25/01/2013
Ano 16 - Número 824

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



Fá-bula pós-moderna: “Tatuagens Fabulosas”

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

 

Saibam quantos lerem esta fáBULA ou dela notícias tiverem por qualquer meio nacional ou estrangeiro, eletrônico, virtual, táctil, oral, mecânico, sensitivo, caritativo ou eleitoreiro que em tempos pós-modernos há objetos,  geringonças, módulos, dispositivos, códigos de barra, tarjas, chips,  lentes, imagens e tatuagens que enxergam, espionam, filmam, gravam, mapeiam e se comunicam sem limitações de meridiano, fuso horário, idioma, emoções ou decência; e que o diálogo a seguir é de máxima boa-fé e corresponde à conversa de duas tatuagens glúteas, aqui nomeadas Libélula e Dragão, sendo as ditas cujas alocadas em usuários distintos conforme se verá:

Libélula — Finalmente o casal aí dormiu de bruços. Estava sufocada nessa cama de motel. Prazer, sou Libélula!  E você é um Dragão! Mas por que foi tatuado no glúteo desse marmanjo? Só vi dragões em espáduas, braços, ombros e peitoral dos clientes dessa periguete aí que me usa, a Rosineide...

Dragão — Oi, Libélula, prazer! Fui tatuado no glúteo do Mário Costa, esse marmanjo que dorme aí, por causa de uma promessa que ele fez.  Mário era um escritor nacional pobre, honesto e infeliz até que topou com a Dalva, uma periguete emergente, num bar de Ipanema. Desde então, há coisa de dois anos, aquele encontro mudou o destino dele. Hoje, Mário Costa é um escritor rico, não exatamente feliz, mas, bem, promessa é promessa...

Libélula — Valeu! Adoro histórias que falam em promessas! E como já vi que sou uma tatuagem mais antiga do que você, não precisa me dizer que nós, tatuagens, refletimos o que se passa no corpo e na alma dos nossos usuários. Vamos lá, desembucha o resto da história.

Dragão — Bem, o Mário Costa publicara catorze livros nos últimos vinte anos, porém não vendia nada. Os livros ficavam encalhados nas livrarias ou voltavam às editoras que os reduziam a papel picado para reciclagem.

Libélula — Mas todo mundo sabe que ficção nacional não dá pra competir com a realidade exuberante do Brasil e, pior ainda, não tem a menor chance de enfrentar os tijolaços de grana e marketing da ficção estrangeira!

Dragão — Foi o que aconteceu. O coitado do Mário Costa, desiludido com a venda ínfima dos seus livros, bem como decepcionado com o silêncio das mídias sobre a sua arte, e descrente da opinião e dos conselhos de jornalistas, editores, críticos e agentes literários sobre como escrever um Best-seller, acabou recorrendo ao sobrenatural por sugestão da periguete Dalva.

Libélula — Já entendi, o recurso ao sobrenatural deu certo, e aí o Mário cumpriu a promessa de mandar tatuar um dragão no seu grande glúteo direito.

Dragão — Mas foi passo a passo. Primeiro, no bar de Ipanema, o Mário e a periguete tomaram umas caipirinhas. Depois foram pro motel, assim como a Rosineide faz, deram uns tapas num baseado noite a dentro, trocaram beijos, afagos, sabe-se lá mais o quê e, finalmente, dia claro, vieram as lamúrias dele.

Libélula — Estou curiosíssima, me conta logo os “finalmente”!

Dragão — Bem, o marmanjo desabafou com a periguete que os seus livros não vendiam e viravam papel picado. Então ela aconselhou ao Mário uma sessão de tarô com certa cartomante da periferia, Madame Chateaubriand, que sabia das coisas e poderia ensinar-lhe como abrir caminhos para o sucesso.

Libélula — Que história fascinante! Estou morrendo de curiosidade! Ele foi mesmo ver a cartomante? E o que ela disse pra abrir os caminhos dele?

