01/01/2006
Número - 457


ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK

 

 

Braz Chediak



CARTA À IRENE SERRA

Prezada Irene,
Recebi seu e-mail reclamando que não tenho escrito. Me justifico: Três Corações é uma cidade sitiada que atualmente está passando por uma situação complicada. É que o Rei Pelé nasceu aqui, o que dá certo status à cidade ainda que ele tenha ido para Bauru, ou Santos, quando recém nascido. Mas, para nosso azar, o ET, cismou de baixar em Varginha, cidade vizinha com a qual temos uma rixa danada, e levou para lá os nove turistas que vinham nos visitar anualmente e tirar fotos sorridentes em frente à estátua do craque. Foi um caos. Culparam o prefeito, o bispo, o diabo-a-quatro. Formou-se uma disputa que me amedrontou tanto que fiquei sem sair de casa, abrir as janelas ou ligar o computador.

Acho que Pelé joga melhor futebol, mas nesses tempos de mistérios, de Harry Potter, de Senhor dos Anéis, etc., as pessoas se aproximaram mais da magia, do mistério, e o danado do ET tem levado vantagens.

Para piorar a situação, não temos esgoto decente, nossas “necessidades” são jogadas no Rio Verde. E Varginha colocou, logo em sua entrada, uma enorme placa: VARGINHA TEM ESGOTO TRATADO PELA COPASA. CIDADE LIMPA CIDADE CIVILIZADA. Acredito que só não houve guerra porque alguns vereadores e parte da imprensa tricordiana foi contra o projeto de tratamento do nosso esgoto e não pegava bem, numa hora destas, levantarem as cristas. Ah, não fosse isso teríamos a primeira “Guerra Intestina” do planeta! Tenho, ou não, razão em estar com medo?

Mas, cá para nós, estas rivalidades não são exclusivamente nossas, estão presentes na vida de todos os povos do planeta, e nos ajuda a compreender suas mazelas e, principalmente, seu humor.

Dou alguns exemplos brasileiros: no estado do Rio moradores de outra cidade diziam “Macaé: má terra, má gente, má maré”. Em São Paulo: “Caboclo de Taubaté, cavalo pangaré e mulher que mija de pé, libera nóis, Dominé!” - Este “dominé” será uma corruptela de “Dominus?” Sei lá, fica a critério dos meus 3 ou 4 leitores eventuais leitores e ouvintes.

A competição existe também entre estados e é tradicional a rixa entre mineiros e capixabas. Dizíamos: “capixaba começa mas não acaba.”, enquanto que no Espírito Santo nos devolviam: “de Minas o ouro, do mineiro o couro.” Aliás, acho que somos mesmo implicantes, já que fuxicávamos do Rio Grande do Sul: “Gaúcho só com faca no bucho.”, e de São Paulo: “Paulista, nem fiado, nem à vista.” E ficávamos fulos da vida quando São Paulo rebatia: “Mineiro, nem a prazo nem a dinheiro.”

Amadeu Queiroz, em seus estudos, achou estas pérolas: “quem casa com paulista nunca mais levanta a crista.” e “quem casa com mineiro vive sempre no chiqueiro.” Esta última frase em conseqüência de Minas ter sido terra de grandes criadores de porco.

Cornélio Pires nos diz que os moradores de Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, chamavam os pelotenses de “papa-cebo” e os pelotenses chamavam os Lagoenses de “papa-areia”.

Um dia Milton Nascimento me disse: “Braz, para matar um homem de Três Corações, só uma faca de Três Pontas!”. Recentemente, tomando um whisky na orla de Petrolina elogiei a vista de Juazeiro, do outro lado do São Francisco. O homem da barraca, entre gozador e ofendido, retrucou: “É, eles ficam lá olhando pra cá que é mais bonito.”

Para terminar minha justificativa, este exemplo citado por Leonardo Arroyo – do qual eliminei muitos versos para abreviá-lo -, que ilustra bem a rivalidade entre cidades, povoados, etc.

“Carinhanha é bonitinha
Malhada é que não é.
Passo fora de Morrinho,
Pago imposto em Jacaré.
Januária é da cachaça,
São Francisco é da desgraça,
São Romão – feitiçaria,
Pirapora, putaria.”

Um grande abraço,
Braz


 

(01 de janeiro/2006)
CooJornal no 457


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br