06/09/2013
Ano 16 - Número 856

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



A lógica da sedução
 

 

Carlos Trigueiro - CooJornal

Conjeturo. Toda confissão é impregnada de impurezas. De sevícias que o tempo faz, apaga, refaz, deixa, leva ou traz. Dá no mesmo. Não obstante, vasculho mochilas, baús, escaninhos, pilhas, cortinas, brechós e sebos da memória. Aparentemente, honestas intenções, pois de lembrança em lembrança o artífice do meu envolvimento com Larissa foi a interesseira lógica humana. Haveria mais lisura se dissesse lógica aprendida, já que, sabidamente, o homem é animal ensinado. Se bem ou mal ensinado não me cabe julgar. Só posso falar do Otávio que uso e encarno.

Para começar: minha timidez é morena pálida, dissimulada, censura oitenta quilos sob um metro e setenta e três, espreita o mundo com nariz de cera, olhos celestes, cílios nublados, boca de siri, queixo furado, feromônios nos poros, caracóis na cabeça.

Para rematar: a despeito da timidez que carrego, escalei a montanha das isenções emocionais até chegar à neutralidade do pensamento e esmiuçar meu caso com Larissa. Patamar difícil. Ainda bem que sou biólogo. Sei que a condição humana tende à tragédia. Contém o pathos predatório da animalidade. Na verdade, viver é eufemismo de predar. E o planeta está aí escancarado e a derreter-se para quem quiser comprovar. Existir implica predar seja lá o que for. É trágico. Mas é isso: até a minúscula ameba contem sua grandeza trágica. Se alguém duvida é porque não sabe a causa da elefantíase.

É inevitável revelar meus cacoetes de cientista. Mas esclareço que não sou um protótipo do cientista louco a futricar a essência dos seres sem se importar com o que existe além do processo vital. Ao contrário, interesso-me tanto pela finalidade da vida quanto pelo objetivo da morte. Ando perto de retirar esses lacres. Hora dessas, Deus que tudo sabe e não diz a qualquer um se abrira comigo, ou provavelmente com Larissa, minha adorável cunhada, que vive de pôr nua a alma das pessoas.

Pois é. Eu dizia que não consigo esconder minha formação científica. Afinal, ninguém esconde tudo o que gostaria. Acho que excessos de vigília estimulam traições do subconsciente. Porém, pior mesmo é ser corno sabido feito o marido da doutora Larissa, sujeito inteligente, super ilustrado, papo-cabeça, capaz de equilibrar com elegância um par de chifres no lugar apropriado e ainda argumentar que a espalhafatosa armação não e exclusiva dos corníferos.

Conjeturo. Tenho mil e um pontos de vista para explicar meu envolvimento com a irmã de minha mulher. Inclusive a condição de saber com pormenores o que rolava e não rolava entre Larissa e o marido. Graças principalmente, claro, às nossas sessões de psicanálise. Foi ali que tudo me alumiou, de repente, como sucede àqueles poetas que, inconformados com as limitações da visão humana, põem os olhos fora da órbita para enxergar outras dimensões, sóis minguantes, estrelas virgens, seios saturninos, cometas menstruais, planetas que um dia Deus há de parir.

Convém retornar aos sebos da memória e pôr dois dedos de ordem na história. Fixo o pensamento nas imagens de foto neuronal que carrego e merecedora de exposição a holofotes. Tudo bem, apresentações são indispensáveis. Larissa: um metro e setenta e três de carne macia, ossos fortes, pecados geniais. Até aí nada demais. A alquimia divina faz com o barro humano obras monumentais. Metade deusa, metade poema, descrevê-la é convulsivo. Quando tento, me borro. Se .não tento, já me borrei. Sempre ela: maçãs do rosto colhidas do paraíso, boca profissional, lábios amadores, canto de sereia, olhos de gazela, nariz fatal, pescoço de garça, cabelos a cavalo, torso pintado a óleo, seios adolescentes, cintura a palmo, ventre livre, púbis selvagem, sexo alagadiço, mãos estreladas, pés de anjo, coxas de alabastro sustentando o monumento e, nada obstante, língua de mulher.

No inicio, julgava absurdo suspeitar que minha adorável cunhada me induzira a conquistá-la. Mesmo admitindo que eu sinalizara a favor. Psicanalistas de consultório sentimental dizem que romances proibidos só acontecem se o envolvido sinaliza verde ao envolvente. Depois, sopesando aspectos sexualmente corretos, como é de moda estilizar a hipocrisia, faísca maliciosa me atiçou. Esmiucei o vaivém do que me passa, passou, passará pela cabeça, e senti um movimento frenético de carga e descarga dos neurotransmissores.

Insone, lá pelas tantas, conjetura malévola soou, "Nada de culpa, Otávio!". Em vão tentei silenciar os lobos cerebrais que começaram a ladrar, "Vai em frente, Otávio!". Sempre insone, vagando pelas estepes memoriais, onde os pensamentos são lobos que devoram os minutos sem sair do lugar, finalmente um uivo longo e teatral fez eco no despenhadeiro das lembranças, "Larissa te seduziu".

(Publicado em LIBIDO AOS PEDAÇOS–
 Ed. Record – 2011 – Rio de Janeiro/RJ)

(06 de setembro/2013)
CooJornal nº 856


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
www.carlostrigueiro.com


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