16/08/2013
Ano 16 - Número 853

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



ESTAÇÃO SILÊNCIO
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Encontrei o texto a seguir num vagão do metrô nova-iorquino.
Fiz os retoques, reduções e ampliações indispensáveis.


Numa clara manhã de outono, eu perambulava na zona baixa de Manhattan, catando livros em sebos, bisbilhotando vitrinas de antigüidades, quando vi uma trintena de pessoas formando fila na calçada do outro lado da rua.

Deixei-me levar pelo vento outonal e aproximei-me do grupo. Notei que todos portavam uma ficha numerada, parecendo senha. Era estranho, ninguém falava. Folheando conceitos na biblioteca do pensamento, achei esse: filas em tempos de paz (acima do equador) são grupos organizados com propósitos que costumam se esfumar perante guichê, porteiro, roleta ou similar, e constituem ambiente propício para acionar o gogó contra o tempo, impostos, inflação, taxas de juros, desemprego, globalização, imigrantes e gente que faz sucesso ou dinheiro. Constatei imediatamente que o comportamento daquele grupo não correspondia ao meu acervo de experiências e conhecimento.

Uns liam jornais ou revistas calmamente, embora o vento dificultasse o manuseio das páginas. A fila ia em direção à cancela de um terreno baldio entre dois edifícios antigos. Tapumes recobertos de cartazes publicitários escondiam frente e fundos do terreno. Junto à cancela havia um sujeito de boné quadriculado e com protetor de ouvidos. Talvez o vigia do lugar.

Despojei-me do que me restou das vestes de anjo, assumi aspecto e trajes humanos condizentes, e entrei na fila para saciar minha curiosidade. Pouco depois, a coluna movimentou-se. O primeiro do alinhamento, um homem baixinho, dirigiu-se ao de boné quadriculado, entregou-lhe a senha e ouviu qualquer coisa ao pé do ouvido. Aberta a cancela, deu para ver que o homenzinho entrou no terreno, caminhou alguns metros, desceu uma inclinação, e sumiu.

Não demorou meio minuto para a segunda pessoa da fila movimentar-se. Dessa vez, uma senhora tangendo os setenta anos, porém segura de inabaláveis cinqüenta e cinco. Entregou a senha ao sujeito de boné quadriculado, ouviu qualquer coisa ao pé do ouvido, ajeitou as mechas do penteado, talvez pensando em mudar na próxima escova, entrou no terreno, e logo desapareceu. Seguiu-a um sujeito de barba espessa que não tirava os olhos do jornal.

A fila cresceu. Outras pessoas encompridaram a linha atrás de mim. Ninguém falava. O homem do boné veio em nossa direção e, sem dizer palavra, entregou-nos uma senha em papel cartonado. Recebi a de numero quarenta e oito. No rodapé da senha, passei os olhos numa estranha expressão: "O que o silencio integra, o rumor desintegra."

Em treze minutos era a minha vez. O de boné conferiu a senha e cochichou: "Em qualquer estágio, o seu lugar sempre terá o numero 48. Veja o que tem de ver, ouça o que tem de ouvir, faça o que tem de fazer, siga a sua intuição, pense no que tem a dizer mas não diga, apenas pense forte." E foi tudo.

Caminhei vinte e dois metros no terreno, desci uma escadaria, talvez de estação do metrô desativada havia décadas. Antigos lampiões a azeite afrouxavam a iluminação que tingia as paredes e tombava nos degraus.

Após seis lances escada abaixo, entrei numa galeria escavada na rocha. As paredes tinham o mesmo tipo de iluminação da escadaria. Senti algo pesado se movendo abaixo do nível dos pés e ligeiro tremor no solo. Tremor silencioso feito sonhos humanos, ou fitas do cinema mudo.

