08/02/2003
Número - 301


 
Bruno Kampel



O NOVO MUNDO DO BEM

 

Pondo um ponto final à enervante escalada de violência na qual os terroristas de Al Qaeda, financiados, treinados e armados pelo açougueiro de Bagdad, trataram de aniquilar a todos os pacatos funcionários da CIA e aos pacíficos membros das forças armadas dos Estados Unidos, Saddam Hussein - o mais sanguinário ditador da História da humanidade - será finalmente condenado à morte e executado sem mais delongas pelo delito de ser o único responsável pela fome na África, pela miséria na Ásia, pelo frio na Europa, pelos incêndios na Oceania e pela brutal discriminação que sofre a população autóctone em toda a América Latina.

O pacifismo será definitivamente extirpado da vida pública mundial, por ser sem nenhuma sombra de dúvida o único responsável pela existência da Aids, do câncer, da diarréia endêmica, dos meninos de rua, do fenômeno do Ninho, dos terremotos, da tartamudez e da incontinência urinária.

O famigerado desejo de encontrar o caminho da Paz será proibido por decreto-lei do Imperador Bush II (e o amém a posteriori do Interventor-Geral Antonius Blair I), para evitar que os inimigos do mandato divino recebido pelos Estados Unidos - esse nihil obstat que tudo permite a uns e tudo proíbe aos outros - ousem tratar de ensinar às crianças a refinada arte de saber entender além dos discursos mentirosos e das manchetes pré-fabricadas.

Os arquitetos da Nova Ordem, os cultos e sábios Condolezza Rice e Donald Runsfeld, serão indicados para partilhar o Prêmio Nobel da Paz, reconhecendo-se finalmente a sua luta sem quartel em favor da indústria bélica e das multinacionais do petróleo, baluartes da nova democracia ocidental e cristã.

Sim, muito mais cedo do que alguns pensam, este início do novo mundo made in Hollywood verá como terminam na prisão os miseráveis e traidores membros das organizações terroristas do tipo Amnesty International, Médicos sem Fronteiras, America Watch, os quais, numa atitude subversiva digna da mais absoluta repulsa mundial, insistem em tratar de ajudar às sanguinárias e desnutridas crianças do Iraque a comer, para assim tratar de continuar vivendo.

Enquanto tudo isso estiver ocorrendo, os paladinos da ética e da liberdade, festivamente reunidos na sala do trono em Washington D.C., serão elevados à categoria de heróis multinacionais, expoentes vivos do novo pensamento imperante e da recém estreada mundialização da ignomínia.

E tem mais ainda, muito, muitíssimo mais, tanto, mas tanto, tantíssimo mais, que melhor, muito melhor, muitíssimo melhor, é eu ficar calado aqui no meu canto.

Alea jacta est.
 

(08 de fevereiro/2003)
CooJornal no 301


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor.
Reside atualmente na Suécia.
bkampel@home.se 
http://kampel.com/poetika/brunokampel.htm