|
Bruno Kampel
MANIFESTO DAS OVELHAS NEGRAS
|
|
Pesando e medindo atos e fatos da vida, e comparando alguns projetos com
seus resultados, é fácil concluir que geralmente os desafinados somos nós,
e não a vida ou os projetos ou seus resultados; apenas nós, os poucos que
obstinadamente insistimos em pedir peras à macieira; os raros que
teimosamente não renunciamos a procurar formigueiros no asfalto; os
extravagantes que preferimos ser surdos num discurso e mudos num concerto,
porque o que realmente procuramos são as pequenas perguntas que desafiam,
e não as grandiloqüentes respostas que satisfazem.
Somos o que convencionou-se definir como verdadeiras e abomináveis ovelhas
negras, sem pôr nem tirar, e não temos problemas de confessar sem rubor
que isso honra-nos muito, pois por temperamento preferimos cultivar idéias
no jardim dos fundos da nossa existência, a ter que invejar as roseiras
que nos olham desde o jardim do nosso vizinho; optamos sempre por plantar
uma árvore na esquina da nossa própria verdade, antes que desmatar a
estrada pela qual transita a verdade de nossos adversários; escolhemos
sempre cuidar a grama que cresce entre as estrofes do nosso ideário ou nas
entrelinhas dos nossos fracassos, a ter que apará-la para satisfazer o
gosto alheio; e principalmente, escolhemos lavar e passar as nossas velhas
e surradas utopias - essas que jazem no fundo da gaveta das boas intenções
- a ter que abaixar os braços e aceitar as ordens peremptórias e quase
sempre sem sentido dessa déspota chamada Realidade; e sabe-se lá mais o
quê, ou vai ver que sim sabe-se lá muito bem o quê, mas o que
verdadeiramente importa é que tratemos todos de ser mais felizes do que
merecemos e muito menos infelizes do que mereçamos, e nada mais.
O que sim, é necessário desejar que o tempo nos ensine a sintonizar com
maior precisão a freqüência dos interesses do próximo, e quem sabe, como
prêmio, esse mesmo tempo faça que o próximo fique um pouquinho mais
tolerante toda vez que esbarrar numa idéia desagradável, num pensamento
antagônico ou numa ideologia diferente, já que todos estamos à procura de
pontes e não de precipícios; de temas que obriguem a pensar, e não de
distrações que convidem a esquecer; de batalhas dialéticas que forjem
nosso caráter, e não de simples vitórias que o deformem.
(01 de fevereiro/2003)
CooJornal
no 300