12/04/2013
Ano 16 - Número 835

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



OBSESSÃO

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Autor perfeccionista rasgou um manuscrito
em oitocentos pedaços e atirou-os pela janela.
O anjo do vento juntou seiscentos deles e os enfiou entre minhas plumas,
exigindo história completa. A duras penas, montei o texto a seguir.

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Peterson: simpático, atraente às mulheres, rico, de boa formação, têmpera domável. Mas como nada é perfeito, nascera sob estrela desditosa. Sua triste sorte, para suprir expressão que os supersticiosos evitam a todo custo, culminara em raríssima cardiopatia que o levou à invalidez.

Tangendo os cinquenta, quando o homem reúne vigor calculado e experiência de fatos e feitos, podendo ser o sonho de mulheres mal-amadas e pesadelo de maridos ciumentos, Peterson raramente saía dos confins domésticos. Comedido de movimentos, caminhava devagar e só fazia exercícios levíssimos. Excessos de qualquer natureza não lhe eram permitidos, excluindo-se o coquetel diário de medicamentos e o passeio de microcâmaras enfiadas no peito para estudos cardiológicos. A vida de Peterson se resumia em fazer e desfazer o tempo.

Ciente de que a armadura do tempo precisa de pelo menos algum estofo, Peterson lia clássicos selecionados e navegava na internet, sempre monitorado pela mulher. Também ouvia música erudita, temas escolhidos e suaves, variações tolhidas. Televisão, nem pensar! Pela manhã, passeava discretamente pelos jardins da casa. Depois, ficava aguardando o próximo horário de ingerir remédios.

Médicos recomendaram-lhe estimular processos criativos, desde que evitasse emoções e esforços. Peterson tentara, mas sua vocação era construir. Arte por arte, fora virtuoso tocador de obras. Engenheiro civil, da ponta dos dedos à medula. Tanto assim que, antes da tormenta cardiológica, se sentia realizado em canteiros de obras, regendo conjuntos de bate-estacas, gruas, serras, tornos, empilhadeiras, soldadoras, e sentindo cheiro de cimento, argamassa, cola, tinta, suor de operários, lidando com mestres-de-obras mais sabidos do que mestres.

Porém, imprevistos do cotidiano confirmariam a má estrela do meu custodiado. Tinha respeitável currículo de acidentes do trabalho: quedas em vãos de monta-cargas, queimaduras com maçaricos e pára-raios, marcas e cicatrizes no corpo deixadas por tijolos e ferramentas despencados a céu aberto.

Anita: bela mulher, ex-modelo, louríssima natural, com um pedacinho do céu nos olhos e a perdição abaixo do umbigo. Beirando os trinta e cinco. Filha única de milionários, estudara medicina graças ao preconceito familiar contra passarelas e trajes ousados. Fora pediatra uns tempos, mas se enfastiou de crianças e, principalmente, dos pais da clientela. De espírito buliçoso, acostumada com o fausto dos que nascem ricos, tanto detestava pieguices do lar quanto amava os prazeres mundanos.

Na verdade, Anita não demonstrava anseios, se é que os tinha, para dedicar-se a um mester, a uma causa ou obrigação. Projetos de trabalho e de realização pessoal que franqueassem suas emoções a terceiros não a seduziam. Apreciava a arena da frivolidade, as touradas do consumo , o ir-e-vir da moda, a varinha mágica do cartão de crédito e a inconfidência enganosa dos telefones celulares. Arisca, pescava tudo num relance: nomes próprios e impróprios em colunas sociais, conversas da mesa vizinha em restaurantes, novidades falsificadas em vitrinas ou em trajes das concorrentes - ou seja, toda mulher.

Cuidados paternos levaram-na a psicólogos durante a adolescência. Especialistas renomados resumiram: "... a moça é inteligente e não apresenta anormalidades..., testes indicaram que, pelas facilidades que tem na vida, ainda não surgiu algo que lhe desperte ardente interesse, embora... (e medicina não é matemática...), um dia a situação possa mudar..., mas não podemos afirmar o que será, quando, e como...~

Por essas friezas do destino, Anita conheceu Peterson numa estação de inverno na Suíça. Atraíram-se, passaram dos esquis asà lareiras e, logo, ao chocolate entre lençóis. Peterson, também rico, não tinha preocupações com o presente ou futuro. Trabalhava numa das empresas construtoras do pal.

Sendo o dinheiro mestre em criar atalhos ao destino, Anita e Peterson casaram-se na estação seguinte. Apesar de formarem belo casal, não conseguiram procriar. Exames rigorosos acusaram restrições genéticas em ambos. Aconselhados a tentar métodos modernos de inseminação, desaprovaram os engenhos.

