12/07/2013
Ano 16 - Número 848

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



CLÍNICA PARA NORMAIS
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

O final da história a seguir foi escrito por famoso irlandês.
Envolvido com outros livros, nunca teve tempo de iniciá-la.
Ocupei-me da metade faltante.


Num domingo estival, ao acompanhar o Sr. Woodstock na leitura matutina do Tribune, peguei-o rastreando a seção de cartas dos leitores. Sendo meu ofício guardar e prevenir, observei que ele demonstrara interesse desmedido numa carta abordando certa "Clínica para Normais", situada em Bentley Street, numero tal. Anotou os dados na agenda de bolso, e ficou elaborando conjeturas que parecia sugar do fornilho do cachimbo, para depois soltá-las como argolas de fumo.

O Sr. Woodstock era um solteirão bem conservado, discreto, nobre de espírito, rico e elegante. Saía pouco, falava o mínimo, dormia o necessário. Investidor bem-sucedido da fortuna que herdara, desfrutava ainda de saúde invejável, apesar de haver saltado a barreira dos setenta. Não tinha amigos. Inimigos, tampouco. Parecia satisfeito com o que fazia e com o que não queria fazer.

Mas, neste mundo de ilusões renovadas, ninguém escapa da maledicência. Tanto assim que, na leviandade do cotidiano, sólidas reputações podem ser maceradas. Meu protegido sabia disso. Chegavam aos seus ouvidos sopros capciosos de respeitáveis vizinhos ou até da criadagem da mansão, pois, no mundo globalizado, pitadas de malicia e provas de especiaria não se restringem ao paladar das elites. Em contrapartida, não tendo parentes consanguíneos nem afins, o Sr. Woodstock desconhecia sabores e dissabores do seio familiar.

Mas não era pouco, por exemplo, o que especulavam sobre as preferências sexuais do Sr. Woodstock. Diziam que as atribuições do mordomo da mansão, um indiano com ar misterioso, excediam as fronteiras do ofício. E que, não obstante haver cinco barbeiros no condado, o rico senhor preferia ser atendido semanalmente por profissional de um lugarejo vizinho. Até aí nada demais, porém, a maledicência especulava que o tal barbeiro pernoitava na mansão em aposento reservado aos hospedes ilustres, e não nas dependências destinadas à criadagem.

Murmuravam ainda sobre os motivos que levariam meu protegido a demorar-se com as mãos no regaço da manicure durante as tardes de quinta-feira. Nem a governanta da casa, uma chinesa de lábios silentes para o que não era da sua conta, e de olhos semicerrados para o que convinha enxergar, ficava imune às ferroadas do disse-que-disse. Sopravam matinalmente que a oriental guardava algum segredo, pois tinha o privilegio exclusivo de limpar, todas as noites, o cachimbo do patrão.

Verdade que, ao caminhar entre alamedas dos jardins adjacentes, o nobre cavalheiro pendia a cabeça ligeiramente para um ou outro lado, como se quisesse ouvir os bisbilhos dos insetos, ou o despertar das florações. Porém, seu interesse pelas vozes da natureza era mal interpretado, de modo que burburinhos saltavam os muros da mansão, tachando-o de excêntrico, estrambótico ou esotérico.

Voltando ao Tribune, não soube de pronto quais motivos levaram o Sr. Woodstock ao repentino interesse pela "Clínica para Normais". Mesmo admitindo que o prurido da curiosidade humana é irremediável, não imaginei que simples carta de leitor alterasse o comportamento de tão nobre cavalheiro. De fato, tão logo terminou a leitura do jornal, ordenou ao mordomo não ser incomodado nas próximas horas, suspendeu o almoço, cancelou o chá, instruiu sobre a frugalidade do jantar e acrescentou que só sairia dos seus aposentos à noitinha.

Quando a noite começou a embaçar as vidraças das janelas, a rotina traçada pela manhã em nada se afastara do recomendado. Após o jantar, a governanta apagou as luzes da casa no horário habitual, e todos se recolheram aos costumes.

