14/10/2011
Ano 14 - Número 757


ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK

 

 

Braz Chediak



O CÃO DE MAMBORÊ


 

 Para Milton Nascimento.

No dia 3 de outubro li, na grande imprensa, uma notícia que me enterneceu e fez meditar sobre a condição humana: No município de Mamborê, no Paraná, um cachorro vira-latas foi morar no cemitério para ficar ao lado de seu dono recém falecido. Não queria se separar daquele a quem amou e, quem sabe?, continuará amando até seu próprio fim.

Este fato, além de mostrar a fidelidade do animal, nos revela uma faceta de nossos sentimentos que estamos esquecendo: a amizade.

Houve um tempo em que a amizade era cultivada, durava, e, quando havia desavenças entre os amigos eles se procuravam, ouviam, se explicavam e os laços eram reatados com pedidos de desculpas, talvez lágrimas, e um grande abraço.

Milton Nascimento, em CANÇÃO DA AMÉRICA, diz que “Amigo é coisa pra se guardar/debaixo de 7 chaves/dentro do coração...”, mas parece que hoje, quando todos ficamos virtualmente mais próximos, nos distanciamos em sentimentos.

Podemos conversar diariamente, numa linguagem moderna, de teclas, mas não ouvimos as alegrias ou tristezas no tom da voz, no brilho ou embaciar dos olhos, no toque, nos silêncios. Falta a aproximação humana, a mais importante das aproximações.

Claro, isto não é culpa do computador, este objeto tão útil, mas da transformação de nossas próprias almas, mais preocupadas com o acúmulo, com a frieza das moedas e das notas, que contamos levando os dedos aos lábios como se a elas transmitíssemos o beijo que antes era reservado às pessoas queridas.

Amizade está se tornando apenas uma palavra e, raramente, num gesto de um solitário coveiro, Sidnei Ramos, que alimenta o cão e, por não saber seu nome anterior, o batizou de Rambo, porque ele ataca qualquer outro animal que se aproxima do túmulo.

Rambo nunca mais ouvirá a voz de seu velho companheiro, mas, como diz a canção, “o que importa é ouvir a voz que vem do coração./Pois, seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia amigo eu volto a te encontrar/Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar”. E bem aventurado é aquele que percebe este dia, este encontro.

E aqui abro um parêntese para chamar a atenção dos leitores para a ironia: O nome do herói violento, sanguinário, criado por Silvestre Stallone, foi dado ao guardião do túmulo de um homem que nunca usou armas, que esbanjou carinho e amou a seu cão como a si mesmo.

É provável que “amizade” tenha vindo de AMICUS, palavra latina, derivada de amore, que em português quer dizer amor, sentimento que nos transforma. Em diversas religiões a Amizade, de tão importante, foi santificada e, nos evangelhos canônicos – provavelmente de Lucas – dizem que Jesus declarou que “Nenhum amor pode ser mais que este, o de sacrificar a própria vida por seus amigos”.

Fecho o parêntese e constato que hoje, mais que nunca, o homem sente o peso da solidão. Afasta-se da ligação cósmica e flutua no vácuo, no nada. Me dou conta que, muitas vezes, andando pelas ruas, observo o olhar atônito, triste, daqueles que aniquilaram seus sentimentos e descobriram que não têm outra coisa para substituí-los, para colocar no lugar vazio. Como são tristes estas pessoas.

Em minha imaginação, vejo-as nas noites solitárias, sentadas diante da TV, tentando a aproximação, o amor ou a amizade com os personagens fictícios dos filmes ou das novelas. Sei que, muitas vezes, estas pessoas choram por pena deste ou daquele personagem, mas o que sentem é pena de si mesmas.

Nascemos para sermos livres. Nascemos para ser felizes. E uma forma de liberdade e de felicidade é termos um amigo que reparta conosco o bom e o ruim, a tristeza e a alegria. Que troque conosco a compreensão do que é amizade e, como nosso cantor, espalhe pelo mundo que “Amigo é coisa pra se guardar/debaixo de 7 chaves/dentro do coração”.

Carpe Diem.


(14 de outubro/2011)
CooJornal no 757


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@gmail.com 

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