01/08/2020
Ano 23 - Número 1.183






 

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Cândido Luiz Fernandes



O MENINO QUE QUERIA SER PAPA




Mal completara três anos o menino, movido por um forte chamamento interior, comunicou à família que iria ser padre. O pai se manteve calado e a mãe, no intuito de cumprir o que julgava ser a vontade de Deus, passou a incentivá-lo na sua precoce vocação. A avó paterna ficou encarregada da confecção dos paramentos e a tia-avó materna, da construção do pequeno altar e dos adereços necessários à prática de aprendiz de sacerdote. Sua tia-avó Laurita, muito habilidosa nas artes manuais, lhe presenteou um belo altar de madeira, que tinha dois andares, o primeiro pintado de cinza e o segundo de azul celeste, onde figuravam três letras douradas JHS, significando Jesus Homem Santo (ou Jesus Hóstia Santa). Sobre o altar se estendia uma toalha de cetim cuidadosamente bordada com miçangas de várias cores. No fundo do altar, uma trava de madeira sustentava a cortina de filó que caía sobre o altar, sobre o qual se destacava a imagem de Nossa Senhora das Graças. A avó Dedélia e as tias-avós Dodô e Efigeninha lhe deram outros santos para compor a pequena capela erguida sobre a estante do quarto do menino: uma Nossa Senhora Aparecida envolta numa redoma de plástico, um Menino Jesus na manjedoura, que brilhava na escuridão e uma imagem de Jesus com os dizeres “Deus te vê”, que, de fato, o seguia com os olhos pelo quarto.

O menino logo aprendeu algumas frases em latim, como “Dominus vobiscum”, e celebrava missas, assistidas por sua irmã Maria Eugênia, que, de mãos postas, lhe respondia “Et cum spiritu tuo”. Sua irmã o acompanhava também diariamente, às seis da tarde, na hora do Angelus. Por ocasião da realização do Congresso Eucarístico Internacional em Belo Horizonte, aprendeu todos os cânticos e os entoava nas suas celebrações. Quando chegava a Quaresma pedia à avó retalhos de cor roxa e alfinetes e cobria todos os santos de sua pequena capela, que assim permaneciam durante quarenta dias. Esta cena impressionava os vizinhos e os amigos de seus irmãos, que até hoje a guardam na lembrança. No domingo que precede a Páscoa, o altar ficava todo enfeitado de ramos colhidos no jardim de sua casa. O mês de maio era todo reservado às coroações em louvor a Maria. Os anjos eram feitos de cartolina branca e a coroa e as palmas de papel laminado retirado dos maços de cigarros do irmão mais velho. As velas do altar eram aproveitadas das festas de aniversário. Numa dessas coroações, a chama da vela acesa se fez tão forte que derreteu uma das mãos da imagem de Nossa Senhora.

Com quatro anos o menino passou a afirmar com convicção que ia ser papa. Por mais que lhe explicassem sobre a hierarquia da Igreja, teimava neste sonho e passou a colecionar postais de navios. Perguntado sobre o porquê de tantos navios, respondia que estava escolhendo em qual deles iria para o Vaticano, sede do papado. Os frades dominicanos, que moravam no convento próximo à sua casa, no bairro da Serra, e eram amigos de sua família, achavam muita graça nesta estória, que lhes era contada por seus pais. Muitos anos depois, já homem feito, encontrou-se com Frei Estêvão, então Dom Estêvão, bispo de Marabá. Perguntou ao bispo se este sabia quem ele era. E o bispo imediatamente respondeu: -“Claro que sei, é o menino que queria ser papa”.

O menino não saía do Convento dos Dominicanos. Este ocupava um quarteirão inteiro no final da rua do Ouro, tinha um grande pomar, para o qual tinha passe livre. Tornou-se uma espécie de mascote dos frades dominicanos. Almoçava no refeitório, assistia aos ofícios na capela. Ali fez a Primeira Comunhão com cinco anos e meio, logo depois passou a ser acólito na missa das crianças celebradas pelo Frei Lino e a participar do catecismo e da conferência de vicentinos, comandada pelo Irmão Marcolino, que faziam um trabalho social nas favelas da Serra. Quando adolescente, começou a frequentar as reuniões do grupo de jovens do convento, as rodas de música, onde aprendeu a tocar violão, a esperada festa de São Domingos, no dia 4 de agosto, e as excursões organizadas pelos noviços, dentre os quais Frei Betto e Frei Tito.

O contato frequente com os dominicanos fortalecia cada vez mais a sua vocação. Considerava os frades à frente de seu tempo, julgava-os iluminados por Deus. Tinham o dom da oratória. Suas homilias eram impressionantes, inesquecíveis. Preparava-se para entrar no noviciado e não lhe passava pela cabeça ser de outra Ordem que não fosse a dos Pregadores. Um dia, o pai o convidou para viajar com ele para o Sul de Minas. Chegando a Varginha, o pai dirigiu-se a um seminário e solicitou ao prior que os deixasse visitar as suas instalações. Terminada a visita, o pai lhe perguntou: -“ É isso mesmo que você quer?” O adolescente foi acometido por sérias dúvidas. Estas dúvidas recrudesceram com a decisão do grande amigo de toda a vida, frei Lino, de deixar a Ordem, após vivenciar uma profunda crise vocacional.

Uma tarde, quando tinha dezessete anos, o rapaz tinha acabado de sair do Convento e, ao descer a rua do Ouro de volta para casa, viu várias viaturas de polícia se dirigirem em alta velocidade à morada dos Dominicanos. Todos que ali se encontravam foram presos, o Convento foi fechado. A partir daí, muitos frades deixaram a Ordem dos Pregadores e os remanescentes só muito tempo depois conseguiram recomeçar e construíram sua nova morada em um bairro distante. O sonho acalentado desde a tenra infância se desfez. Só então despertou para a nova realidade e saiu em busca de outro caminho.


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Cândido Luiz de Lima Fernandes é economista e professor universitário
BH - MG
* Leia, também, seus artigos sobre música e compositores em www.riototal.com.br/musica/



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