Junto à iluminação, setas indicavam direções. Cruzei a galeria e desci vários lances de escada. Fazia frio. Cheguei a um lugar amplo, silencioso e limpo, talvez outro pátio desativado e que servira a manobras auxiliares do metrô. Antigo comboio estacionara ali. Todos os vagões tinham as portas fechadas, exceto o último. Entrei e vi, já sentadas, as pessoas que me precediam na fila da calçada. Ninguém me olhou. Encontrei o assento número quarenta e oito desocupado e sentei-me. Ao meu lado, o tal sujeito de barba espessa se acomodara. O barbado não me deu a mínima, entretido com a leitura de semanário barato.

Os demais foram chegando. Finalmente, chegou um funcionário em antigo uniforme das redes metropolitanas. Tinha um apito na boca. Entrou no vagão, não falou nem despertou a atenção dos presentes. Pareceu contar os lugares preenchidos, fez ar de satisfeito, saiu e fechou as portas do veículo de modo silencioso pelo lado de fora. Não deu sinais com o apito, mas o trem começou a mover-se estranhamente sem ruído. Viajamos três quartos de hora ininterruptos, atravessando túneis e galerias. Quando o trem parou, todos saltaram de modo ordenado. Placa expressiva nomeava o lugar — Estação Silêncio." Subimos longas escadarias, atravessamos corredores à esquerda e à direita, até atingirmos salão escavado na rocha bruta, iluminado também por lampiões a azeite.

Era um auditório quadrilátero onde contei sessenta e quatro poltronas dispostas simetricamente, oito por lado, de modo que me sentei, à direita (ou à esquerda, que nada é absoluto visto de outras esferas), no último assento da sexta fila e de número quarenta e oito. Os assentos das duas últimas filas ficaram vazios. Observei que o homem baixinho e a senhora crédula de seus cinqüenta e cinco anos já estavam sentados à frente. Ao fundo, cartazes esmaecidos indicavam proibição de fumar, bem como o obséquio de toaletes e cabides para agasalhos e chapéus.

Na frente do auditório, mesa com toalha alvíssima realçava a presença de sete cavalheiros barbados ocupando cadeiras de espaldar alto. Trajavam fraque e cartola preta, exceto o cavalheiro do meio cuja cartola era branca. Os personagens quase me levaram ao riso, não fosse a misticidade do ambiente. Contive-me. Os barbados assentiam inclinando a cabeça à medida que sentávamos. Pareciam conhecer todos os presentes, menos um. Fingiram não me ver, tirante o cavalheiro de cartola branca que me olhou acintosamente durante oito segundos. Intensa vibração emanou de sua cartola em direção a mim. Inexplicavelmente minha língua engrossou, endureceu e congelou, como se anestesiada em cadeira de dentista.

Ocupados os quarenta e oito assentos, o de cartola branca fez um gesto abrindo a sessão, ou o evento, ou o que fosse. Em seguida, o homem que ocupava a poltrona número um levantou-se polidamente e começou a gesticular, moderado, e sem pronunciar nenhuma palavra. Não movia os lábios. Não emitia som ou ruído. Balançava a cabeça, franzia o cenho. Abria e fechava as palmas das mãos. Apontava o indicador, movia o polegar. De nenhum modo se podia afirmar que era espécie de pantomima. Mas era um estranho modo de expressão. Óbvio que o sujeito realmente conseguia se comunicar com a bancada e demais presentes.

No auditório, olhos cúmplices pareciam acompanhar o expositor. Enquanto os cavalheiros arqueavam sobrolhos, as senhoras abrandavam o cenho. Ninguém emitia voz. Os sete barbados da bancada seguiam o expositor atentamente. Faziam ar de aprovação ou contrariedade, conforme eu supunha, se ia bem ou mal o argumento da vez. O expositor chegou ao fim do relato, ou caso, ou juízo, ou sabe-se lá o que era aquilo, e gesticulou em agradecimento, foi o que deduzi. Ao acabar, tinha a fronte ligeiramente perlada, apesar da baixa temperatura reinante. Então, os mesários sinalizaram sutilmente com o polegar, indicando ao expositor para retomar o seu assento.