O estilo de vida com temporadas em balneários famosos e ilhas paradisíacas compensou temporariamente a ausência de filhos e criou notável companheirismo entre os dois. De fato, a união ficaria definitivamente selada quando Peterson, ao subir uma escadaria, sentiu-se mal e foi internado numa clínica de urgências.

A principio parecia caso sem importância. Depois, e infelizmente, os melhores cardiologistas diagnosticaram rara e progressiva cardiopatia

Desde então, Anita mudou. A doença do marido revelou a si mesma outra mulher - sem anseios guardados nem desejos reprimidos. Abriu-se como uma concha tocada por cavalo-marinho no fundo do mar. Cuidar de Peterson tornou-se o seu único e real interesse no mundo. Mais que isso: explicita obsessão. Peterson passou a ter, sem nenhum exagero, dois anjos da guarda.

Mester de anjo da guarda não é fácil, ou seja, ficar de olho o tempo todo e com total exclusividade sobre alguém, sai plantão entra plantão. Se o custodiado tem gênio difícil, personalidade extravagante, paixões, repentes violentos, é ainda pior. Não era o caso de Peterson. Em contrapartida, Anita passou de obsessiva a obsessora. Anotava os movimentos de Peterson numa prancheta, media-lhes tempo, direção, frequência, intensidade e tudo aquilo que satisfizesse o seu furor obsessivo. Gravava os silêncios, rumores e falas do marido. Acompanhava-lhe o biorritmo, ininterruptamente. Filmava-o desperto e no sono. Conhecia-lhe a epiderme de modo cartográfico.

No começo, Peterson discordou dos exageros, depois foi cedendo, aceitando e, por fim, virou objeto, brinquedo - no jargão popular. O obsesso à mercê da obsessora. Anita acompanhava-o até mesmo ao banheiro. Conhecendo-se as dimensões dos banheiros, mesmo os dos ricos, dá para imaginar o acanhamento de anjos da guarda juntos com seus custodiados nesses ambientes.

Dentre as excentricidades de Anita, sobressaia o fato de querer a todo custo assumir o papel de anjo da guarda de Peterson, atitude que provocou a deserção do seu próprio anjo da guarda (um noviço medroso). Não raro, a obsessora vestia trajes de arcanjo celeste encomendados ao costureiro da família. Espadim na cinta, dizia ao marido:

- Que seria de você sem mim, exclusiva e totalmente sua, dia e noite, mais que um anjo da guarda?

Peterson respondia, bem-humorado:

- Já teria subido aos céus, querida e, provavelmente, deixado você livre para ser anjo da guarda de alguém merecedor da sua exclusividade...

Anita replicava com expressão obsessiva:

- Isso nunca! Vou aonde quer que você vá!

*

Numa tarde preguiçosa, como acontece aos que apreciam as coisas boas do mundo sem renegar origens e hábitos, o casal fazia tal sorte de movimentos na cama que tive de verificar se os batimentos cardíacos do meu custodiado correspondiam as expectativas da medicina do céu e da terra.

Invisível, me enfiei sob os lençóis. Anita, com o sexto sentido próprio das mulheres, intuiu que o marido estava literalmente em maus lençóis. De fato, Peterson impressionou-se além da conta ao imaginar que copulava não com Anita vestida de arcanjo celeste, mas com o seu anjo da guarda de verdade.

Relâmpago emocional rasgou-lhe o peito. A boca ameaçou trovoes que não explodiram, mas nuvens negras lhe vendaram os olhos. Fim glorioso para machistas, vergonhoso para anjos da guarda. Fiquei imóvel. O anjo da guarda de Anita (o desertor) viu tudo de longe. Sendo praxe dos anjos não interferir no coração de seus custodiados, fiquei à espera do gran finale, já que as desgraças humanas costumam invariavelmente chamar outras. É o que dizem.

Ao constatar que Peterson cruzara a ponte sem volta, Anita tentou ressuscitá-lo com descargas elétricas, fortes massagens no tórax e respiração boca-a-boca. Não conseguiu. Descontrolada, soltou um grito terrível.

Toda obsessão e demoníaca.

Possessa, arrancou da cinta o espadim de arcanjo, respirou fundo e, com uma força descomunal, enfiou-o no peito até o cabo da arma tocar os seios. Junto com o gêiser rubro, um vulto saiu-lhe do corpo vazado e foi juntar-se a Peterson no meio da travessia.

(Em "Confissões de um Anjo da Guarda", 2008, Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro)
 


(12 de abril/2013)
CooJornal nº 835


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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