01/02/2003
Número - 300

-

 
Bruno Kampel



MANIFESTO DAS OVELHAS NEGRAS

 

Pesando e medindo atos e fatos da vida, e comparando alguns projetos com seus resultados, é fácil concluir que geralmente os desafinados somos nós, e não a vida ou os projetos ou seus resultados; apenas nós, os poucos que obstinadamente insistimos em pedir peras à macieira; os raros que teimosamente não renunciamos a procurar formigueiros no asfalto; os extravagantes que preferimos ser surdos num discurso e mudos num concerto, porque o que realmente procuramos são as pequenas perguntas que desafiam, e não as grandiloqüentes respostas que satisfazem.

Somos o que convencionou-se definir como verdadeiras e abomináveis ovelhas negras, sem pôr nem tirar, e não temos problemas de confessar sem rubor que isso honra-nos muito, pois por temperamento preferimos cultivar idéias no jardim dos fundos da nossa existência, a ter que invejar as roseiras que nos olham desde o jardim do nosso vizinho; optamos sempre por plantar uma árvore na esquina da nossa própria verdade, antes que desmatar a estrada pela qual transita a verdade de nossos adversários; escolhemos sempre cuidar a grama que cresce entre as estrofes do nosso ideário ou nas entrelinhas dos nossos fracassos, a ter que apará-la para satisfazer o gosto alheio; e principalmente, escolhemos lavar e passar as nossas velhas e surradas utopias - essas que jazem no fundo da gaveta das boas intenções - a ter que abaixar os braços e aceitar as ordens peremptórias e quase sempre sem sentido dessa déspota chamada Realidade; e sabe-se lá mais o quê, ou vai ver que sim sabe-se lá muito bem o quê, mas o que verdadeiramente importa é que tratemos todos de ser mais felizes do que merecemos e muito menos infelizes do que mereçamos, e nada mais.

O que sim, é necessário desejar que o tempo nos ensine a sintonizar com maior precisão a freqüência dos interesses do próximo, e quem sabe, como prêmio, esse mesmo tempo faça que o próximo fique um pouquinho mais tolerante toda vez que esbarrar numa idéia desagradável, num pensamento antagônico ou numa ideologia diferente, já que todos estamos à procura de pontes e não de precipícios; de temas que obriguem a pensar, e não de distrações que convidem a esquecer; de batalhas dialéticas que forjem nosso caráter, e não de simples vitórias que o deformem.
 

(01 de fevereiro/2003)
CooJornal no 300
  


Bruno Kampel
escritor
Suécia
bruno.kampel@zeta.telenordia.se
http://kampel.com/poetika/brunokampel.htm