01/10/2005
Número - 444

ARQUIVO
BRUNO KAMPEL

 
Bruno Kampel


O PRESENTE

Fui até a livraria para comprar um buquê de versos. O florista que me atendeu disse-me que estavam em falta. Mas não desisti. Fui até a loja que vende flores e pedi um livro de poesias cheirando a jasmins. O livreiro desculpou-se dizendo que estava esgotado.

Teimoso como sou entrei no circo querendo comprar a tristeza do palhaço, mas só tinham para vender a caricatura do seu sorriso. Diante disso, fui até a maternidade tentando achar  um pouco de ternura, mas a enfermeira garantiu-me que isso só se encontra nos poemas de amor. Então, ante o dilema de parar ou seguir, decidi continuar à procura do presente, pois queria mandar algo que significasse mais do que apenas um mimo. 

Sim, revirei meia cidade buscando alguns gritos de felicidade, mas só achei gemidos de segunda mão. Tentei encontrar suspiros de prazer, porém o lojista só dispunha de silêncios que não paravam de gritar. Revirei as estantes à cata de um vinho feito de suor gerado no desejo e de lágrimas paridas na emoção do encontro, mas apenas achei garrafas vazias e cansadas de esperar por quem as encha. 

E foi assim que de prateleira em prateleira, de loja em loja, de bairro em bairro,  esgotei o estoque de possibilidades, pois na cidade apenas sobraram sem mácula as esquinas da vida, as praças da esperança, as árvores impávidas e os ninhos sem cadeado onde habitam os pássaros sem tristeza.

Por tudo isso é que  só me restou uma alternativa, e a uso antes de que seja tarde demais. Espero então que aproveite a esquina que lhe mando para nela aguardar até que o sinal da felicidade fique verde de alegria; a praça, para que  desde um dos seus  bancos, e olhando o céu, possa desfolhar a alegoria do amanhecer recitando borboletas de todas as cores; as árvores, para que  à sombra dos seus galhos  floresça a inspiração sempre que ela visite os seus domínios; os ninhos, para dar guarida ao gorjeio sentimental que sua sensibilidade borde em prosa e verso sobre a toalha de renda da vida; e os pássaros felizes, para que sobrevoem as paisagens que a sua imaginação lhes implante nas retinas.

Como já disse, isto foi o único que achei para mandar. Sei que é muito pouco, pouco até demais, não mais do que uma amostra de esperança, mas como tratei de explicar, foi o único que achei para mandar.



Leia, também, nesta edição: CONJUGANDO O VERBO DESEJAR



(01 de outubro/2005)
CooJornal no 444


Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor.
Reside atualmente na Suécia.
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