Na manhã seguinte, o Sr. Woodstock despertou cedo. Emprestou ao cenho ar de expectativa e sopros de celeridade aos movimentos. Depois do café, deu ordens ao mordomo para dispensar o chofer durante todo o dia. Surpreendentemente mandou chamar um táxi. E rumou em direção a clinica.

A distância custou-lhe vinte e oito libras, três quartos de hora e meia dose de impaciência. Chegando ao lugar, ficou observando exteriores da construção. Era uma casa de estilo normando, em centro de terreno, grandes janelas, telhado com declive acentuado, duas chaminés, paredes externas chegadas ao bege, enquanto o madeirame visível, dependendo da luz, oscilava entre o bordô e o escarlate. A casa parecia residência de pessoa abastada. Estranha tabuleta no jardim despertava curiosidade: "Clínica para Normais". Convém registrar que, coincidência ou não, as residências vizinhas aparentavam desocupadas.

Para chegar à porta da clinica, o Sr. Woodstock precisou ultrapassar pesado portão. Martelo e sineta de bronze reagiram ao anunciar o visitante. Em vez do lógico retinir, as peças extraíram sons de violoncelo. Uma senhora em uniforme de enfermeira saiu da casa, atravessou o canteiro de rosas azuis, e veio atender. Corpo de matrona, rosto adolescente, crachá com o numero um.

Após colóquio de praxe, a senhora número um abriu ferrolhos que soaram feito oboés. No vestíbulo, uma senhora com o crachá número dois o aguardava. Corpo de adolescente, rosto de matrona. Recebeu-o, e passaram a uma saleta de recepção onde outra senhora uniformizada, de crachá número três, trabalhava num computador. Enquanto o teclado conectado ao aparelho emitia sons de flautim, o mouse desmanchava-se em miados. A senhora de crachá numero três tinha corpo e rosto de adolescente, cabelos brancos e voz senil. Deu boas-vindas ao cavalheiro, fez perguntas reais e arquivou as respostas em pastas virtuais.

Numa confortável sala de espera, o Sr. Woodstock permaneceu minutos observando o ambiente. Sobressaiam dois sofás de couro de crocodilo e uma poltrona escavada em bloco de mármore de Carrara. Mesa de centro com base trapezoidal e tampo de vidro triangular serviam de passatempo, pois qualquer um era tentado a buscar inutilmente encaixes no conjunto. Uma enfermeira anciã, estampando crachá número quatro, chegou lépida sobre um patinete. Abriu sorriso no rosto infantil. Dentes visivelmente na primeira dentição. Palmtop ligado, foi sucinta:

- Isto é só uma pesquisa, Sr. Woodstock, responda por favor: quais são os três tesouros da vida e cujas iniciais formam a palavra-chave que define o mundo?

- Mãe, Arte, Determinação, isto e, Mad.

- Muito bem! Agora, confirme o seu nome completo.

- Richard Woodstock III.

- Como soube da clínica?

- Através de uma carta de leitor no Tribune.

- Qual o motivo para procurar a clínica?

- Motivos particulares.

- Julga-se normal?

- Sim.

- Está disposto a fazer donativo de cinco dígitos exclusivamente em euros?

- Claro.

- Bem, pesquisa terminada. Antes de passar ao consultório, o senhor vai conversar com o nosso advogado na saleta aqui ao lado. Nosso contrato prevê isenções e responsabilidades das partes.

- Está bem.

- A clínica tem só dez suítes e, no momento, estão ocupadas... A fila de espera é de três anos, sendo raríssimos casos de desistência. Está disposto a aguardar, ou prefere prescrição imediata para cuidar-se em casa? Estou só adiantando o assunto, vai depender do seu caso, do que disser ao médico.

- Prefiro prescrição imediata.

- Muito bem, Sr. Woodstock, acompanhe-me à sala do advogado.

