25/06/2005
Número - 426


ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK

 

 

Braz Chediak



A solidão da eternidade

Todos os dias, quando abro o jornal ou ligo a televisão, dou de cara com notícias sobre clonagem. Chego mesmo a pensar que a imprensa, banalizando este importante fato, está fazendo um trabalho de propaganda para que a população do planeta aceite esta aberração.

Do ponto de vista particular, me espanto com nossa vaidade de querer viver eternamente ou, pior ainda, ter um duplo. Será que não percebemos que somos seres únicos, que duplicar-nos será alterar a harmonia de todo o universo?

Simone de Beauvoir, em seu livro Todos os homens são mortais, criou um personagem, o Conde Fosca, que no século 13, após tomar um elixir, se torna imortal. “Fosca superou a morte. Viveu a formação da nacionalidade italiana, andou pela América dos espanhóis, conheceu o entusiasmo da liberdade na França dos enciclopedistas, e veio aos dias de hoje...”

É comovente e triste quando, Beatriz, um de seus muitos amores, lhe diz, recusando uma carícia:

- “Seu corpo me dá medo. É de outra espécie.

Como era de outra espécie o Ser criado pelo Dr. Frankenstein no genial livro de Mary Shelley. E como era solitário este Ser. Quanta dor existe em suas palavras:

“- Todos homem deve – exclamou ele – procurar uma esposa para aquecer seu coração, todo animal deve ter sua companheira, e eu? Devo permanecer sozinho?”

Sim, o homem imortal está sozinho. Ele quer se igualar a Deus e não tem a quem agradecer a vida.

O Conde Fosca procurou sua imortalidade. A criatura de Frankenstein foi construído alheio à sua vontade. É, mais ou menos, como o doador da célula e o clone.

O doador, “eterno” porque possuirá órgãos novos para substituir os antigos que adoecem, será um infeliz, pois verá seus amigos, esposas ou maridos envelhecerem e morrerem. E pior, verá os próprios filhos envelhecerem e morrerem.

O clone será infeliz, pois verá seu corpo ser retalhado para dar vida a outro, saberá que outro precisa de sua morte para sobreviver. E um dia ele descobrirá que foi feito pelas mãos do homem, e não de Deus, e que seu paraíso é aqui e ele o está perdendo para sempre.

                  “Pedi eu, ó Criador, que do barro
                   Me fizesses homem? Pedi para que
                   Me arrancasses das trevas?”
                            (O Paraíso Perdido, X, 743-45)

- Ah, dirão alguns, eu quero um clone para ser uma criatura como eu, e ter sua própria vida!

Quem diz isto se esquece que nós, além da história genética que herdamos de nossos pais, com todas suas belezas e misérias, temos também nossa própria história, escrita com nossas alegrias e tristezas, nossos medos e coragens, nossos amores e desamores. Temos nossa memória, museu de tudo quando fomos e sentimos, que é nossa, particularmente nossa, labirinto sagrado onde ninguém pode penetrar sem nosso consentimento.

Nós, seres humanos, precisamos olhar mais para nós mesmos e nos dar conta que é preciso morrer para renascer. É preciso nos darmos conta que somos efêmeros, transitórios. E que é o efêmero que nos ajuda a escrever este grande e belo livro que é nossa vida. É o efêmero que nos dá a dimensão da beleza cósmica, que nos faz perceber, até na mais pequenina e radiosa mônada, a presença de Deus, o único criador. O único eterno que não é solitário, pois aceita morrer em cada flor para que haja o fruto, em cada fruto para que haja a semente, em cada semente para que haja a árvore. Aceita morrer, porque É a vida. 


(25 de junho/2005)
CooJornal no 426


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br