05/07/2013
Ano 16 - Número 847

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



SEXO DOS ANJOS
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Encontrei a história a seguir entre as saias
de uma freira (noviça) sob minha guarda.


Desempregado, Miguel perdeu o rumo. Tudo porque embarcou no plano de demissão voluntária do banco. No principio, a bolada parecia sonho. E como sonhos e desejos ainda não pagam imposto, ele e a mulher, Marta, sonharam com loja de franchising, posto de gasolina, agência de automóveis, importadora de vinhos, Lan House...

Na euforia que o dinheiro provoca, subestimaram os três filhos naquela idade em que educação e consumo geram despesas imediatas, resultados futuros. Além disso, gastaram pesado com restaurantes, presentes, roupas, troca de carro, viagens, nova decoração do apartamento. O alarme soou num confronto entre gordos extratos de cartões de credito e o saldo bancário que emagrecera.

Miguel só conseguiu comprar um táxi. Os sonhos empreendedores acabaram entre a segunda trombada e o terceiro assalto. O dinheiro que restou do táxi acabou antes do previsto. E a confirmar o adágio "desgraça raramente vem sozinha", um dia Marta entrou em casa com a boca amarga, sem batom nem retoques.

- Também fui despedida!

- Meu Deus! Era só o que faltava! E agora? Temos de despedir a babá e a diarista! - disse Miguel.

- Não tem outro jeito! Eu cuido das crianças e da casa até você arranjar emprego - encorajou Marta.

Durante semanas, meses, Miguel enviou o currículo para agências de empregos, head-hunters, consultorias, seguradoras, financeiras, bancos, imobiliárias. Não obtendo resposta, fez promessas para os santos protetores de negócios, rezou, acendeu velas, jejuou, arquivou a libido.

Ou a fé era pouca, ou porque os santos protetores tinham muitos pedidos a atender no mercado de trabalho, coube ao destino interferir a favor de Miguel. Sucedeu que um carteiro desatento enfiou o currículo do desempregado na caixa de correspondência de uma tal "Organizações Paraíso". Dias depois, Miguel recebeu carta convidando-o para uma entrevista.

No endereço, dia e horário apontados, Miguel, na melhor estica, apresentou-se às "Organizações Paraíso". Num prédio no centro da cidade. Não precisou tomar elevador. Escadas rolantes levaram-no ao terceiro andar. Mal avistou o letreiro, apressou-se. Observou a placa "Paraíso" em salas contíguas. Chegando à porta certa, apertou a campainha e aguardou. Recebeu-o não uma secretaria, mas um senhor de meia-idade, barbas cuidadas, modos polidos, bem trajado.

- Entre, Sr. Miguel, pontualíssimo, reconheci-o pela foto no currículo. Sou Johnson, o representante regional das "Organizações Paraíso".

- Bom-dia, Sr. Johnson, muito prazer! - respondeu Miguel efusivo, sentindo-se examinado de cima a baixo.

- Trouxe documentos? Precisamos hoje mesmo de um executivo como o senhor.

- Mas, e a entrevista? - ponderou Miguel com o cacoete bancário de que vale o escrito, lançado, conferido, autenticado. consolidado.

- A entrevista acabou! Faltava avaliar sua pontualidade sua atitude, sua aparência. Está contratado.

- Bom, trouxe meus documentos.

- Perfeito. Comecará a trabalhar na parte da tarde, terá o dobro do salário de mercado, comissões por vendas, seguros e incentivos.

- Excelente! Mas ainda nem sei qual e o ramo do negócio!?

- O mais excitante do mundo!

- Se for drogas, estou fora - disse Miguel, sério.

- Não, não! Nós vendemos produtos imunes a qualquer tipo de crise, planos econômicos, governos de direita, centro ou esquerda, tempos de paz ou de guerra!

- Desculpe, qual é essa maravilha?

- Sexo! - respondeu animado o Sr. Johnson.

- Estou fora!

- Calma, não é o que está pensando. Nosso ramo é o sexo artificial, alternativo, portátil, independente, criativo, talvez o sexo do futuro; temos a melhor cadeia de Sex Shop do mundo!

- Sex Shop? Sr. Johnson, estou precisadíssimo de um emprego, mas esse ramo não estava nos meus planos.

- Bem, o seu currículo não falava de preconceitos. Vai desistir?

- Hummm! Bem...— titubeou Miguel —, pensando nas contas e nos filhos. - Mas, mas... o que terei de fazer?

- Dirigir a loja e atender a clientela; sei que foi gerente de banco, tem cultura geral, fala três idiomas, temperamento discreto, isso é ótimo! Nossos clientes são pessoas finíssimas, de cultura superior, renda superior, mentalidade superior, ideal superior. Aliás, aprenda logo nosso lema de sucesso: "O cliente sempre tem tesão", digo, "O cliente sempre tem razão".