E, como acontece nos recitais de música erudita, pigarros discretos chegaram a fugir do bloqueio de punhos e lenços, lassos, quase inaudíveis. O silêncio era tal que dava para ouvir o atrito das roupas deslizando nos assentos. E também o cruzar e descruzar de pernas.

Seguiram-se os demais. A senhora crédula de seus cinqüenta e cinco anos levantou-se, concentrou-se, abanou as mãos, gesticulou para cá, para lá, arregalou olhos ainda atraentes, fechou-os, pendeu a cabeça, fez do indicador e polegar valiosos acessórios de sua retórica, e, não dizendo absolutamente nada - aqui, sem qualquer conotação de anjo machista -, levou bons dez minutos e meio.

Outros expositores se seguiram, valendo-se igualmente do insólito método de comunicação. Alguns poucos eram rapidíssimos, mal iniciavam e já terminavam, como se nada tivessem a declarar. Assim decorreu o encontro que tomou o dia inteiro, sem intervalos, salvo para o obséquio dos toaletes.

Chegara a minha vez.

Que eu era um intruso no temário, todos pareciam saber. Confiante nos meus poderes de anjo, ainda que reduzidos, articulei estratégia própria do gênero humano decadente: falar muito sem dizer nada.

De fato, não fossem as instalações da galeria, bem como a viagem subterrânea no vagão antigo, tudo o que percebera nas últimas horas poderia ser versão de hipnose ou histeria coletiva, ou, quem sabe, de sonho coletivo.

Tendo a língua congelada, vali-me da recomendação do sujeito de boné, segui minha intuição e pensei forte:

"Senhoras, senhores, entrei na fila da calçada por acaso ou, sendo sincero e esperando me perdoarem, me juntei ao grupo por mera curiosidade. Sou o anjo Mahlaliel, venho de outras dimensões, banido do convívio celeste por motivos incoerentes com este momento... Desde então, estou peregrinando na terra entre os homens, aprendendo um pouco de tudo, e, quando julgo ser útil a uma causa justa, neutra ou injusta, nela me engajo, porque os critérios humanos são voláteis, pendem para esse ou aquele lado conforme os interesses da vez."

Continuei:

"Matar um semelhante, por exemplo, pode significar ato criminoso ou de compaixão, ato de legítima defesa ou de heroísmo, ato de imperícia, imprudência, negligência ou desatenção, mas também apenas o cumprimento do dever segundo cultura, costumes, normas e leis. Bem assim, deflorar uma virgem pode significar um dever, ou costume, prêmio, direito, penalidade, obrigação... enfim, para não me alongar com argumentos vagos entre o esterco e o etéreo, acho que os parâmetros humanos de julgamento dependem sempre de cinco fatores circunstanciais: cultura, costume, valor, tempo e lugar." Fiz uma pausa, e reparei que quase todos mexeram disfarçadamente os dedos da mão.

Pensei mais forte:

"Suponho que esta reunião vise terapia de grupo, com base na sabedoria poética de Camões: 'Escuta a história dos meus males e cura a tua dor com a minha dor.' Suponho ainda que seja uma confissão pública, talvez um ato preparatório para nova e desconhecida fase no caminho de todos." Senti que ninguém concordou ou discordou, mas um ar de interesse ficou quase visível.

Fui adiante:

"Por ordem celeste, guardei gente boa e gente má, perpetrei delitos terríveis, inconfessáveis, no cumprimento do dever em obediência ao costume, à norma, às medicinas do corpo e da alma, ou em defesa de uma cor, bandeira, razão, fronteira, ideologia... O tempo passou e vi que era prisioneiro dessa absurda dualidade do mundo: o Bem e o Mal. Então, rebelei-me, estabeleci situações intermediárias entre aqueles extremos e, desse modo, peregrino em busca do meio-termo, do melhor para todos, não sei se estou certo ou errado, mas só faço o que manda o coração." Ninguém moveu músculo.