As formalidades legais foram preenchidas em letras, tintas, cores e vias, tantas e quantas. O advogado usava tapa-olho, lenço estampado na cabeça e gancho numa das mãos. O Sr. Woodstock não se melindrou. Saiu dali, atravessou o corredor, acompanhado de várias enfermeiras absolutamente idênticas à senhora de crachá número quatro. Inclusive quanto ao número do crachá. Na porta do consultório, tabuleta indicativa: Dr. Alfred Blendson. As enfermeiras despediram-se. Um homem com jaleco branco, crachá e barba azuis, óculos cinzentos visivelmente sem lentes, recebeu-o.

- Como vai, Sr. Woodstock? Li seu histórico na internet. Conheço-o desde a gestação de sua falecida mãe. Sente-se, por favor, e seja objetivo.

- Queria prescrição para tratamento domiciliar.

- Confirme quando fez seu ultimo check-up.

- Há três meses.

- Estava tudo normal? Sua palavra dispensa exames e atestados, lógico, estamos na Inglaterra.

- Estava tudo normal.

- Muito bem, pois saiba que nossos sistemas de inoculação só funcionam em pessoas absolutamente sadias. Óbvio que é para evitar complicações. Que tipo de enfermidade gostaria de adquirir, orgânica ou inorgânica, ou seja, doença do corpo ou da alma?

- Isso não estava especificado no contrato.

- Contratos jurídicos parecem menos abrangentes do que supomos. Vamos à parte médica, que é mais especifica. Vou fazer-lhe um brief sobre casos de doenças orgânicas. Ouça com atenção para decidir com segurança - disse o médico, retirando e colocando os óculos sem lentes.

E explicou que, com o desenvolvimento da tecnologia aplicada às ciências médicas e à bioquímica, a maioria das doenças desaparecera nos chamados países do Primeiro Mundo. Por isso, era crescente o número de pessoas - entediadas com a vida sempre saudável - que procuravam a "Clinica para Normais" em busca de resfriados, ou alergia, gastrite, enxaqueca, azia, dor de cabeça, terçol, cravos, espinhas - males desaparecidos de certos quadrantes. E também que muitas pessoas queriam se sentir naturais, humanas, e não robôs, clones, pós-humanas, indestrutíveis. Ponderou que tais casos eram simples de resolver. Porém, explicou ainda que havia casos de criaturas exigentes que preferiam sofrer males traiçoeiros, tipo úlcera duodenal, pancreatite, hepatite, cardiopatia, erisipela, serpiginose, miastenia grave e outros.

Também mencionou casos excêntricos de pessoas desejosas de contrair doenças tropicais, tipo malaria, febre amarela, ou dengue, mas sem sair da redoma do Primeiro Mundo. Sim, frisou bem que havia casos de pessoas supersaudáveis mas desejosas de contrair febrões por vias naturais, o que implicava inoculação in natura diretamente de anofelídeos infectados. Em tais casos, a clínica importava mosquitos transmissores comprovadamente infectados, condição que obviamente encarecia o atendimento. Tais pacientes eram isolados em camarás especiais para evitar transtornos.

Também falou de masoquistas ansiosos por doenças incuráveis, dores terríveis, longos períodos em fase terminal, bem como de clientes extremistas que preferiam ataques fulminantes, mas esses últimos eram raros, e em geral contornados com outra solução, pois a ética medica impedia procedimentos de eutanásia ativa.

O Dr. Blendson garantiu que a "Clinica para Normais" atuava rigorosamente nos termos da lei e oferecia comodidades de primeiro mundo aos seus pacientes. Além disso, os clientes não precisavam sair da Inglaterra e enfrentar horas de vôo para chegar aos países onde a maioria das doenças permanece in natura.

O Sr. Woodstock não se conteve:

- Desculpe, mas é que tenho interesse em doenças inorgânicas ou, como o senhor disse, doenças da alma.

