07/06/2013
Ano 16 - Número 843

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



Os meandros do poder
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

 (Esquecido na gaveta no fim da década de 1980, Rio de Janeiro)


O Poder organizado e sistemático, mormente sob a forma política, militar, religiosa ou econômica, foi que delineou os caminhos da civilização até o advento da era industrial. A predominância de uma forma de poder sobre as demais ocorreu no tempo e no espaço conforme as circunstancias e os meios de que se valeram as lideranças dos povos para estabelecer o poder dominante.

Com o fortalecimento dos modernos estados nacionais e a massificação dos sistemas produtivos, emergiram novos tipos de poder, entre eles, o burocrático e o tecnológico, que substituiriam no universo socioeconômico a desgastada apologia "capital versus trabalho" pela crescente pugna "estado versus empresa".

Nos países desenvolvidos do mundo livre, o poder político constitui o aparato que resguarda a essência do sistema social, cabendo às demais formas de poder, interagindo-se entre si, exercer os papéis que lhes cabem na sociedade. Entretanto, nas áreas subdesenvolvidas, o poder político se afigura como uma articulação de vários tipos de poder que estabelecem, coercitivamente, a base, o mecanismo e o funcionamento do sistema social como um todo.

Na historia brasileira recente, registrou-se um tríplice fenômeno: a ascensão do poder militar e do burocrático; a decadência do poder político e do religioso (Igreja Católica) e a transferência do incipiente poder econômico privado nacional para a esfera do estado ou das multinacionais. Tendo em vista a indissolubilidade dos componentes do fenômeno, gerados intrinsecamente no mesmo processo histórico, vivemos hoje dentre do princípio político e municiado por G.C. Field: "para que qualquer sistema político funcione devera ser compatível com o sistema econômico em funcionamento". Ao que na realidade brasileira corresponde: viver sob um sistema político imposto pelo estado, sobreviver em um sistema econômico dependente do estado e conviver num sistema social pendente do estado.

Os arautos do governo entrante proclamam uma gradativa redemocratização do país, possivelmente com a ressurreição do poder político, o que implica uma expectativa de redenção civil, social e econômica pelo que se fez e pelo que não se fez nos anos nevoentos que a imprensa relativamente livre cognominou de "noite institucional".

Mas, concebido o embrião do poder político na forma dos últimos pleitos e nos padrões das atuais maquinações partidaristas, vê-se que os mecanismos utilizados ainda são incapazes de influir na dinâmica política, principalmente porque: I) estão longe de exprimir a representatividade dos legítimos anseios nacionais; II) não incorporam as enormes camadas marginais da população ao cenário de uma efetiva participação política, econômica e social; III) não renovam os quadros nem os atores políticos, inexistindo, portanto, novos acessos de lideranças e ideias à estrutura do poder; IV) os grupos sociais capazes de impor uma ideologia favorável às mudanças permanecem amoldados à nossa singular condição de sociedade dual: uma parte da população estratificada segundo o modelo urbano-moderno, desfiguradamente apolítica, pois vota mas não elege, e outra - a interiorana, semicolonial - sob o signo de estruturas arcaicas de produção e dominação ideológica.

O fato é que não se pode promover uma situação política, democraticamente legítima, sem organismos, lideranças e partidos genuínos, os quais por sua vez não se formam sem o componente básico da célula política: o povo - povo com educação e liberdade de expressão e de escolha.

E para demonstrar que em matéria de democracia aqui não se inova, renova ou evolui, vale a pena reviver algumas palavras de George Washington ao despedir-se do povo americano em 1796: "A base de nossos sistemas políticos é o direito do povo de fazer e alterar suas constituições de governo. Mas a constituição que vigora em certa época, até que seja modificada por um ato explicito e autêntico do povo em conjunto, é para todos obrigatoriamente sagrada. A ideia legítima do poder e do direito do povo para formar um governo pressupõe o dever para cada indivíduo de obedecer ao poder estabelecido".

Quase dois séculos nos separam desse manancial de doutrina política. No entanto, o grande estadista já vislumbrava a força vital da célula política moderna: o poder do povo; poder formado, estruturado e sedimentado pelo "espírito do povo; - "Volksgeist", como denomina o preciso idioma alemão.

Entre nós, infelizmente, ainda não há condições de forjar esse poder, ao menos enquanto o "Volksgeist" for censurado, instituído ou decretado. Resta-nos aguardar o lento vaivém dos meandros do Poder. No Brasil, não custa repetir, infelizmente, que os interesses particulares dos políticos ainda se sobrepõem aos legítimos interesses políticos nacionais.
 

(Publicado em MEU BRECHÓ DE TEXTOS –
 Ed. Imprimatur – 2012 – Rio de Janeiro/RJ)

(07 de junho/2013)
CooJornal nº 843


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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