23/08/2013
Ano 16 - Número 854

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



 De confesso a confessor
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Pessoas de bem preferem a hipocrisia ao escândalo. Será verdadeira essa premissa? às vezes acho que sim, outras vezes acho que não. Tomo por base meu prontuário sentimental. Isso mesmo. Ninguém diz nem vai dizer, mas todo mundo tem um. Camuflado, enrustido ou sepultado. No coração? Pouco provável. Seria pieguice incompatível com a moral da pós-modernidade. Na memória neuronal, vá lá, a reprimir sentimentos inconfessáveis. Se bem ou malvividos, nem Deus saberá. Pois é. Agorinha mesmo repasso pela milésima vez as imagens do meu caso com Larissa. Na verdade, ela urdiu envolvimento tão intrincado entre nós dois que não sei onde e se fui diabo sedutor ou alma seduzida. Desde então me desconheço. Não sou quem era ontem, o bom moço de anteontem nem o Otavio do réveillon. Pior. Ouço murmúrios, futricas e ti-ti-ti. Claro que reajo. Elaboro mil desculpas. Porém, amar a cunhada não é só questão de gana. Talvez seja atavismo. Enfim, transar por transar ainda e humano.

Dizem que culpas ruminadas amplificam a voz da consciência. Daí, talvez, essas murmurações que me perturbam. De fato, sempre fui preciso e justo nos meus atos. Tanto assim que ao me envolver com Larissa, de caso pensado e remoído, preservei limites do decoro socialmente aceitos. Evito demonstrações de amor em público, resisto às tentações dos celulares e não me ligo em orgasmos virtuais. Em suma, rejeito emoções da onda tecnológica. Minha sensibilidade não tem a concisão dos chips nem a indiferença dos códigos de barras.

Onde eu estava? Ah, sim, falava de murmurações interiores. Acho que alguém puiu meus tecidos nervosos, vazou o cerebelo e instilou na minha alma segredo de três que o diabo fez. Terá sido o marido da Larissa? Já sei. Ele percebeu o que não devia e minha adorável cunhada sacou o que ele sabia. E aí as coisas evoluíram de jeito. Armados de suspeitas mútuas discutiram na sala, com acusações de parte a parte, muita classe, falas polidas, gesticulação estudada, sem cacos de vidro nem dano as obras de arte. Lá pelas tantas, já os pingos nos is e respingos na cama, "Tudo bem, meu amor', "Deixa pra lá, meu querido', "Te adoro, meu anjo', "Vem cá, amorzinho', "Vira assim, minha paixão", "Devagar, meu fofo". Pessoas de bem preferem tudo no seu lugar.

Antiga sabedoria diz que em matéria onde entra o homem na mulher a melhor prova do gosto é a que antecede o desgosto. Será? Não sei. Daí minhas dúvidas e ruminações diuturnas. Preciso saber se em histórias de amor ilícito Deus faz vista grossa às estripulias do roteiro. O problema é que Deus nunca responde. Talvez não responda a qualquer um. Ou só atende aos cadastrados nas Alturas. Resta-me o constrangimento de admitir romance entre cunhados como obra do acaso, sem concessões às proezas do destino e tramas do dia a dia.

Por experiência, sei que amor entre cunhados não fica bem em sítio eletrônico, diário de blogueiros, mochila de nerds, corrente de orações. Se tachado de perversão, boa desculpa haverá. No plano psicológico, claro. De mais a mais, infidelidade amorosa em reduto familiar não tem quê de falsidade, selo pirata, senha furtada, validade vencida. Atores, falas, cenário, enredo, com ou sem o diabo rindo, tudo é feito às claras. O fingimento é original.

Tendo em vista que a infidelidade masculina é desculpável nos foros acadêmicos, sob argumento de que a Mãe Natureza respalda os semeadores da perpetuação, decidi pesquisar nos saberes antigo e moderno o berço do desvio feminil. Metade do que descobri me tira o sono. A outra metade toda mulher saberá. Em resumo, para o bem dos casais que vivem mal e para o mal daqueles que vivem bem, constatei que a tendência feminina à traição vem codificada ao acaso no genoma de alguns espécimes. E qualquer biólogo de plantão sabe que a índole errante uma vez gravada no texto genético é irreversível e exclusiva. Não tem saída, jeito ou macete. Cornear é preciso.

Tal descoberta gerou desdobramentos nas minhas ruminações, pois nossa memória social é refrataria à infidelidade da mulher. Se os costumes são esses porque o mundo é obra de macho, segundo os livros sacros, convém não apressar julgamento. Dia desses a mulher vai recorrer, embargar, fazer e acontecer. E com apoio da mídia — parceira de fé, véu, grinalda, buquê e cachê no comprimento da língua — mandará ao inferno as santas escrituras. Mas não parei aí. Verifiquei que ambiente, cultura e família também influem no curso da infidelidade feminina. E ainda: graças aos avanços científicos na interpretação dos processos de reposição hormonal constatei que variações bioquímicas são determinantes em questões de a mulher trair ou não.

De todo modo, em matéria de prontuário sentimental não há como fugir do lugar-comum "cada caso é um caso". Face aos melindres e logros do meu envolvimento com Larissa, confesso que no meio da corrente reneguei o instrumental científico e adotei procedimentos nada convencionais. Sim, aos chupões consegui arrancar segredos do seu prontuário sentimental: episódios com personagens vestidos a rigor e despidos de pudor. Da mesma forma, desencantei-lhe meia dúzia de preferências lascivas, apesar da sua libido dissimulada com verniz esfíngico. Não nego o choque que levei ao trazer à tona sua lassidão. Desde então procuro ser indulgente às volúpias do amor espúrio. Foi difícil. Mas a voz maviosa, digo insidiosa, de Larissa me convenceu, "Otavio, nem tudo que profundo está significa que mergulhado fique".

Finalmente, pesquisei mistérios da infidelidade platônica, seja lá o que isso queira dizer aos que nunca a experimentaram. Concluí que amantes platônicos acabam vítimas de renitente percussão na consciência acusando-os de não terem amado o amor como deviam. Deduzi que envolvimento sempre a ponto de acontecer, mas que jamais acontece, acaba em dupla ressaca sentimental. De minha parte, provei o amor espúrio bem provado. Só não posso negar, fiquei viciado.

Porém, esses murmúrios que me obrigam a rever noite e dia as páginas do meu envolvimento com Larissa talvez sejam armadilhas do subconsciente. Daí a decisão de não me deixar enganar nunca mais. Reconstituirei tim-tim por tim-tim meu prontuário sentimental. De próprio punho. Turbinado, claro. Vivemos tempos digitais.

Daqui em diante só precisarei da inspiração que um bom e velho destilado pode muito bem catalisar. Em doses litúrgicas, que não sou blindado. Além do mais, na inexistência de um confessor formal que não eu mesmo, seria mais que justo destilar literalmente a boa-fé do meu lado confesso. Nas circunstâncias, acho que este prelúdio confessional é um bom começo. Um dia, quem sabe, Larissa melhor dirá.

(Publicado em LIBIDO AOS PEDAÇOS–
 Ed. Record – 2011 – Rio de Janeiro/RJ)


(23 de agosto/2013)
CooJornal nº 854


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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