21/06/2013
Ano 16 - Número 845

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



O ANJO INFORMANTE
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

A história a seguir, em manuscrito amassado,
 foi encontrada par garis perto de um bueiro.
Imediatamente, reconheci a caligrafia de E.H.


De longe, aparentava estatura mediana. Não chegava a ser propriamente gorducho, e costumava usar chapéu-de-coco. A meia distância, dava para ver os seus recheios distribuídos sob o terno claro e batido, formando silhueta uniforme com a capa de chuva apoiada nos ombros, fizesse bom ou mau tempo. De perto, sobressaíam os cabelos ondulados, grisalhos e abundantes, e a inconfundível cara de anjo. Tinha um sorriso perturbador redesenhando a todo instante o feitio da boca como nos desenhos animados.

Parado e incógnito sob a pressa urbana, parecia um desocupado qualquer na calçada da avenida rumorosa, as mãos aninhadas nos vértices dos braços cruzados, próximo a um bueiro entre a banca de jornais e o buquê de orelhões, digo, conjunto de cabinas com telefone público. Ambulantes do lugar só o conheciam de vista e de oi, olá, tudo bem - sendo verdadeira a recíproca -, porque convinha a ambos os lados discrição no que faziam. Porém, apontavam imediatamente para o "Cara de anjo" (vamos dar nome aos bois) quando algum transeunte lhes pedia informações que não sabiam dar.

Tendo este mundo gente e oficio para todo gosto, o "Cara de anjo" prestava informações de modo voluntário, talvez numa função de utilidade pública esquecida pelas autoridades. Tinha resposta pronta para qualquer tipo de pergunta, principalmente sobre localização de ruas, becos, praças, repartições, monumentos, pontos de ônibus e outras miudezas do cotidiano.

Se olhar curioso investia sobre a sua figura singular, era coisa momentânea, já que o vaivém de mil e um rostos sucessivos e anônimos se encarregava de enxovalhar a memória visual do abelhudo. Na passarela do cotidiano, o informante via de tudo: abraços, beijos, apertos de mão, encontros, despedidas, reencontros, prantos, furtos, roubos, achaques, discussões, agressões, revides, vinganças, e até homicídios - como é próprio da natureza humana vagar entre o bem e o mal. Mas era, no mínimo, curioso que o homenzinho jamais fosse encontrado para testemunhar sobre ocorrências que presenciara.

Vez por outra, parentes de pessoas desaparecidas, detetives particulares, ou policiais especializados, rondavam as adjacências. De fato, registros oficiais davam como desaparecidas três mil pessoas anualmente no centro da megalópole. Se um caso merecia investigação mais a fundo nas imediações, logo o informante evaporava. Cessado o burburinho da procura, lá estava ele de novo.

No lusco-fusco de um cair da noite que não vai longe, chuvisco pegajoso borrava calcadas, marquises e guarda-chuvas. Porém, o mau tempo não arredou o informante do seu posto. Lá pelas sete, viu dois camelôs conversando com um cavalheiro no passeio que dividia a avenida. O trio olhava em sua direção. Aos acenos dos camelôs, o informante respondeu com um gesto de polegar. Filtrando a chuva fina, pôde observar que o transeunte era magro, tinha o chapéu bem posto e tratava o guarda-chuva feito bengala, sem se importar com o gotejo dos céus. Em seguida, o cavalheiro atravessou a avenida.

- Boa-noite, disseram que o senhor sabe informar tudo quanto é lugar nas redondezas - disse o transeunte, alçando ligeiramente o chapéu.

- Bem, estou sempre por aqui, o que quer saber? - respondeu e perguntou o informante, num meneio de cabeça e chapéu, esboçando o seu estranho sorriso.

- Já perguntei a todo mundo, ninguém me leva a serio. E franziu a testa, aparentando desânimo.

- Posso informar-lhe sobre qualquer lugar das redondezas. Aonde quer ir? - disse o informante já com novo desenho no feitio da boca.

- Não me tome por maluco, mas... - O cavalheiro fez uma pausa, temeroso de ir adiante.

