
06/08/2005
Número - 436
ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK |
Braz Chediak
AMORES DESESPERADOS |
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Eu me lembro de que, há
muitos anos, a Rua da Cotia amanheceu com uma notícia que deixou a
cidade toda em polvorosa: a fulana fugiu com um soldado da polícia! As
mulheres abriam as janelas, cochichavam, chamavam as vizinhas para
comentar o fato. Os homens se reuniam nas barbearias, vendas e botequins
com, sorrisos maliciosos, saboreando o fato. As notícias chegavam
desencontradas: uns diziam que o marido traído estava armado para matar
a ingrata e seu amante, outros que ele estava trancado num quarto
escuro, o paletó do terno molhado de lágrimas, berrando de dor e de
vergonha. E não queria mais comer ou beber água.
Por um lado, invejei o amante. Eu nunca havia visto aquela mulher, é
verdade, mas o fato de ela ter fugido com outro dava-lhe um certo
mistério, um tom de aventura. Eu a imaginava vestida como uma vamp de
cinema, seios arfantes, olhar de serpente, atravessando os vagões do
trem em movimento - coisa terminantemente proibida para nós, crianças, e
que era o máximo em aventura - ou caminhando em ruas escuras em
companhia do amado.
Por outro, senti imensa piedade pelo marido. Me entristecia com seu
grito de dor, seus cabelos desalinhados - naquela época, um homem de
respeito não aparecia em público sem pentear os cabelos - sua barba
crescida e, mais que tudo, pelo fato de não querer comer.
Aquelas imagens, da mulher maravilhosa e do marido tenebroso, me ficaram
na cabeça durante todo o dia. À noite meu avô ainda comentou, com um
sorriso malandro:
- Ah, a fulana com aquela carinha de santa, quem diria! Boi sonso é que
arromba o curral!
É claro que, em seguida, a cidade inventou histórias:
- Há muito tempo eles estavam juntos!, diziam uns.
- O marido sabia e ficava quieto!, diziam outros.
- O coitado nunca desconfiou!, falavam terceiros.
O fato é que aquela santa senhora sumiu definitivamente de Três Corações
e o marido... bem, o marido, para esquecer a dor e a vergonha, foi para
a casa de um parente no interior de São Paulo e dizem que chorou todas
as manhãs de sua vida, soluçando o nome da amada.
Hoje nós não temos mais essas paixões arrebatadas. Os homens traídos não
se trancam mais em quartos escuros. Em geral, já têm outra engatilhada
ou, no máximo, ficam dois ou três dias bebendo com os amigos e de olho
na vizinha que passa rebolando em direção à padaria ou ao açougue.
As mulheres, quando arrumam outro, no máximo comunicam ao marido:
- Olha, estou vazando! Tcháu!
Fazem a mala, levam o biquíni, a blusa mais decotada, a saia mais justa,
a caixa de camisinhas, e à noite já estão no forró, dançando
agarradinhas com o novo amor.
A palavra amante foi substituída por “estou ficando”.
Às vezes me pergunto: será que as pessoas deixaram de amar? Não. Não
creio. É que estamos na era da informática, no mundo globalizado, onde
tudo é mais rápido. E as pessoas se tornaram mais materialistas, os
amores mais racionais, menos desesperados. Nós temos coragem de ir à
lua, mas perdemos a coragem de dizer “eu te amo!” Ninguém revela mais o
grande amor.
As mulheres perderam a coragem de fugir com soldados da polícia. Os
homens perderam a coragem de se trancar num quarto escuro e, arrancando
os cabelos, berrar de dor, como berra de fome um bezerro desmamado:
- Muuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
(06 de agosto/2005)
CooJornal
no 436
Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br
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