16/09/2019
Ano 22 - Número 1.141

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro


Arrastão de anotações cariocas

 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Sou carioca do Rio Comprido, peladeiro dos beirais nos morros fronteiriços ao bairro de Santa Tereza, nos terrenos da antiga "Chácara Carrazedo" e do "Clube Alemão 1909" no ziguezague de ladeiras da rua Santa Alexandrina, onde, projetado pelo Governo Carlos Lacerda, foi construído, nos anos 1962/1967, o Túnel Rebouças.

Quando rapazola já encorpado, também peladeiro, mas em time de camisa do bairro, não raro jogando nos campos oficiais do Olaria EC, na rua Bariri, do América F.C. na rua Campos Sales, e do Botafogo F.R. na rua General Severiano.

Para ganhar um dinheirinho e ajudar meus pais na cota dos estudos, fui datil6grafo, ainda menor de idade, das fichas dos pacientes internos no Sanatório Santa Alexandrina, na rua do mesmo nome e número 1245, de propriedade do psiquiatra e catedrático da antiga Faculdade Nacional de Medicina - Dr. Claudio de Araújo Lima que muito me ensinou no vaivém do dia a dia. Nos dois anos em que ali trabalhei, parecia ter aberto e lido a enciclopédia da vi da e as muitas facetas do mundo, por dentro e por fora, e aprendendo a discernir cabeças pensantes e sábias das medíocres, ignorantes ou enfermas.

Penetra vezeiro do Clube Minerva, aos ensaios dos blocos Bafo da Onça e, mais além, sabe Deus, do Vai-quem-Quer no Catumbi; carona de estribo em bondes elétricos da antiga Light das linhas números 45 (Itapiru/ Barcas), 46 (Estrela) e 47 (Tiradentes/Santa Alexandrina) com ou sem reboque. Esporádico freguês do chope do Bar Luiz na rua da Carioca, e mais de uma vez, altas horas da noite, como se dizia, provador do famoso "Angu do Gomes" na Praça XV de Novembro - ponto final das farras da juventude e de varias linhas de bondes.

Esporádico visitador de gafieiras da Praça Tiradentes e da Lapa - tipo Estudantina - com suas dançarinas a tempo marcado em cartão perfurado, gigolô vigiante, vestidos com decotes provocadores e peitos sem silicone.

Torcedor tricolor nas arquibancadas monumentais do Maracanã onde ia a pé ou raramente em táxi lotação com outros rapazolas; no gigante de cimento, vi fenômenos em carne e osso (com e sem a bola nos pés) de clubes brasileiros, estrangeiros e de seleções nacionais tipo: Jairzinho, Gérson, Garcia, Bellini, Pinheiro, Jordan, Altair, Di Stefano, Garrincha, Pele, Pepe, Didi, Rubens, Zagalo, Zito, Evaristo, Castilho, Bauer, Telê, Valdo, Zizinho, Vavá, Gento, Puskas, Czibor, Kocsis, Nilton Santos e outros, sabe Deus quantos...

Estudante tijucano do ensino médio (na época, denominados Cursos Clássico e Cientifico), em horário diurno do Instituto La-Fayette na rua Haddock Lobo e, mais tarde, na mesma rua, mas nas bandas do Estácio, rumo ao morro de São Carlos, aluno noturno do Instituto Rocio para poder trabalhar durante o dia.

Frequentador do “mais-que-poeira" Cine Avenida também no bairro do Estácio, e dos cinemas badalados Odeon, Pathé, Palácio e Capitólio da antiga Cinelândia; admirador do Tabuleiro da Baiana, do Largo da Carioca, e do tom cor- de-rosa da Galeria Cruzeiro exalando aroma de cafezinho, média, pão e manteiga, em suma, atração de cafeteria do Rio Antigo; bebedor de refrescos no Bar Simpatia na av. Rio Branco e da Laranjada Americana na Travessa do Ouvidor.

Farejador das iguarias da Confeitaria Colombo, naquele tempo na elegante rua Goncalves Dias; devorador dos sanduíches de pernil, carne assada e empadas de palmito do tradicional Café Gaúcho na esquina das ruas São Jose e Rodrigo Silva - com fregueses se renovando desde 1935 até hoje à volta do balcão do cafezinho, a testemunhar a vida corrida e as mudanças arquiteturais promovidas pelas prefeituras e governos de gosto, sem gosto, mau gosto, de costumes, segurança e insegurança no centro do Rio de Janeiro.

Visitante encabulado dos rendez-vous do Estácio e da Zona do Mangue; ouvinte convidado de orquestras no Theatro Municipal; freguês do chope bem tirado no antigo Bar do Brito no Rio Comprido, devorador das pizzas tijucanas no Bar Divino faceando o Cine Madri - esquina das ruas do Matoso e Conde de Bonfim; freguês de água de coco nos quiosques pioneiros desde Copacabana às areias de São Conrado, de batidas de limão e etecetera, totalmente artesanais, no bar do Osvaldo na Barra da Tijuca.

Enfim, frequentador cara-de-pau da calçada em frente ao Cine Metro na Praça Saens Peña, na Tijuca de idos tempos, para, enturmado com outros encalorados, desfrutar do ar-condicionado que escapava pelo vaivém das portas do cinema, ou de propósito, sabe-se lá por onde, para encorajar a compra de ingressos e juntar o útil ao agradável (filme da moda sob temperatura amena).

Enfim, sou brasileiro batizado, pecador inveterado, reservista de Contingente, preciso atirador de fuzil e mosquetão da Primeira Região Militar citado em Boletim do Primeiro Exército, cigano improvisado, aprendiz de capoeirista, pescador em dias de feriado prolongado, trabalhador com carteira assinada (aposentado do Banco do Brasil), contribuinte lesado, pedestre quase assaltado (consegui iludir e fugir do malandro), eleitor político frustrado, leitor atabalhoado de jornais, revistas, almanaques, gibis, livros, enciclopédias, dicionários, blogs, e do fabuloso Pasquim; ouvinte de antigos programas de rádio, mas também, acompanhando a evolução tecnológica, colecionador de fitas-cassete, discos de vinil e CDs de música clássica.

Enfim, carioca amigo dos amigos e namorador das amigas, bacharel em Administração Pública pela EBAP da Fundação Getúlio Vargas, pós-graduado em Disciplinas Bancárias na Universidade de Roma, articulista esporádico de temas econômicos, sociais e políticos da prestigiosa página onze (Opinião) do antigo Jornal do Brasil.






Texto extraído do livro "Arrastão de textos - Ficção de Verdades"


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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro@globo.com

 


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ
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