16/08/2018
Ano 21 - Número 1.089

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro




ARRASTÃO DE MEMÓRIAS AMAZONENSES

Carlos Trigueiro - CooJornal




Sou amazonense dos igarapés, batelões, barrancos e igapós; roedor de pupunhas, buritis e tucumãs; aprendiz de pescador de jaraquis, sardinhas, piramutabas, tambaquis, curimãs e tucunarés; comedor de biribás derrubados com varas improvisadas ou pedradas de mão cheia; chupador de nacos de ingá, marimari e biribás apanhados, partidos ou cortados do jeito da vez; raspador da polpa de cupuaçus e cacaus nos quintais do bairro de São Raimundo.

Apreciador de tambaqui moqueado, catador de ovos de tartarugas e tracajás nas margens dos igarapés, apreciador de mingau de caribé e de pirarucu assim ou assado; artesão-mirim de curicas, papagaios, pipas, arraias, cerol, maçaroca e rabiolas; passageiro de rede ou sem rede em convés de navio-gaiola ou batelão no baixo rio Solimões, acompanhando, no balanceio das naves, o voo dos socós, garças, nambus e arirambas explorando canaranas.

Admirador da imponência secular do Teatro Amazonas por dentro e por fora; passeador da Praça da Saudade, dos entornos do quartel que abrigava o 27º Batalhão de Caçadores do Exército, do coreto na Praça da Polícia Militar, das calçadas do Clube Rio Negro, dos uniformes empolados que o Colégio Dom Bosco adotava para os seus alunos.

Passageiro de bonde domingueiro, meninote curioso e deslumbrado sobre o ranger dos trilhos que, na mente infantil daqueles tempos, salpicavam de magias o bairro de Flores e traziam a lonjura do “Parque 10 de Novembro” ao alcance das traquinagens próprias da idade.

Alfabetizado nas páginas do extinto Jornal do Commercio estendidas pelo chão, aprendiz de remador e canoeiro nos igarapés pelas bandas do Careiro, Curari e Manacapuru; ouvinte do chiado de macacos guaribas rodeando as matas vizinhas ao povoado do Manaquiri.

Sonhador em rede avarandada e coberta por mosquiteiro artesanal nos barrancos de Parintins; frequentador da casa número 9 da Vila Ninita, onde viviam os longevos avós Trigueiro, ladeando o Palácio Rio Negro, construções hoje tombadas pelo Patrimônio Histórico.

Passeador curioso no cais flutuante projetado com a engenhosidade secular dos ingleses no porto e ancoradouro de Manaus e que, por costume, sabedoria, orgulho, admiração, imitação ou arremedo, chamávamos de Manaus Harbour, em inglês caboclo bem entoado, com vogais abertas, vaidade matuta, saudando, na época, o maior porto fluvial do planeta.


Texto arrastado do livro "ARRASTÃO DE TEXTOS - Ficção de Verdade(s)",
publicado pela 7Letras Editora/RJ






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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro@globo.com


(1º de fevereiro/2018)
CooJornal nº 1.063


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ
contato@carlostrigueiro.art.br
www.carlostrigueiro.art.br



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