- Seria um disparate julgar a sanidade de alguém só por causa de uma pergunta corriqueira - atalhou o informante com o desenho da boca desfeito outra vez.

- Veja bem, é que não se trata de um endereço comum. Mas, antes de tudo, preciso lhe dizer o motivo da busca. Vou resumir, se me permite, com dois argumentos. Primeiro: estou convencido da inutilidade da existência humana já que nascer, viver e morrer e um ciclo que não faz sentido, pois tanto os bons quanto os maus terminam do mesmo jeito, isto e, morremos...

- Desculpe interromper, mas, desde o inicio dos tempos, os bons e os maus, quando partem deste mundo, têm destinos opostos: ou vão pro Paraíso, ou vão pro Inferno, todo mundo sabe disso - ponderou o informante.

- Aí é que está! Tenha um pouco de paciência comigo, que passo ao segundo argumento. Acho que o Paraíso não faz o menor sentido, é um prêmio inútil um final tedioso, vazio e estéril, uma coisa sem perspectiva!

- Sei. Mas aonde quer chegar?

- Tenho pensado muito nisso. Talvez o Inferno, ali sim, seja o único lugar com algum sentido depois que morremos, pois os castigos impostos aos condenados despertariam motivação, esforço ou criatividade para suportá-los, ou, quem sabe, até vontade de sair de lá?

- Sair do Inferno?

- Isso mesmo, não acredito na resignação do ser humano, ninguém é capaz de aceitar eternamente o sofrimento infernal!

- O senhor fala bonito, mas eu não sou a pessoa que procura, só sei informar sobre endereços!

- Pois é isso mesmo, eu quero saber onde fica a porta ou a entrada do Inferno, talvez eu pudesse espiar do lado de fora o que se passa lá dentro...

- Mas o senhor já esta no Inferno!—falou o informante sem perturbação.

- Está brincando! Então me diga onde fica a porta de entrada?

- Ora, meu senhor, o Inferno não tem porta, é o lugar mais publico e democrático que existe, é todo esse espaço imenso ao nosso redor, esse mundo luxuriante de maldade, hipocrisia, miséria, violência, iniquidade!

- Vou abrir o jogo! Eu estava só lhe testando, mas agora senti que posso conversar à vontade com o senhor, uma vez que praticamos a mesma lógica..., pois bem, então me confirme o seguinte: se o Inferno não tem porta de entrada, é porque não deve ter porta de saída, não é mesmo?

- Mas quem lhe disse isso? Fique sabendo que o Inferno tem muitas saídas, apenas estão camufladas. Já vi que o senhor não é nem um pingo louco, porém esta raciocinando de modo apressado...

- É que perdi muito tempo nessa procura.

- Esqueça o tempo, vai recuperá-lo; há jeitos, caminhos e atalhos para chegar a qualquer lugar neste mundo. Vou lhe mostrar com a maior satisfação uma porta de saída do Inferno aqui pertinho. Aliás, o senhor está com os pés exatamente em cima de um atalho!

- Acho que o senhor esta debochando, mas, olhe só, estou muito consciente e repito que não sou louco, isto aqui é só o tampão de um esgoto, sei lá, de um bueiro! - afirmou o sujeito, cutucando com a ponta do guarda-chuva a alça do tampo, sem notar o estranho sorriso que se desenhou na boca do informante.

Foi tudo tão rápido que, no lusco-fusco da noitinha, ninguém reparou o tampo do esgoto se abrir feito alçapão, soltar fumo oloroso a enxofre e retornar ao nível da rua num breve intervalo, porém o suficiente para o transeunte com chapéu bem posto e guarda-chuva feito bengala ir ao encontro do que procurava.

às vezes, o inconsciente das pessoas traz respostas aos seus questionamentos, sem dar a mínima para a vigília da consciência que, em última analise, pode ser a voz do seu anjo da guarda.

 

(Publicado em CONFISSÕES DE UM ANJO DA GUARDA –
 Ed. Bertrand Brasil – 2008 – Rio de Janeiro/RJ)

(21 de junho/2013)
CooJornal nº 845


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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