09/08/2013
Ano 16 - Número 852

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



talhas e raízes
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Ao exumar sepulturas no sertão, achei o texto a seguir
preservado numa caixa de madeira junto dos ossos da falecida.


Nos tempos do avô, quase tudo tinha raiz. As pessoas tinham raiz do cabelo, raiz da unha, raiz do dente, raiz do pelo, raiz do tumor, raiz do medo. No quintal havia raiz da planta, raiz da árvore, raiz amarga, raiz-forte, raiz doce. Na boca do mato cresciam raiz-de-frade, raiz-de-cobra, raiz-do-sol, raiz-de-laranja.

Na sala de aula os radicais da raiz quadrada infestavam o quadro-negro durante o ano todo, mas nas provas finais mandavam extrair a raiz cúbica.

Dores de barriga acabavam num intragável chá de raízes. Contra a tosse, se xaropes não resolviam, a raiz-da-serra estava lá, de prontidão, com ar puro permanente. Intolerável, isso sim, era a monocórdia discussão dos adultos por bens de raiz.

Nos sermões de domingo, o padre Gabriel apontava o pecado como a raiz do sofrimento humano. Frisava a precariedade da nossa passagem terrena, a obsessão com raízes vãs, enquanto exaltava as delícias da vida eterna entre os anjos no céu. Mas só para os que merecessem. No entanto, exceto meu avô, ninguém reparava que o religioso começava a beber o vinho da missa no sábado, véspera da cerimônia.

Raizes daqui, raizes dali, meu ancestral alem de reconhecido doutor-de-raiz, gozava fama de autoritário, astuto e decidido. De vez em vez, largava o vozeirão sobre caminheiros que arriscavam um olho comprido na fazenda a perder de vista. A cena desfazia o isolamento da casa-grande, pois quase uma légua se espichava entre a porteira do vizinho e a sua fazenda.

Nos anos pares, a chuva abria um olho-d'agua na cara engelhada do caminho. Nos anos ímpares, o sol fendia a terra até que ela chupasse o olho-d'agua metido a besta. E a quentura era tanta que caminhadas no sol a pino lascavam o couro, esquentavam o juízo e humilhavam o chapéu. Tanto era assim que, vexados, zonzos com a seca medonha, viageiros e manja-léguas chegavam o ouvido às brechas do chão. Entre suspiros e trejeitos, juravam escutar o olho-d'agua chorando nas entranhas da mãe-terra.

Mas não sendo a água coisa de raiz, ninguém conseguia, nem anjo, nem arcanjo, nem querubim, nem homem santo, nem milagreiro, nem benzedeira extrair gota de lá. Líquido inconfundível era o pingo que escorria do olho das gentes e sulcava as caras sofridas. Talvez os caminheiros quisessem lavar a vista empoeirada ou, quem sabe, chorar a morte morrida e enterrada do olho-d'agua. Fatigados, cabaças secas, tomavam a trilha de novo, molhando goelas e magoas com velhas cantigas.

Só mesmo fórmula de raízes invisíveis, imunes à tentação dos retirantes, encorajava os pés teimosos a ficar naquelas bandas. Acho que era isso. Viventes do lugar sabiam que a felicidade naquele fim de mundo somente era possível se houvesse união de todos. Então, acertos nos sacramentos do batismo e matrimonio estreitavam alianças entre familiares, compadres, vizinhos, perfilhados, afilhados e agregados, ficando bem entendido e acordado que os atos religiosos selavam promessa de ajuda ou socorro, se um dia a precisão visitasse qualquer dos obrigados.

Tais alianças dispensavam idade, cor da pele, folha corrida, papel passado, e envolviam jagunços, criadas, capangas, doceiras, peões, mucamas, cabras, cavalariços, amas-de-leite, uns assumidos feito gente, outros como quase gente, tudo certo e direitinho segundo os passos da patronagem. Assim, entrançavam graças e engendravam crias, fincando raízes de sangue naquelas plagas. Se Deus olhava tudo lá de cima, devia abençoar humanos, não-humanos e os quase-humanos do rincão que, para o bem e para o mal, não eram indiferentes as suas semelhanças. Por isso que cochichos maledicentes feito murmúrio de quartinha vertendo água dobravam a língua reconhecendo a generosa contribuição do meu avô ao povoamento do lugar.

