19/04/2013
Ano 16 - Número 836

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Carlos Trigueiro



Dificuldades para publicar nos EUA

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

(Esquecido na gaveta por volta de 1994/1995 - Chicago - EUA)


Novos escritores encontram dificuldades para publicação de seus trabalhos em qualquer parte do mundo. James Joyce quando inédito, esperou nove anos para que o editor resolvesse publicar "Dubliners". A história da literatura registra numerosos casos semelhantes ou mesmo de recusas a outros não menos geniais escritores. O crítico italiano Mauro Baudino no seu livro -'IL GRAN RIFIUTO', conta episódios célebres de recusas de editores a escritores como Hemingway, Dostoievsky, Marcel Proust, Nabokov, Gore Vidal, Gabriel Garcia Marques, Milan Kundera, Moravia e muitos outros.

Numa tentativa simplista de classificar trabalhos escritos publicáveis, alguns analistas consideram haver dois tipos de literatura: "literatura-arte" e "literatura-comercial". Às vezes, a chamada "literatura-arte" pode tornar-se sucesso comercial, embora difícil a recíproca ser verdadeira. No entanto, a obra de Shakespeare está aí mesmo para desdizer tudo isso, a começar pelos críticos de sua época que viam seu trabalho como subcultura e impregnado de interesses comerciais.

Aos olhos do novo escritor, publicar um livro significa materializar sonhos e ilusões. Mas vivendo numa economia de mercado, temos de entender que a edição de uma obra literária implica investir capital e tempo em leituras, compra de direitos autorais, de papel, trabalhos de revisão ou tradução, composição, design, capa, impressão, marketing, distribuição etc., além de envolver a imagem e marca do editor. Do ponto de vista da casa editora, o livro e um projeto econômico que deve maturar e trazer retorno compensatório. Enfim, livro é um bem destinado a vendas -- um produto de consumo. Quanto mais vender, melhor! É nessa dimensão econômica que se insere o novo escritor. Ele não é conhecido do grande público e ninguém pode garantir que, mesmo havendo escrito um bom livro e obtido crítica favorável, seu trabalho vá agradar ao grande publico e tornar-se um best-seller.

Uma prospecção no segmento editorial da maior economia do mundo ajuda a comparar e interpretar o gigantismo do mercado americano de livros em relação a outros mercados. Enquanto no Brasil há 600 livrarias, nos Estados Unidos há 12.897 grandes livrarias de livros novos, milhares de livrarias de obras usadas e raras, dezenas de milhares de pontos de venda de livros em shoppings, lojas, galerias, postos de gasolina, etc., alem de 32.441 bibliotecas. Também é expressivo o volume de compras de livros pelo correio e do qual se valem empresa especializadas.

No guia "1995-Writer's Market", editado por Writer's Digest Books, há 4.000 editores de todos os tipos, aptos a comprar artigos, livros, contos, novelas, cartões etc. Outro guia - "1995-Novel and Short Story Writer's Market" cita nome, endereço, especialização, condições (de recebimento de manuscritos, exame, prazos, devoluções, pagamentos, etc.) de nada menos que 1.900 editoras, inclusive universitárias e revistas literárias. Há ainda várias revistas destinadas a aprendizes e escritores emergentes incentivando publicações subsidiadas, vendendo métodos e softwares para escrever melhor, promovendo concursos de todo tipo, além de numerosos classificados abrangendo oferta e demanda do mercado de livros. Também existe a figura do agente literário — quase desconhecida no Brasil —desempenhando importante função no relacionamento entre escritores e editores, elevando o livro à condição de produto industrial e comercial.

Esse universo editorial aparenta facilidade de publicação. Porém, é necessário considerar outros aspectos da situação. Por exemplo: a multidão de escritores nos mais diversos ramos, de ficção, auto-ajuda, teatro, cinema, biografias de sucesso, manuais de todo tipo, dicionários pra quase tudo, e uma imensidão de outros assuntos. E também a acirrada concorrência entre casas editoras para verem seus livros na lista de best-sellers, motivo pelo qual preferem publicar livros de escritores que vendem. Impressiona ainda o número de eventos literários promovidos pelos próprios escritores, envolvendo viagens aos grandes centros urbanos do país, leitura e divulgação de suas obras em livrarias, clubes literários, e universidades. Isso sem falar na concorrência de publicações concomitantes com filmes do mesmo tema sob enorme cobertura de marketing, no crescente segmento de vídeos-livro, de vídeos, de CD-ROM e outros sofisticados "softwares" de computadores, bem como das redes interconectadas tipo INTERNET. Alias, através da INTERNET, novos escritores podem valer-se das "livrarias eletrônicas" com suas vitrinas no "ciberespaco", onde apresenta a capa dos seus livros, resumo dos argumentos tratados, nota sobre o autor e como e onde adquirir os livros.

Nesse quadro, o novo escritor brasileiro, mesmo com suporte de agente literário americano, encontra muitas dificuldades para publicação. Inicialmente, há a barreira da língua portuguesa a exigir boa tradução do texto, adaptação às expressões idiomáticas do inglês americano, além de abordar temática atraente à cultura local ou na moda. Depois, enorme gama de literaturas de e para mlnorias - de fora, chicanos, orientais, feministas, gays, lésbicas, etc. com nichos de mercados orientados e que não deixam de ser uma espécie de "reserva". Em ficção, há preferência por romances. Contos estiveram muito em moda nos anos 70. Hoje, "short-stories" são muito lidas em revistas literárias independentes, revistas universitárias, magazines "comerciais" tipo New Yorker, Harper's, Atlantic City e tantas outras, ou em coletâneas organizadas por grandes editoras. Atualmente, como no Brasil e em outros mercados, contos são julgados "menos comerciais" do que romances, salvo trabalhos de escritores consagrados.

Se o novo escritor produz trabalhos da chamada "literatura-arte" poderá valer-se, não também sem dificuldades, do interesse das editoras universitárias. Mas isso leva tempo para se concretizar, e exige processo demorado de contatos, submissão de originais, escolha entre numerosos escritores domésticos e não poucos estrangeiros, além de longa espera porque essas editoras trabalham com programações muito antecipadas e dependem de orçamentos restritos ou de subvenções.

Isso nos leva a concluir que o imenso mercado americano de publicação de livros, com o seu elevado nível técnico-profissional de industrialização e comercialização, não deve ser visto como ambiente fácil aos novos escritores brasileiros. Para aqueles que desejam tentar o lado atrativo do empreendimento - a dimensão do mercado, a sofisticação do produto livro, e ter a obra publicada em inglês (que permite levar o livro a outros países da mesma língua e a outros mercados onde há espaços para livros em língua inglesa) - é aconselhável munir-se de livro muito bom, arranjar um agente literário, ou contatar diretamente os editores segundo as condições e regras do mercado. Bem, e ter muita paciência e perseverança.

Fontes: American Library Association, Washington, DC
American Bookselleres Association, New York, NY

 

(Em "Meu Brechó de Textos", 2012, Ed. Imprimatur, Rio de Janeiro)


(19 de abril/2013)
CooJornal nº 836


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
www.carlostrigueiro.com


Direitos Reservados