01/03/2018
Ano 21 - Número 1.067

 

 

 

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Cândido de Lima Fernandes



A CARONA

 


No princípio dos anos setenta, quando estudante universitário, fui convidado pelas amigas da rua Ramalhete para realizar um antigo sonho: conhecer a Bahia e seus mistérios. Partimos de férias para Salvador, nove moças e três rapazes. Ao cabo de vinte e quatro horas de viagem de ônibus, desembarcamos na capital baiana e nos hospedamos em um modesto hotel da Avenida Sete de Setembro. Como estávamos com o dinheiro contado, andávamos sempre juntos – em embaixada, como dizem os baianos – e nós, homens, partilhávamos as caronas facilmente obtidas pelas mulheres, que, a um simples gesto com o polegar direito, conseguiam parar pelo menos cinco carros para nos transportar. Às vezes, nos escondíamos e as mulheres se perfilavam ao longo da estrada, certas da hospitalidade do povo baiano. E assim, de carona em carona, íamos e voltávamos das praias mais distantes para o centro de Salvador.

Uma tarde, em plena praia de Itapoã, parte do grupo de mulheres se rebelou: estavam cansadas da nossa folga, diziam que éramos tão dependentes delas que sequer conseguiríamos pegar uma carona sozinhos. Então, lancei-lhes o desafio: iríamos provar-lhes o contrário. Foi feita, então, uma aposta: as moças iriam embora sem a gente, nos esperariam na porta do hotel e ai de nós, homens, se ali chegássemos de ônibus ou de táxi. Como de costume, elas rapidamente conseguiram parar alguns carros e se mandaram de volta para o centro.

Ficamos cerca de cinquenta minutos na estrada, debaixo de um sol de rachar. Ninguém parava. Acabei convencendo os meus colegas a pegarmos o transporte coletivo e suportar a tremenda vaia que nos aguardava. Nisso, passa um Opala, com uma mulher ao volante. Fiz o sinal, desesperançoso. Para nossa surpresa, ela parou. Qual não foi o meu espanto quando, ao abrir a porta de trás do Opala, deparei-me com Danuza Leão, no esplendor da beleza e no auge da fama. Ela vinha de sua casa de praia, vestia um biquíni e portava colares feitos de contas baianas de diversos tamanhos. Só pude balbuciar:

- Danuza....

Meus colegas se entreolharam e disseram:

- Este cara até na Bahia acha gente conhecida...

Só no meio da viagem é que reconheceram quem dirigia aquele carro, quando perguntei à motorista pela minha musa, a Nara, que se encontrava exilada em Paris, com seu marido, Cacá Diegues.

Danuza, num gesto muito simpático, desviou de seu caminho e fez questão de nos deixar na porta do hotel. Ao chegar, lá nos esperavam as nove moças, preparadas para nos vaiar. Mal puderam acreditar quando nos viram sair sorridentes, agradecendo a Danuza Leão tão honrosa carona.


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