14/06/2013
Ano 16 - Número 844

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



Quo Vadis Hispania
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

(Esquecido na gaveta, em meados da década de 1980,
se não me falha a memória - Madri/Espanha)


A notoriedade dos matizes espanhóis já não se restringe, outra vez, às imolações nas "plazas de toros" ou à magia dos pinceis de Goya, Velazquez, Sorolla. Nem se limita ao descortínio de uma das mais ricas, agitadas e controvertidas historias dos povos ocidentais. Hoje, na terra dos Descobridores, o gêiser do terror pode irromper, a qualquer momento, em uma tranquila cafeteria, estação de metrô ou movimentada avenida de Bilbao, Barcelona ou Madri, tingindo de pasmo e de morte quadro social de democráticas esperanças.

À primeira vista, nesse fenômeno tristemente violento se entrelaçam e se confundem ideias extremistas, fanatismos sombrios, motivos políticos contraditórios, movimentos separatistas, interesses regionais, supostas ingerências internacionais de caráter estratégico-militar, ideológico ou econômico.

Mosaico histórico-cultural através dos séculos parece que a mãe da America delineou o atual modelo da sua jovem democracia entre arabescos que recendem ainda à dolorosa guerra civil dos anos trinta e à duradoura ditadura franquista.

O fato é que a monarquia parlamentarista instaurada em 1978, cujo modelo de estrutura política tem merecido a atenção do mundo tanto pelos seus aspectos institucionais como pela moderna concepção democrática de que se imbuiu, vem sendo assediada por inimigos teoricamente enigmáticos em seus objetivos, mas terrivelmente desconcertantes na prática.

Por outro lado, sucessivos e graves acontecimentos, nos últimos tempos, constituíram uma escalada multiforme contra a estabilidade do poder e das instituições vigentes: o assassínio paulatino e calculado de dezenas de militares, entre eles, vários oficiais generais; a renuncia do presidente do governo Adolfo Suarez; o assalto ao congresso durante atividade plenária por um punhado de militares extremistas; o sequestro de duas centenas de bancários em Barcelona; o processo de intrigas e tensões internas reveladas na imprensa contra o regime e a classe política; as pressões quanto à entrada do país em organizações poderosas como a O.T.A.N. e a C.E.E.; o crescimento vertiginoso da população ativa desempregada; greves coletivas de fome em povoados da região andaluza; a desvalorização recorde da peseta e o látego insistente da recessão econômica.

É claro que uma crescente subversão vem tirando proveito da situação de incerteza política e econômica que caracterizam os momentos difíceis por que passa a Espanha. Os que conhecem a tradição de coragem, orgulho e fanatismo dos povos ibéricos estão conscientes de que a paz interna vem sendo ameaçada cada vez mais de perto. Os pessimistas já se reportam à memória da guerra civil para justificar uma retomada expressiva da evasão de capitais, só comparávell em números aos meses imediatamente anteriores à morte de Franco.

Também ganha corpo o argumento de que a sedimentação do processo democrático, durante todo o período de transição entre a oligarquia franquista e o novo modelo político, sempre encontrou resistências, veladas ou não, no seio de camadas importantes da administração pública, na classe burocrática, no sistema de informações e de defesa. Seriam resquícios do totalitarismo que permaneceram impermeáveis ao estilo democrático de governo e comprovadores indícios de que as raízes franquistas restaram mais profundas e disseminadas do que se imaginava.

De espasmo em espasmo a crise se alonga, mas o poder constitucional tem conseguido resistir, às vezes de modo não muito convincente, porém sem adotar nenhuma medida de exceção e procurando valer-se dos recursos morais dos princípios democráticos. O que não tem impedido críticas acirradas no sentido de que o poder permaneceu inibido, indeciso, omisso, ineficiente e inapto diante de fatos tão graves como os ocorridos nos primeiros cem dias de governo do presidente Calvo Sotelo. Essas críticas parecem traduzir uma tibieza do regime, transcendem o clima de confiança e assumem forma de clamor generalizado.

Ampliando essa ótica, pode-se admitir que todos esses acontecimentos, regionalismo, separatismo, dissensões, atentados e tentativas de tomada do poder não passam de uma versão atualizada da história espanhola de todos os tempos. Os fatos se repetem com as conotações próprias da época, como tem sido durante séculos e, aliás, conforme bem definiu Ortega y Casset: "a história da Espanha é uma história de constantes e reiteradas marchas atrás".

E a história demonstra que os desentendimentos, as lutas e guerras dos povos da península atravessam a noite milenar. Na antiguidade, com fenícios, gregos, cartagineses, romanos. Depois, a vez de godos, árabes, franceses, ingleses. Cristao e muçulmanos bateram-se em intermitente e mútua "guerra santa" durante oitocentos anos. Internamente, através dos tempos, castelhanos, aragoneses, leoneses, navarros, bascos, catalães, asturianos, galegos, de uma ou outra forma, entre si, isolados ou coligados, desfilaram suas identidades sociopolíticas em movimentos de afirmação regional ou de reivindicação do poder. Com o mesmo rigor inscreveram-se na história absolutista, liberais, republicanos, monarquistas, carlistas, afonsistas, franquistas e agora os autonomistas.

Esse caráter hispânico revolto e contestador, arraigado nas entranhas do tempo, na alma do povo, de geração em geração, que consegue chegar aos nossos dias sem arrefecer diante dos padrões de uma sociedade moderna, consumista por excelência, de renda per capita em torno dos 5.000 dólares, e um fenômeno talvez só explicável nos termos da sabedoria proverbial da sua própria, rica e imensa cultura: "el diablo es mas diablo por viejo que por diablo".
 

(Publicado em MEU BRECHÓ DE TEXTOS –
 Ed. Imprimatur – 2012 – Rio de Janeiro/RJ)

(14 de junho/2013)
CooJornal nº 844


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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