Achei melhor encerrar:

"Então, senhoras, senhores, pelo fato de escolher meus caminhos, seguir os impulsos do meu coração, sem obedecer a nenhuma ordem, a nenhum paradigma ou razão impostos como totalmente certos, ou radicalmente errados, acabei entrando nesta caverna onde penso esteja aqui o destino do homem terreno: voltar às origens, ao silêncio sábio das cavernas, ao estágio sereno do início dos tempos, quando inexistiam sinais de comunicação programados pela inteligência, e muito antes das grandes viagens e aventuras protagonizadas pela palavra, talvez o mais antigo e não reconhecido ancestral da roda!

"Parabenizo-os porque me parecem adiantados no ambicioso projeto. Sei que não mereço aplauso ou perdão, prêmio ou castigo, mas não posso deixar de agradecer as lições que hoje saboreei ao perceber a grande sabedoria do silêncio. Finalizando, peço sinceramente que me deixem seguir livre, tal como cheguei."

Os mesários e meus companheiros de auditório se entreolharam de modo indecifrável. Inconfundível sinal do cavalheiro de cartola branca me autorizou a sentar. Então, com imenso e estranho alivio, minha língua descongelou.

Em seguida, os mesários derramaram o olhar sobre a platéia demoradamente e de um modo como não haviam feito durante todo o evento. Talvez transmitissem recursos esotéricos, ou cumprissem liturgia de despedidas que eu desconhecia. Não pude conjeturar além, pois encerraram o evento com um gesto apressado, embora visivelmente bem ensaiado. Retiraram-se, via toalete, e desapareceram.

O público não aplaudiu nem comentou, apenas se levantou em silêncio. Mas tanto os cavalheiros quanto as senhoras já não mantinham fisionomia indiferente quando tomaram a direção da placa indicativa de saída. Segui rumo e corrente por bons dez minutos, varando corredores também iluminados com lampiões a azeite. Depois, subimos lances de escada que me pareceram familiares.

Enquanto isso, observei que aquela característica de indiferença do grupo evaporara. No seu lugar, adeuses marejados começaram a afogar os olhos. Só intui que era uma espécie de despedida quando todos os semblantes despencaram sob o peso dos cílios encharcados.

Surpreendente! Havíamos retornado à superficie, ao terreno baldio. Depois de horas sequestrados pelo silêncio, mesmo para um ex-anjo acostumado com os trovões da ira celestial, o ruído na rua era ensurdecedor.

O sujeito do boné quadriculado e protetor de ouvidos estava do lado de dentro do terreno, orientando a saída. Sem dizer palavra, recolheu as senhas, abriu a cancela, tirou o boné em sinal de respeitável cumprimento, um após outro, e só o repôs na cabeça quando chegou a minha vez, o último a passar, coisa de meio minuto depois. Deu a entender que ficaria espiando o que acontecia lá fora através de uma brecha no madeirame, e fechou a cancela por dentro.

Mas já não havia ninguém na calcada.

Estupefato, absolutamente sozinho, fiquei ouvindo as lufadas do vento outonal reverberando o tremendo rumor da megalópole.

Levei um bom tempo para entender que estava me tornando cada vez mais humano, ou seja, disperso, ansioso e imperfeito, sem prestar atenção às grandes verdades contidas nas pequenas coisas. Isso mesmo, como qualquer um, eu lera só de passagem o rodapé da senha que acabara de devolver ao sujeito do boné quadriculado.

(Publicado em CONFISSÕES DE UM ANJO DA GUARDA –
 Ed. Bertrand Brasil – 2008 – Rio de Janeiro/RJ)


(16 de agosto/2013)
CooJornal nº 853


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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