
17/02/2007
Ano 10 -
Número 516
ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK |
Braz Chediak
BELEZAS GRATUITAS |
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Da varanda de minha casa observo a cidade lá embaixo, silenciosa,
escurecendo. Sou daqueles que têm a doença do anoitecer, isto é, sente uma
grande tristeza, uma grande angústia, o sentimento de finitude, quando
começa a escurecer, e para me livrar deste sentimento, faço algumas fotos
da paisagem. Por um instante me sinto aliviado, bebo com prazer uma dose
de whisky e me indago por que quis fazê-las, já que a luz está ruim, não
sairão boas.
É sabido que todos nós queremos prender o tempo, guardá-lo, ainda que em
fotos imperfeitas, e não deixá-lo passar. Por nos sabermos mortais temos a
necessidade exagerada de permanência. Queremos ficar, prolongar os
momentos como se eles nos ajudassem a prolongar a vida.
Claro, somos diferentes uns dos outros, ainda que pertençamos a mesma
raça, a variada e bela raça humana, mas nos diferenciamos por coisas
mínimas – ou máximas. Alguns constroem palácios, que ruirão com o tempo.
Outros, como, Goethe, Shakespeare, Clarisse, Tom Jobim ou Guimarães Rosa,
por exemplo, constroem monumentos eternos que esparramam suas belezas
gratuita e generosamente.
Alguns, se entregam às religiões, à busca da imortalidade, seja ela nos
páramos longínquos ou numa reencarnação que pode estar perto de nós. Mas
todos, quase sem exceção, queremos prolongar a vida, não percebemos que a
morte é uma coisa boa, que é graças a ela que existe a renovação, o
renascimento.
A eternidade física, se houvesse, seria monótona e amedrontadora. Seríamos
como o Conde Fosca, criação de Simone de Beauvoir em TODOS OS HOMENS SÃO
MORTAIS. Fosca, que viveu do século XIII até o século XXI, conheceu
países, amou mulheres. Mas viu envelhecer e morrer estas mulheres, seus
filhos e os filhos de seus filhos. Existe maior solidão que esta? Não sei.
Mas sei que ele não foi feliz, faltava-lhe o sentido do transitório, da
renovação. Uma das cenas mais belas do romance é quando Beatriz, uma de
suas amadas, muito amada, está morrendo e ele quer acariciá-la. Ela
recusa, dizendo: “seu corpo me dá medo. É de outra espécie.” Sim, o corpo
de Fosca era de outra espécie, era imperecível, não-humano.
Sérgio Milliet, na orelha da edição brasileira, nos diz: “Se não houvesse
o efêmero que dá sua medida, o prazer transformar-se-ia em dor. O minuto
que acaba torna belo o presente, valoriza-o, deixa-o na saudade. Com a
eternidade, desapareceria também o encanto de nossas vidas. A morte,
limitando nosso tempo, obriga-nos a tomar decisões: são múltiplos os
caminhos. O destino é pois a soma de nossas opões. No dia a dia, traçamos
o enredo de nosso próprio romance, na apaixonante espera do desenlace. Mas
se não morremos, para que decidir. Aí está: a imortalidade é a morte da
vida.”
O Conde Fosca não amou verdadeiramente a não ser a si mesmo, não percebeu
que a própria transitoriedade do amor significa vida. É dessa
transitoriedade seminal que tudo renasce, que a continuação se eterniza. A
flor ama a abelha que a fecunda, a semente ama a chuva que penetra em suas
entranhas, a mulher ama o homem, o homem ama a mulher e todos amamos,
ainda que inconscientes, para que a morte seja bela, seja o próprio
renascer.
Bobbio diz que a morte “nada mais é que o retorno à natureza, para onde
confluem todas as coisas.”. Sim, e esta confluência, este encontro, se dá
no OM, no grande e sagrado OM, o eterno retorno, o fim e o princípio, o
encontro das pontas que formam o círculo.
Mas estou me estendendo e perdendo o espetáculo da noite que cai sobre a
cidade. Os faróis dos carros e ônibus cortam as ruas, a população volta
para suas casas. Brevemente haverá cheiro de comida, vozes de novelas,
notícias nas TVs. Haverá gritos de crianças brincando, esperanças de
jovens se preparando para o amor, velhos se preparando para dormir. Haverá
também a fome e medo, encontros e desencontros, esperanças e desânimos,
ternuras e crimes, nascimentos e mortes. Tudo isto faz parte da cidade.
Faz parte desta coisa complexa que se chama vida e que a cada mônada muda
de formato, cor, perfume... E porque muda continuamente é bela, e por ser
bela a estou observando, como quem observa uma paisagem gratuita vista da
varanda.
(17 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 516
Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@gmail.com
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