- Vou explicar-lhe. A inoculação dessas doenças é personalizada. Doenças da alma demoram para se instalar e têm maiores custos. Há pessoas que preferem neuroses passageiras, outras querem neuroses duradouras para enfrentar o chefe do escritório, o casamento, o pai tirânico, a mãe superprotetora, o marido ciumento, o vizinho desaforado... Outras, ainda, preferem fobias, ansiedade, histeria, compulsão sexual, síndrome de pânico, processos maníacos, processos depressivos, esquizofrenia desse ou daquele tipo etc. Depende do gosto. - E retirou os óculos sem lentes para, em seguida, colocá-los de novo.

- Doutor, se o cliente desistir da inoculação, ha possibilidade de reversão?

- Nem sempre. O cliente deve estar seguro da doença que quer para evitar complicações legais. Em casos de inoculação para adquirir doença grave ou fatal, clonamos antecipadamente o cliente ainda são, para o caso de haver imprevistos, pois medicina não é matemática...

- Sei.

- Mas que tipo de enfermidade gostaria de contrair?

- Bem, o caso é que minha vida é tediosa. Tudo flui no meu entorno e dentro de mim com enorme precisão. Não tenho preocupações, angústia, ansiedade, medos, ambição, desejos. Somente a noite, quando me deito, preciso de...

Então, o Sr. Woodstock baixou a voz e confidenciou ao Dr. Blendson as razões que o levaram à clínica. O médico ouviu-o atentamente, fez varias anotações, e depois pegou um receituário com o timbre da clinica em furta-cor.

- Não se preocupe, temos um procedimento infalível. Vou preparar sua prescrição.

- Por favor, doutor, com todos os pormenores.

Depois de dez lentíssimos minutos - para um anjo da guarda todo-poderoso - a consulta continuou assim:

- Prezado Sr. Woodstock, esta é uma receita especial e infalível para provocar neurose branda, porém, progressiva. Não há necessidade de clonar o senhor. Mas terá de seguir à risca minha orientação durante um semestre menos um dia. Paralelamente, nada de livros, jornais, teatro, cinema, música erudita. Coma, beba e fale o dobro do que precisa com a sua criadagem e com os seus vizinhos. Suspenda o uísque, o vinho, o licor, o cachimbo, as caminhadas pelos jardins, não faça visitas de cortesia, tome chá de duas em duas horas e assista, no mínimo, oito horas seguidas de TV diariamente. Para acelerar o tratamento, espalhe televisores pelos diversos recintos da casa, inclusive no banheiro. Se a dose causar transtorno clínico, reduza a posologia para dias alternados, mas não desista!

- Doutor, mas o que farei com a maledicência?

Então, o medico, consultando suas anotações e com total transparência na fala e no olhar, foi taxativo:

- Revolucione os costumes! à noite, passe a dormir só com o seu anjo da guarda, ou seja, dispense a companhia da governanta chinesa, do chofer, do barbeiro do condado distante, da jovem manicure e do mordomo indiano, e bloqueie mentalmente o antídoto natural contra qualquer tipo de neurose - estou me referindo ao orgasmo, bem entendido?

- Entendi, doutor, mas como termina o tratamento?

- Bem, isso é o mais importante! Faça o seguinte: acompanhe a evolução do seu quadro emocional todas as manhãs, anote os sonhos que tenha tido durante a noite, e avalie, sem pressa, o estágio maledicente da sua língua em frente ao espelho antes de barbear-se.

- Mas, e aí, doutor, como termina o tratamento?

- Vou chegar lá. Se sentir a língua incontrolável contra tudo e contra todos, mesmo com os televisores da casa desligados, o procedimento terá surtido efeito. Tão logo tenha certeza de que a neurose se instalou, volte aqui para receber alta.
 

(Publicado em CONFISSÕES DE UM ANJO DA GUARDA–
 Ed. Bertrand Brasil – 2008 – Rio de Janeiro/RJ)


(12 de julho/2013)
CooJornal nº 848


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

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