- Bom, e onde funciona essa loja?

- A Shop? Ah, sim, é aqui ao lado; trabalhará sozinho, é política da "Paraíso". Os clientes se sentem mais à vontade com uma só pessoa atendendo. Você se encarregará das contas, do caixa e do movimento diário. Quanto ao mais, controles, estoques e pedidos, nossa rede de computadores cobre tudo. Vou aproveitar o resto da manhã para dar-lhe instruções básicas e mostrar nossos produtos, modelos e catálogos.

- Mas será o bastante?, não sou do ramo, tenho ouvido que hoje em dia há grande variedade de estímulos e preferências sexuais...

- Bem, o ideal seria que já conhecesse os nomes dos produtos, mas isso leva uns dias e não podemos esperar... Porém, não se preocupe, toda a filosofia, a política, os produtos da empresa estão no Manual Paraíso. Ali tem tudo explicado: artigos, instrumentos, aparelhos, medidas, substâncias, dosagem, faixas etárias, efeitos colaterais, dispositivos de segurança etc. Pode ir lendo o manual quando não houver movimento de clientes.

- Hummm! E se alguém precisar de demonstração, montagem, desmontagem, coisas assim. Isso me parece meio desconfortável, meio imoral.

- Nada de imoral; temos cabina reservada para clientes exclusivistas que só compram sob medida. Mas, desde já, aprenda a citação inscrita em todas as páginas do Manual Paraíso: "A malícia está na cabeça das pessoas". Ou seja, nossos produtos, nossos artigos são estáticos, imóveis, não fazem nada indecente se não forem acionados, manipulados, e a maioria deles só reproduz esta ou aquela parte do corpo humano..., são quase inocentes!

- Mas não há produtos incrementados, turbinados, digo, mais eficientes?

- Bem, o avanço tecnológico nos obrigou, digamos, a turbinar alguns produtos, para dar-lhes maior molejo. vibração, atrito, flexibilidade, melhor design, cores mais atraentes, porém, sozinhos não fazem nada. Repito: "A malícia está na cabeça das pessoas!"

*

Miguel iniciou-se na nova atividade. Findo o primeiro dia, tudo ocorreu dentro do previsível para as características do trabalho. E assim passou a crer que, realmente, a malicia esta na cabeça das pessoas.

Em casa, Marta não fez cara satisfeita quando o marido falou sobre o novo trabalho. Com ar pesaroso, olhou várias vezes para os filhos grudados na TV e ficou ouvindo os argumentos de Miguel. Quando ele largou o refrão "A malícia está na cabeça das pessoas", Marta se convenceu. Afinal de contas, depois de tanto tempo, Miguel conseguira emprego. E isso de decente ou indecente - pensou - é relativo, pois a televisão entra na casa de todo mundo com cada baixeza, sem a menor cerimônia.

No segundo dia, logo pela manhã, algo surpreendente aconteceu. Atraída pela placa "Paraíso", uma freira entrou na loja. Tinha o rosto níveo, gestos calmos, hábito e chapéu brancos, engomados à moda antiga, não se sabe de qual ordem. Examinou prateleiras, vitrinas internas, folheou catálogos. Mas a provar que fé também sucumbe à curiosidade humana, ou que ingenuidade é parente do engano, aproximou-se de Miguel, melodiosa:

- Vocês têm o sexo dos anjos?

Miguel enrubesceu, balançou os braços, arregalou os olhos e, finalmente:

- Como disse, irmã?

- Vocês têm o sexo dos anjos? - repetiu a freira, ligeiramente enfática.

Miguel pensou rapidamente, não queria desagradar a cliente nem ferir o lema vitorioso da empresa. Muito menos ficar desempregado outra vez. Chutou.

- Temos sim, mas é só amostra, não é política da empresa vender produtos que envolvam ética religiosa. Nem está no catalogo! - disse Miguel, pensando haver liquidado o assunto.

Porém.

- Posso ver a amostra? - insistiu a freira.

Miguel corou. Mas não seria ele, Miguel dos Santos Limaverde, a contrariar que "O cliente sempre tem razão", tampouco que "A malícia está na cabeça''. E como imaginação não é artigo de luxo para quem enfrentou meses de desemprego, nem a inocência é convincente porque se cobre toda de branco, uma centelha de sedução se desprendeu:

- Por favor, senhora, entre naquela cabina, sente-se, relaxe, em dois minutos eu trago a amostra, será coisa rápida, porque trabalho sozinho na loja.

- Obrigada! - disse a freira com ar de expectativa, e entrou na cabina.