Dragão — Bem, o que vou te contar aconteceu antes do meu nascimento.  Eu sei de tudo porque ouvi a história da boca do escritor em rodas de amigos. E, claro, estou entranhado na sua pele, sei seus segredos, emoções e desejos.

Libélula — Mas é para esconder e desvendar segredos da alma alheia que nós, tatuagens, existimos! Conta logo como foi a tal seção com a cartomante!

Dragão — A Madame embaralhou as cartas, mandou o Mário cortar o baralho em sete montes e, em hora e meia de sessão, virando e interpretando as cartas, deu o resultado da consulta.

Libélula — Morro de curiosidade! O que foi que ela disse afinal?

Dragão — Ela disse que o Mário escrevia direitinho, tinha bom vocabulário, estilo clássico, mas que abordava temas sérios, coisas que faziam pensar, e que isso hoje está fora de moda, pois as tecnologias resolvem tudo. E sugeriu que o Mário escrevesse histórias óbvias, com títulos inconvenientes, enredos banais mas escabrosos, personagens pornográficos ou violentos, até citou o Nelson Rodrigues, pois o aconselhou a adotar o estilo “óbvio ululante” do erotismo e da sensualidade. Mas frisou que tudo devia ser escrito com muita frescura e, no fim das histórias, que ele colocasse a tal “água com açúcar”.

Libélula — Mas isso é lógico demais, não tem nada de sobrenatural!

Dragão — Calma! Agora vem o esotérico da história. A cartomante mandou o Mário assinar os seus futuros livros com o nome modificado, parecendo  estrangeiro, e sugeriu virar o “M” de Mário de cabeça pra baixo, ficando um “W”, mudar o acento agudo do “a” de Mário para um trema, assim “ä”, trocar o “i” por “y” e colocar mais um “o” no final do nome para ficar “Wäryoo”!

Libélula — E o que ela sugeriu com o “Costa”?

Dragão — A Madame disse pra ele escrever “Costa” assim: “Köztta”.

Libélula — Então, o Mário Costa passou a assinar Wäryoo Köztta?

Dragão — Exatamente! E assim Wäryoo Köztta escreveu em três meses o seu décimo quinto livro que em menos de um semestre vendeu 5 milhões de exemplares, tem várias propostas para teatro, cinema e mini-série de TV.

Libélula — Mas e a promessa de tatuar o Dragão no grande glúteo?

Dragão — Calma! A cartomante, além de cobrar caro a consulta, exigiu um ritual satânico para o Wäryoo Köozta fazer quando terminasse de escrever o novo livro. Mandou-o imprimir cópias dos originais e tocar fogo em tudo, página por página, numa frigideira untada com azeite extra-virgem e pimenta rosa numa noite de lua cheia. Feito isso, instruiu-o como mastigar e engolir  as cinzas do estranho refogado com uma colher de sopa antes do amanhecer.

Libélula — Mas onde entrou a promessa do Dragão?

Dragão — A cartomante disse que a digestão do Wäryoo Köosta passaria a ser muito difícil depois do ritual de queimar as páginas e comê-las, mas esse transtorno lhe daria inspiração genial para o título do livro. E se desse tudo certo, como deu, exigiu, como promessa, que ele mandasse tatuar um dragão cuspindo fogo no local do corpo mais apropriado para neutralizar as reações fisiológicas provenientes do estranho ritual.

Libélula — Estou pasma! Afinal qual é o título desse livro que arrebentou o mercado e vendeu milhões!

Dragão — Vais entender tudo: o desconforto digestivo previsto pela cartomante deu ao Wäryoo Köosta inspiração pro literalmente estrondoso livro que está arrebentando o mercado: “50 Puns de Cinzas”.

Moral pós-moderna: O sobrenatural tem sua própria tecnologia.
 

(15 de janeiro/2013)
CooJornal nº 824


Carlos Trigueiro é escritor
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

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