguns passageiros sobre a plataforma. Um homem jovem, com cara de sono, tira do bolso uma moeda e pinga-a na lata da mulher que dorme. Uma senhora de idade faz um gesto de reprovação, mas também pinga sua esmola e afasta-se com pressa.

O trem dá a partida e seu barulho acorda a jovem mulher. Ela se espreguiça, vê a lata, pega o dinheiro, conta-o e dá uma gargalhada.

- Chediak você é um filho da puta! Mas a féria foi boa, vamos ver se tem algum boteco aberto e tomar um conhaque. Eu pago. Estou com um frio desgraçado.

A mulher era Leila Diniz, e estávamos filmando Mineirinho Vivo ou Morto.

Naquela época, o cinema era feito de sonhos, as atrizes ajudavam a varrer o cenário e a equipe, quando era grande, tinha que caber dentro de uma kombi. Não havia “cadeira do diretor”, nem “cadeira do ator” e, “Trailer para a atriz” era coisa que, ouvíramos dizer, existia em Hollywood. Por isso Leila, cansada, trabalhando como atriz e ajudando a fazer os sanduíches de mortadela que alimentavam equipe e elenco, adormecera na escadaria da estação.

Não me lembro se ela já era mito, se Todas as Mulheres do Mundo já havia sido lançado. Mas nos encontrávamos quase todas as noites no apartamento do diretor Aurélio Teixeira e sua mulher, a atriz Gracinda Freire, - Glauce Rocha, Glauber, Geraldo del Rey, Catulo de Paula, etc., também freqüentavam “a casa do Aurélio” - onde eu escrevia o roteiro do filme. E todas as noites, terminado o trabalho, Leila me pedia uma “carona”.

Não, eu não tinha carro. A “carona” era irmos no mesmo ônibus - quando tínhamos dinheiro - ou a pé, até a TV Rio, no posto seis, onde ela ia encontrar-se com Henrique Martins, seu namorado.

Leila Diniz não tinha preconceitos: logo depois do filme começou a ensaiar TEM BANANA NA BANDA, Teatro de Revista, gênero que, na época, era considerado menor, execrado pelos chamados “artistas sérios”. E aqui abro um parêntese para dizer que foi ela quem aconselhou Sandra Bréa a trabalhar nos Revistas – ou TEATRO DE REBOLADO, como o rebatizou Sérgio Porto. - no início de sua carreira. Fecho o parêntese e afirmo que essa atitude deixou os puristas de bocas abertas. Havia discussões nas ruas, nas praias, nos bares, etc. Uns a defendiam, outros cuspiam de lado. Rapidamente seu nome tomou conta do Rio e centenas de jovens começaram a imitá-la. Mas ela continuava a mesma Leila, com seu ar desamparado e seu jeito moleque, que tanto fascinavam o público. Aliás, não era só fascínio. Acho que o público tornava-se cúmplice dela, este era o segredo de ser tão amada por homens e mulheres. Amada como atriz e como mulher, amada como ser humano.

Hoje, revendo seu trabalho, confirmo a grande atriz que ela era: intuitiva, natural, verdadeira. E, quando vejo uma foto sua, sempre a comparo com outro mito, que ela amava: Marilyn Monroe. Ambas tinham a mesma pureza no olhar, a mesma mistura de mulher sensual e criança desamparada, a mesma intuição de ser atriz genial e estar no lugar e na hora certa para a notícia.

Mas isto era uma coisa natural na Leila. Ela não era Vedete, no sentido pejorativo da palavra. Ela tinha consciência de que a profissão de artista, naquela época, era uma profissão dura, sacrificada, mal paga e inconstante. Ela via Grande Otelo correndo a noite inteira, pulando de um show para outro, para ganhar uns trocados. Ela via a grande Glauce Rocha se ralando para pagar as contas de seu pequeno apartamento no edifício tão significativamente chamado “Alone”.

Quase da mesma idade que Leila e trabalhando no mesmo meio, era natural que nos encontrássemos sempre. E várias vezes eu a vi aconselhando jovens atrizes e atores. Mostrando caminhos e incentivando-os a batalhar, batalhar, batalhar. Leila era uma batalhadora.

Não me lembro se era fria ou quente a noite em que cheguei à Fiorentina e Paulo Pontes me disse que Leila havia morrido. Sei que fiquei triste, muito triste, e tomei alguns whiskys a mais por causa dela.

Leila Diniz marcou profundamente uma época.

Não sei se foi feliz. Sua paixão era o cinema. Acho que foi correspondida.





(19 de fevereiro/2005)
CooJornal no 408


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br