26/04/2013
Ano 16 - Número 837

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



A varinha do marketing

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

 (Publicado em O RASCUNHO Nr. 66, Jornal Literário, 2005, Curitiba)


Nossa literatura infantil cresceu. Ganhou prêmios internacionais. Aprimorou forma e apresentação: capas, projetos gráficos e ilustrações nada ficam devendo às publicacões estrangeiras. Diversificou temas, indo alem dos clássicos brasileiros e do tradicional repertorio europeu (contos de fadas). Retomou mitos indígenas, africanos, gregos, árabes e outros do imaginário universal. No nicho infanto-juvenil enriqueceu o gênero com biografias de artistas, pintores, músicos e escritores, e lançou um novo olhar sobre os sentimentos da condição humana - inveja, ciúme, ódio, despeito, egoísmo etc.

Porém, não creio que esses fatores sejam suficientes para formar bons e novos leitores. Acho que a literatura proporciona ao imaginário do pequeno leitor a oportunidade de interagir com agentes socializantes da vida real (família, escola, professor, vizinhança, comunidade religiosa) e com sua própria natureza psicológica individual. Obviamente, esse processo de interação é subjetivo e ninguém garante que formará um amante dos livros.

Quanto ao espírito crítico, o pequeno leitor brasileiro de hoje, bem-formado e informado, talvez comece a avaliar o mundo ao redor, a influência do poder aquisitivo, do marketing, da moda e da mídia sobre a vida real, ao perceber que só alguns podem comprar livros ou ter acesso a eles, enquanto a maioria não consegue nem uma coisa nem outra.

Sobre o fenômeno Harry Potter, minha opinião é que passará, assim como passou a febre dos dinossauros. Vejo o pequeno mago como efeito instantâneo da globalização no imaginário infantil, encantado, sim, pela varinha do marketing regendo gigantescas linhas de produção industrial. Acho que não atravessará séculos nem gerações, não repetirá o feito de Ali Babá, Tom Sawyer, Huck Finn, Oliver Twist, David Copperfield, Tarzan e, nacionalmente, de nossos heróis do Siíio do Picapau Amarelo.

(Em Meu Brechó de Textos, Editora Imprimatur, 2012)


(26 de abril/2013)
CooJornal nº 837


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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