Dentre as façanhas coronelícias do manda-chuva, verve e machismo sobressaíam nas talhas que mandava fazer e pendurar em parede de se ver, como recado a quem soubesse ler, ou, o que era mais provável, para ele mesmo manter-se fiel aos seus princípios. Também diziam que as raízes da macheza estavam no leite de jumenta que o amamentara deixando marca notória: invejável compleição física acima e abaixo do umbigo, resistência ao calor, às cavalgadas, pelejas, fadigas, e incontáveis crias em barrigas de mulher. Então, nenhum espanto com as fanfarronices encravadas nas talhas, mais ou menos assim:

"Só tem dois tipos de mulher, as que nascem sem-vergonha e as que não querem morrer com ela."


Descendentes de seus três casamentos constituíram prole numerosa, e a casa-grande abrigava dispensa e paiol imensos. No dia-a-dia, compartilhavam a mesa farta não só os familiares, mas também serviçais, afilhados, agregados e perfilhados, esses últimos de raízes obscuras na certa, mas lealdade jamais contestada.

As duas primeiras mulheres do avô jaziam no cemitério da fazenda, onde a copa solene dos juazeiros estendia véu de sombras sobre o mato rasteiro que um dia ia virar capoeira. Ali, o silêncio pregava infinita oração.

Na casa-grande havia outros silêncios. Silêncio. De homens brancos, maduros, enganchados entre pernas negras que mal ganhavam contornos de mulher. Silêncio. De brancas fogosas recebendo em seus lençóis o sêmen de negros devotos às suas senhorias. Silêncio. De varões bem concebidos desvelando varões sem convicção. Silencio. Do halito morno com que a jovem mucama umedecia o ventre da sinhazinha. Silêncio. De dedos alvíssimos escalando seios de ébano. Silêncio em preto-e-branco aferventando suores no mesmo caldo de cultura e, já que a natureza nunca perde tempo e muito menos a vez, também gerando os matizes da raça do futuro.

Num excesso de virtude ou espasmo de ironia, nenhuma atitude coronelícia deixou impressões mais vivas naquelas bandas do que o episódio envolvendo moço enjeitado, talvez por causa de suas origens, digo, raizes eclesiásticas. Chamavam-no de "Filho do Bispo" quando estava manso, e de "Filhoda-Puta" se aprontava furdunço.

Era um surdinho mestiço, meio leso, que copulava com irracionais e se esfregava no tronco das bananeiras. Aparecera na fazenda lá se iam vinte anos, entre almofadas e bicos de renda, num baú de folha-de-flandres. O apelido continha pitadas de mexerico e quês de coincidência, pois o mouco viera ao mundo nove luas após a comitiva de Sua Eminência pousar fim de semana na casa-grande.

Quiproquós com a surdez parcial do cabra até caiam na complacência das gentes. Porém, viés de tara fora de hora, bem como masturbações explícitas diante de visitas ou no meio de cultos religiosos foram ficando intoleráveis. E tantas fizera o leso que um vozerio nos estamentos da comunidade soou uníssono, exigindo castigo amparado em sabedoria proverbial.

Provavelmente, o "Filho-da-Puta" teria evitado a mutilação a frio se a bichinha que molestara não se esvaísse em aborto fatal, levando junto outra cria do coronel.

Tempos depois, meu ancestral surpreenderia a todos mandando queimar na fogueira tudo quanto era talha que puxasse pelo tino nas paredes de se ver. A começar pela maior de todas, pendurada na entrada da casa-grande e que exibia entre dois anjos alabardeiros, em letras bem gravadas: "Todo mal se deve cortar pela raiz."

Se o disparate não achou explicação plausível entre as crendices do lugar, é que meu ancestral se arrependeria da cruel ordenança imposta ao alesado.

E o episódio tanto o enfezara que a fogueira das talhas foi só o começo. Dali em diante, proibiu em suas terras, sob ameaça de talhar a língua fosse de quem fosse, todo ditado, provérbio, adágio, repente, verso, improviso ou modinha pretendendo sabedoria.

Em verdade, nenhum muxoxo sobre a proibição criou raiz de conversa fiada entre as gentes do lugar, pois todo mundo entendeu que o "Filho do Bispo", sobrevivendo à mutilação, deslocara o furor que sentia no lado da frente para extravagâncias na parte de trás.

(Publicado em CONFISSÕES DE UM ANJO DA GUARDA –
 Ed. Bertrand Brasil – 2008 – Rio de Janeiro/RJ)


(09 de agosto/2013)
CooJornal nº 852


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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