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Bruno Kampel
O NOVO MUNDO DO BEM
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Pondo um ponto final à enervante escalada de violência na qual os
terroristas de Al Qaeda, financiados, treinados e armados pelo açougueiro
de Bagdad, trataram de aniquilar a todos os pacatos funcionários da CIA e
aos pacíficos membros das forças armadas dos Estados Unidos, Saddam
Hussein - o mais sanguinário ditador da História da humanidade - será
finalmente condenado à morte e executado sem mais delongas pelo delito de
ser o único responsável pela fome na África, pela miséria na Ásia, pelo
frio na Europa, pelos incêndios na Oceania e pela brutal discriminação que
sofre a população autóctone em toda a América Latina.
O pacifismo será definitivamente extirpado da vida pública mundial, por
ser sem nenhuma sombra de dúvida o único responsável pela existência da
Aids, do câncer, da diarréia endêmica, dos meninos de rua, do fenômeno do
Ninho, dos terremotos, da tartamudez e da incontinência urinária.
O famigerado desejo de encontrar o caminho da Paz será proibido por
decreto-lei do Imperador Bush II (e o amém a posteriori do
Interventor-Geral Antonius Blair I), para evitar que os inimigos do
mandato divino recebido pelos Estados Unidos - esse nihil obstat
que tudo permite a uns e tudo proíbe aos outros - ousem tratar de ensinar
às crianças a refinada arte de saber entender além dos discursos
mentirosos e das manchetes pré-fabricadas.
Os arquitetos da Nova Ordem, os cultos e sábios Condolezza Rice e Donald
Runsfeld, serão indicados para partilhar o Prêmio Nobel da Paz,
reconhecendo-se finalmente a sua luta sem quartel em favor da indústria
bélica e das multinacionais do petróleo, baluartes da nova democracia
ocidental e cristã.
Sim, muito mais cedo do que alguns pensam, este início do novo mundo
made in Hollywood verá como terminam na prisão os miseráveis e
traidores membros das organizações terroristas do tipo Amnesty
International, Médicos sem Fronteiras, America Watch, os quais, numa
atitude subversiva digna da mais absoluta repulsa mundial, insistem em
tratar de ajudar às sanguinárias e desnutridas crianças do Iraque a comer,
para assim tratar de continuar vivendo.
Enquanto tudo isso estiver ocorrendo, os paladinos da ética e da
liberdade, festivamente reunidos na sala do trono em Washington D.C.,
serão elevados à categoria de heróis multinacionais, expoentes vivos do
novo pensamento imperante e da recém estreada mundialização da ignomínia.
E tem mais ainda, muito, muitíssimo mais, tanto, mas tanto, tantíssimo
mais, que melhor, muito melhor, muitíssimo melhor, é eu ficar calado aqui
no meu canto.
Alea jacta est.
(08 de fevereiro/2003)
CooJornal
no 301