15/11/2017
Ano 21 - Número 1.053

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

Venha nos
visitar no Facebook

 

Carlos Trigueiro



“RETRATO DO BRASIL”
(CONVERSA DE JOVEM LEITORA COM ANTIGO LIVREIRO NO RIO DE JANEIRO)

Texto do livro inédito “ARRASTÃO LITERÁRIO” a sair em 2018.

Carlos Trigueiro - CooJornal






– Oi, aliás... Boa tarde! Vocês têm aí o Retrato do Brasil, do Paulo Prado, o aristocrata intelectual da Semana...?

– Acho que ainda temos sim, senhorita, talvez dois ou três exemplares. Desgraçadamente, a realidade que está aí ofuscou o Retrato.

– Por curiosidade, que tipo de livros atrai os leitores atualmente?

– Livros de ficção estrangeira, claro! Também há procura por livros de autores nacionais de não-ficção mas que mentem!

– Será que eu entendi bem? Livros de autores nacionais de não-ficção mas que mentem têm procura?

– Isso mesmo. Ficção e realidade no Brasil de hoje se confundem. As pessoas estão dessensibilizadas, pois o absurdo está em toda parte! Então, os leitores de livros de autores nacionais preferem assuntos de não-ficção mas que mentem!

– Mas o que será que as pessoas buscam nesses livros de não-ficção que mentem?

– Num país incerto até nas dimensões geográficas e que durante séculos foi desvinculado de qualquer sentimento nacionalista, histórico e político, formado por estrangeiros e aventureiros que se acasalavam com índias, escravas africanas ou serviçais lusitanas, as pessoas que vivem o presente precisam de certezas, imploram por isso. Nesses livros mentirosos, durante alguns momentos, digo, algumas páginas, as pessoas têm certeza de que só há mentiras!

– Mas e o nosso presente, digo, a realidade nacional com essa corrupção política e econômica viralizadas? E cadê o papel da imprensa sobre tudo isso? Cadê a crítica à realidade comportamental e sobre a depravação dos costumes? Cadê o resgate histórico, pelo menos dos últimos cem anos? Cadê a reação moral contra a globalização cultural e viral trazida pela tecnologia? Por que o Congresso não aprova a criação de um novo Código Penal para adequar suas frouxas penalidades à violência desenfreada atual? O nosso Código Penal é de 1940! E parece feito para uma civilização superior, para um país escandinavo, ou pra Suíça, Japão, Canadá...

– São assuntos que despertam parco interesse aos poucos leitores, pois já sabem disso pelos telejornais, pelas redes sociais nos celulares, e na internet... Já se acostumaram... Faz parte do dia a dia... E quanto ao nosso Código Penal, claro, está mais do que mofado..., tanto quanto o nosso Congresso...

– Mas isso é um atestado de decadência social, ética e moral!

– Espere aí! Mas é por isso que os leitores que entram aqui procuram a ficção estrangeira! Apesar de ficção, são histórias contadas sem os venenos da hipocrisia moral, do atraso social, da corrupção institucionalizada, da violência desenfreada e sem castigos... Bem, é o que dizem...

– Mas isso é desanimador! Sou autora brasileira! Levei dez anos pesquisando a poemática nacional genuína: raízes sertanejas, interioranas, costumes e expressões indígenas, crenças dos escravos africanos, caboclismos, manhas de tabaréus, de arigós! Desse jeito, vamos ter que procurar outro país, outra cultura, outra língua!
– Talvez outra realidade! Talvez a realidade dos poetas!

– Nesse caos brasileiro que acabamos de comentar, o senhor vê algum futuro para a poesia nacional?

– Li numa revista literária que toda poesia está fadada a ser coisa de colecionadores. E seu status de produção artística será reduzido a algo parecido à filatelia, numismática, ou taxidermia de rimas e metáforas...

– Taxidermia de metáforas? Mas a metáfora é um dos expoentes da inteligência humana! Está nas paredes dos homens das cavernas, nos hieróglifos e tumbas egípcios, nos livros dos cantares chineses de 3.000 anos antes de Cristo, na eloquência pré-islâmica dos persas, na identificação greco-romana da arte verbal! Que acontecerá com os sonhos, a magia dos amores, os mistérios da alma?

– Bem, a senhorita entrou aqui procurando o Retrato do Brasil do Paulo Prado, um retrato centenário, e descambou para um assunto que não tem tamanho... Mas vou dar uma sugestão: para encontrar o atual e genuíno Retrato do Brasil baixe o aplicativo “Os Três Poderes Invencíveis” que é utilizado por todos os nossos congressistas, representantes políticos em Brasília, e, p.f., apague a nossa conversa gravada no celular dentro da sua bolsa importada!

_____________________________
 
Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro@globo.com


(15 de novembro/2017)
CooJornal nº 1.053


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ
contato@carlostrigueiro.art.br
www.carlostrigueiro.art.br



Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.