24/05/2013
Ano 16 - Número 841

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



VIRGENS
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Passava do meio-dia, quando José e o aguadeiro selaram o acordo. Sendo negócio limpo, não exige juramento. E entre analfabetos prescinde de documento. Às vezes, tem menor risco a palavra empenhada de boca do que contrato firmado em cartório.

O trato assegurava ao aguadeiro ficar até o pôr-do-sol com as duas meninas, na sombra da estrebaria, perto do coqueiral. Uma delas ensaiou choramingo quando José foi buscá-la junto à mãe que lhe ensinava passadas de bilros. Choramingo logo abafado pela autoridade paterna. Na cabeça de José, o negócio era bom para todos. E tripla vantagem as gêmeas, pois como ainda não regravam estavam isentas de gravidez, livravam-se de suas vergonhas e aprendiam deveres de mulher feita.

Quando o aguadeiro regressou, as gêmeas tinham as bochechas cor-de-rosa, e se não era reflexo do poente devia ser a cor do pecado, se pecado tem cor definida, já que, no extremo oposto, a virtude tem fama de alva, branquinha, marmórea. Se o catecismo não diz qual e a cor do pecado, o mistério ainda não foi desvendado, embora gente graúda pesquise e desconfie.

Porém, são tempos em que o comunismo vem avançando no mundo e, como se sabe, desde a Reforma não surge movimento que provoque tanto rebuliço na Igreja. Tendo o comunismo se identificado com o vermelho, e sendo esta cor a mesma da carne humana que, sem duvida, é a parte fraca do ser, religiosos pesquisam secretamente se aquela cor influencia os fiéis a cometerem pecados ou se os pecados têm outra cor definida. Para avançarem estudos tão importantes, missionários pesquisam nichos de pecadores ao redor do mundo.

De longe, as gêmeas pareciam descadeiradas. De perto: ressabiadas, descalças, metidas em seus vestidos remendados. O rude encaminhou-as ao pai sem dizer palavra. A um sinal de José, as filhas não precisaram levantar o vestido para comprovar a obrigação. Frente à autoridade paterna, maior prova de obediência era manter a cabeça baixa. José olhou bem as suas crias e, empinando o queixo, mandou-as de volta a casa.

O fornicador parecia satisfeito, mas, antes de ir embora, fez um pedido. Quis despedir-se do jegue. Evidência de como é difícil avaliar emoções. José concordou, recomendando ser coisa rápida. E, assim, homem e jumento trocaram lambidelas, roçaduras e afagos, de modo que, quando os últimos raios de sol resvalavam nas palmas dos coqueiros, o aguadeiro enxugava lágrimas com o dorso das mãos.

O aguadeiro tinha lá suas emoções e consciência bem demonstradas ao despedir-se do jegue. Pensava ter agido melhor se houvesse dito a José a verdade nua e crua, ou seja, não se deitara com as meninas. Fizera o serviço em pé, mantendo as meninas de quatro, feito mulas. E elas mesmas, as meninas, nada de mulas, pois essas, não sabendo falar, também não aprendem a mentir, podiam jurar por tudo quanto é mais sagrado, não se deitaram com homem algum, mantendo seus atributos de mulher do jeito que vieram ao mundo.

Em suma: de tanto trepar com mulas, naqueles rincões perdidos, o aguadeiro viciou-se em fornicações, gozos e fantasias nos buracos de trás. O costume leva ao vício, a volúpia ao pecado, mas, sendo o sexo desejado acima de todas as coisas e não havendo erotismo sem volúpia, Deus deixou o pecado ao arbítrio dos homens, já que, autoritário e intransigente, poderia ter decidido de outro modo, embora esteja claro na Bíblia: "Todo aquele que se deitar com animal certamente morrerá." Se uns pecam mais, outros menos e não acontece castigo de se ver, é que nestas questões também há desiguais entre iguais.

Numa de suas investidas, José descobrirá que as filhas continuam virgens na fenda principal. Passada a surpresa, negociara novamente não só a preciosidade das meninas, mas também seus atributos traseiros. Questão de sorte e procura, que a oferta é permanente, tudo à boca miúda, e tirantes os envolvidos no negócio, e os animais da estrebaria, que, como se sabe, não falam nem mentem, e também as lombrigas que, apesar de terem boca com três lábios, são mudas e cegas, o segredo ficará em circuito fechado, não chegará às Alturas.

Maria e José se complementam. Já vimos do que o homem é capaz. Vamos à mulher, que carrega na barriga o vigésimo primeiro filho de José. Virgem, Maria só chegou aos onze anos. Não é, nunca foi santa — ainda que honesta, nos parâmetros do arraial . Casou prenha dos gêmeos desaparecidos, por volta dos doze, treze anos.

A natureza encarregou-se da anunciação: não dava mais para esconder o bucho que engendrara com José, numa noite de luar, sem feitiço nem milagre. José mostrou-lhe a vara que ganhara dos céus, ao nascer. Não foi preciso a vara virar cobra para se esconder na cova de Maria. Os dois, com pouca diferença de idade, mas igualmente arretados, deixaram as diferenças de lado e se entregaram às semelhanças da carne. Naquele tempo, os missionários ainda não pesquisavam as cores do pecado, mas quem visse José sobre Maria, a céu aberto, sob o brilho do luar, diria espontaneamente: o pecado é prateado.
 

(Publicado em O LIVRO DOS DEMANDAMENTOS –
 Ed. Bertrand Brasil – 2004 – Rio de Janeiro/RJ)

(24 de maio/2013)
CooJornal nº 841


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
www.carlostrigueiro.com


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