22/02/2013
Ano 16 - Número 828

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



O OUVIDO DE MEU PAI

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Meu pai tinha o que os americanos chamam de "perfect pitch''. Traduzindo em miúdos: tinha ouvido absoluto - a capacidade rara de ouvir e reproduzir imediatamente um determinado som. Estudiosos dizem que tal dom ocorre na proporção de um entre cada dez mil indivíduos. Pessoas com esse privilegio quando se dedicam à musica podem alcançar níveis excepcionais. Li em varias fontes sobre compositores e artistas com ouvido absoluto, dentre exemplos antigos e atuais: Beethoven, Mozart, Chopin, Villa-Lobos, Bernstein, Claudio Abbado, Frank Sinatra, Miles Davis, Ray Charles, Julie Andrews, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, João Gilberto, Yo-Yo-Ma.

Voltando aos parâmetros domésticos, meu avô era mestre de banda militar. Pai de catorze filhos homens. Desde cedo reconheceu em três deles pendores musicais e ensinou-lhes o que sabia de Música. Meu pai logo se distinguiu, pois tinha ouvido absoluto. Meu avô colocou-o aos treze anos de idade na banda do município. Aos vinte e tantos chegaria a mestre da banda. Também era capaz de tocar com desenvoltura qualquer instrumento de sopro: clarinete, saxofone, trompete, flauta, flautim, trombone e outros. Requisitado para tocar em coretos e festas do seu tempo, ajudou na educação dos numerosos irmãos graças ao que auferia com a música.

Quando éramos meninos, meu pai, afundado numa rede, conseguia distinguir de olhos fechados a presença de cada um dos seus quatro filhos pelo nome, sem possibilidade de erro, antes mesmo de abrirmos a boca para dizer-lhe alguma coisa. Acho que transformava em notas musicais o leve ruído dos nossos passos, ou talvez a sonoridade do ar que deslocávamos: cada um ao seu modo.

E achávamos incrível que ele descobrisse ninhos de calangos, aranhas caranguejeiras e lacraias, no forro do telhado, somente pelo bulício que os bichos faziam. Em seguida, pedia-nos para ajudar a enxotá-los a vassouradas. Alguns morriam, outros fugiam, e tempos depois reapareciam, ocasião em que o seu ouvido tornava a perceber os invasores. E o ciclo recomeçava. As vezes, ele gracejava com minha mãe sobre o medo que ela estampava ao ver os bichos. Vivos ou mortos. Acho até que ela temia mais os bichos mortos. Sim. Minha mãe tinha pavor da morte. Talvez por isso, meu pai lhe dizia, de vez em quando e bem humorado, que os músicos não morrem, apenas mudam de ritmo, pegam o seu instrumento, identificam o tom e vão tocar noutras bandas.

Pelo cantarolar ou assobiar de meu pai conhecíamos a sua predileção por certas marchas militares, modinhas da época, e um ou outro cântico religioso. No fecho dessas características paternas, ele também tinha memória invulgar. Sabia de cor os autores, títulos, capítulos, temas, salmos e versículos inteiros da Bíblia. E era fácil apontar suas leituras preferidas do Evangelho, pois as repetia bem cadenciadas e no ritmo do vaivém que imprimia à cadeira de balanço na sala. Desconfiávamos que ele já tivesse musicado os textos bíblicos em foro íntimo.

Quando lhe levávamos contratempos peculiares à nossa idade, ele nos ouvia, ralhava ou aconselhava, mas não raro acrescentava sua frase predileta do Salmo 91: "... se ocorrer algum passo perigoso com risco de te fazerem dano, seus anjos te levarão em suas mãos.". De todas as peculiaridades de meu pai com o seu ouvido absoluto, essa frase me marcaria pelo resto da vida.

Já a caminho dos noventa, numa noite de Natal, creio que ele ouviu sinos de outras dimensões, fechou os olhos e não mais falou. Uma ambulância levou-o às pressas para hospital. Fui seu acompanhante naquela noite. Mal o dia amanheceu, vi que ele estava respirando frouxamene, imóvel, de olhos fechados. Uma intuição mandou-me dizer-lhe bem baixinho o Salmo 91. Eu também o sabia de cor. Na verdade, eu o disse em silêncio, apenas movimentando os lábios e sem nenhum som perceptível. Ao menos para mim. Quando cheguei à frase "... seus anjos te levarão em suas mãos" meu pai suspirou e se foi deste mundo. O enterro foi à tardinha, em grande comoção.

Dias depois do funeral, conversando com minha mãe, tive oportunidade de comentar os pormenores dos últimos momentos de meu pai. E contei-lhe do Salmo 91 na hora derradeira. Então, ela me disse que eu fizera muito bem, pois, visto que ele era absolutamente musical, estava, pois, só aguardando o tom. Eu, sem entender bem o que ela dizia, perguntei: "Mas que tom? Eu não sei de Música, apenas balbuciei o Salmo 91 e parei naquela frase 'seus anjos te levarão em suas mãos'."

Minha mãe pensou um pouco, e depois respondeu serena: "Teu pai tinha ouvido absoluto. Quando disseste a frase dos anjos, estavas dando a ele o tom. "Mas, que tom?" - Repeti aturdido. Ela continuou: "Meu filho, na percepção dos músicos, deste o tom que ele aguardava, pois falaste de anjos. Então não sabes que os anjos tocam trombetas? Teu pai ouviu o tom das trombetas e imediatamente o identificou. Em seguida, mostrou na pratica a sua velha teoria: pegou o seu instrumento, mudou de ritmo e foi tocar  noutras bandas".

Olhei-a aflito e concluí que, depois de tantos anos ouvindo aquele gracejo de meu pai, minha mãe também perdera o temor da morte. Então era isso. Ela também passara a interpretar a morte como uma espécie de mudança. Comovido, abracei-a e chorei tanto como se estivesse no segundo enterro de meu pal. Apesar de toda a minha admiração pelo seu dom musical extraordinário, eu teria preferido mil vezes que ele não tivesse percebido as trombetas dos anjos indicando-lhe o ultimo tom.

(Em "Ajuste de Contos", Inédito)
 

(22 de fevereiro/2013)
CooJornal nº 828


Carlos Trigueiro é escritor
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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