Ele seguiu-a um minuto depois. Cortinas fechadas, ficaram lá um tempo impreciso, ou o tempo que era preciso, pois já se sabe onde está a malícia. Não deu para ver o que aconteceu na cabina. Ambos saíram de lá meio corados, mas aparentando satisfeitos. A freira despediu-se rapidamente, agradeceu a atenção e estendeu a mão. Seus olhos brilhavam.

À noite, Miguel não quis jantar. Marta achou-o estranho. No quarto, naquela hora em que os casais com ou sem motivo dividem a cama em feudos invisíveis, esgrimem contra o silêncio, e agridem com a respiração, procurando no teto respostas que nunca estarão ali, Marta deu um tempo. Depois, fez aquele feminil rastreamento sem tirar os olhos do teto. Começou e terminou perguntando ao marido sobre o tipo de clientela da loja. Também aconselhado pela sabedoria silenciosa do teto, Miguel respondeu que os clientes eram finíssimos, gente de gabarito, e exigentes. Só não disse que estava começando a gostar do trabalho.

Sendo as mulheres, para o bem e para o mal, descendentes de Eva, Marta partiu para "quem mata a cobra mostra o pau". E insinuou um jogo de amor. Miguel foi taxativo:

- Querida, hoje, nem pensar!

Como nessas circunstâncias, há milhares de anos, cabe à mulher a frustração da espera, Marta pareceu compreensiva. Achou razoável que a libido do marido estivesse afetada. E, sem ceder um milímetro de seus feudos na cama, adormeceram.

No dia seguinte, Miguel, arrumando-se para trabalhar, perguntou à mulher, sem mais nem menos:

- Querida, qual é a cor da inocência?

- Fala serio? - devolveu Marta.

Miguel explicou. - Se você tivesse que responder um teste, desses de múltipla escolha que aplicam aos candidatos a emprego, como responderia essa questão: "A inocência é azul, verde, preta, branca ou vermelha?"

Marta pensou menos que pouco: - Eu responderia que a inocência é branca!

- Eu também disse Miguel, que, em seguida, resmungou algo, alegou pressa e saiu.

Marta continuou achando estranho o comportamento do marido. Teve uma idéia. Ia ver tudo de perto. Deixou as crianças na escola, fechou a casa e foi ao endereço das "Organizações Paraíso". Subiu as escadas rolantes e, quando chegou ao corredor do terceiro andar, avistou grande fila. Conferiu o endereço e confirmou: a fila se estendia até a loja "Paraíso". Todas as pessoas na fila eram freiras em traje e chapéu brancos, engomados, alvíssimos. Eram tantas que deviam ter deixado o convento vazio. Na cabeça de Marta, pareciam formar uma nuvem branca. Branca como a cor da inocência. Então, aproximou-se de uma das freiras e perguntou:

- Irmã, para que é essa fila?

- Para ver o sexo dos anjos - respondeu a freira, com naturalidade.

Marta agradeceu. Foi-se, mais encucada que antes.

*

À noite, Miguel chegou casmurro. Resmungou com as crianças. No jantar, mal beliscou. Quando o casal se recolheu, Marta esmiuçou a sabedoria do teto com os olhos. Não vislumbrando, como sempre, resposta aos seus questionamentos, armou-se de indagações e disparou:

- Miguel, qual o artigo mais procurado na Sex Shop?

- Hein? Humm..., bem, é..., bem... tem sido "o sexo dos anjos".

- Posso ir lá ver?

- Você vai se decepcionar..., estou com sono, não podemos conversar sobre isso amanhã?

- E se amanhã eu aparecer lá toda de branco, como uma freirinha, na cor da inocência, vou conseguir ver o sexo dos anjos?

- Humm..., já esta sabendo das freiras, andou me espionando, hein?, pois bem, fique sabendo de uma vez que fui despedido. Vou até lá amanhã para o acerto de contas.

- O quê?! Mal começou? Desempregado outra vez? Que aconteceu?

- Contrariei o lema de sucesso da empresa: "O cliente sempre tem razão".

- Mas como é que isso foi acontecer, logo com você que é perfeccionista?!

- Bem, as inocentes freiras invadiram o escritório do Sr. Johnson e se queixaram!

- E ele?

- O Sr. Johnson até que foi bacana, ouviu as freiras e depois me chamou em separado. Disse que eu era educado e criativo, mas infelizmente tinha de dar razão às freiras, me repetindo pela enésima vez que "0 cliente sempre tem razão".

- Mas, afinal, do que elas se queixaram, a malícia não está na cabeça?

- Isso mesmo, querida, elas pensavam que o sexo dos anjos fosse maior!

 

(Publicado em CONFISSÕES DE UM ANJO DA GUARDA–
 Ed. Bertrand Brasil – 2008 – Rio de Janeiro/RJ)


(05 de julho/2013)
CooJornal nº 847


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
www.carlostrigueiro.com


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