22/11/2013
Ano 17 - Número 8ó7

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



O CLUBE DOS FEIOS (3)

Carlos Trigueiro - CooJornal

E era assim que os ingressados do Clube iam revirando a ampulheta da existência. Os tempos ali vividos lhes redimiam o destino. O Clube era quase tudo, ou para alguns tudo. As seções esotéricas quinzenais, geralmente às quintas-feiras quando se reuniam exclusivamente para se sintonizarem com as forças cósmicas, mediante concentração e meditação conjunta - sempre potencializadas pelas imagens refletidas no "Grande Espelho", que nessas noites era deslocado para salão principal - representavam momentos de raro fulgor espiritual. Em tais ocasiões, a chama das velas substituía os filamentos de tungstênio da iluminação moderna, vertendo sua luz mística sobre o ambiente e proporcionando a benignidade do mistério e da magia àquelas almas ali reunidas e que haviam reencontrado a si mesmas.

A história do Clube e do comportamento dos associados deveriam ser irretocáveis até o dia de hoje, mais ou menos nos padrões acima descritos, não fosse o acaso bater afortunadamente à porta da vaidade humana. Tudo começou quando uma das frequentadoras - a Srta. Milfford - foi atropelada ali por perto da estação do metrô de Marble Arch. O acidente fora sério e a feia solteirona só não perdeu a vida porque o causador lhe prestou socorros imediatos. Transportada ao hospital público, submeteram-na a cirurgias e tratamentos que a gravidade do caso exigia. Ficou alguns dias em coma, algumas semanas em estado de choque e outras tantas em perplexidade. Podia-se resumir que os ossos fraturados foram corretamente rejuntados, os cortes na epiderme devidamente sarados e os membros inferiores e superiores - afetados pelo impacto que sofrera na região craniana - tiveram milagrosa reabilitação. A única dúvida sobre a recuperação total da paciente Milfford residia em seu rosto ainda enfaixado e submetido a várias intervenções cirúrgicas. Médicos e paciente questionavam-se sobre aquilo. Aliás, em seus primeiros momentos de lucidez, após o período comatoso, a Srta. Milfford lembrava-se de haver ouvido vozes na enfermaria, um pouco vagas é verdade, mas achava que teriam sido nos seguintes termos: "ela vai ficar completamente diferente, irreconhecível mesmo para ela" ou assim: "tivemos de fazer vários enxertos, recomposições e realinhamentos de camadas de tecidos, desvios de nervuras etc." ou fraseado do gênero: "ela talvez precise de algum tempo para acostumar-se com o novo rosto, e... talvez até goste, porque tivemos que eliminar algumas anomalias membranosas da boca e do nariz, refazer a linha das pálpebras, redesenhar os pômulos, depurar antigas marcas de acne perniciosa, alem de redefinir os lóbulos das orelhas". Mas o que havia intrigado mesmo a paciente foi uma voz feminina, provavelmente de alguma enfermeira, que cochichou qualquer coisa como: "essa moça vai precisar mudar de vida, porque tenho feito seus curativos e observei que, apesar de ter agora alguns anos a mais de idade, a fotografia de sua carteira de identidade não corresponde nem de longe à pessoa debaixo dessas ataduras"

Dois meses de leito no hospital foram insuportáveis para a Srta. Milfford. Porém, as semanas que se seguiram não tinham comparação com nenhuma outra fase de sua vida. Desde o dia em que lhe mostraram sua nova face, seu coração parecia escapulir-lhe desabaladamente. E tinham razão, a dona e o coração. Acostumada à feiura generalizada da antiga fisionomia, de repente, como por milagre, ganhara um rosto interessante, quase belo, ou mesmo belo, com certa dose de traço artístico. No hospital ficara sabendo da grande evolução na medicina corretiva durante os últimos anos. É verdade que também ficara sabendo de alguns episódios complicados entre médicos e pacientes nessas chamadas cirurgias corretivas. Às vezes, pacientes ficavam insatisfeitos com o trabalho dos médicos e recorriam à Justiça pedindo indenizações pecuniárias ou de outra natureza. Também, certas vezes, médicos acionavam pacientes que distorciam o resultado de seus trabalhos. E todas essas questões haviam atingido tais proporções que obrigavam as partes intervenientes a apresentarem e assinarem documentos prévios às intervenções cirúrgicas. Assim, se algum olho ficasse mais amendoado do que o solicitasse o paciente, ou surgisse um repuxo labial, proporcionando sorriso permanente nalgum mal-humorado sujeito, os deslizes já estavam previstos pelos doutores da lei.

No caso da Srta. Milfford, quisera o destino que, na noite do acidente, estivesse de plantão na cirurgia de emergência do hospital um internista vindo da Itália, precisamente das colinas toscanas. Chamava-se Miguel de tal. Sabia tanto de medicina quanto de artes plásticas. Nos intervalos das aulas, era o que diziam, ruborizava os colegas ingleses com seus traços maliciosos na folha de papel, mostrando a lápis o que faria com o bisturi para aprimorar este ou aquele nariz de algum membro da família real. Esculpia, caso se pudesse dizer isso, com miolos de pão, a fisionomia de personalidades do mundo britânico ou de dirigentes do hospital. Enfim, era cirurgião e artista. Quando o rosto meio esmigalhado da Srta. Milfford apareceu-lhe naquela noite, estava mais inspirado do que nunca. E a inspiração prosseguiu nas cirurgias seguintes, porque o caso da Srta. Milfford era invulgar. O medico trazia na mente todos os esboços estudados e reestudados do que pretendia criar como artista pelas mãos da medicina, no rosto da acidentada. Mas o que pretendia fazer, fizera mesmo. Nem cirurgião, nem paciente poderiam imaginar a guinada do destino nos caminhos até então sombrios da sobrevivente. Testemunhas contaram que na manhã em que a Srta. Milfford teve o rosto descoberto totalmente e entregaram-lhe um espelho, houve um momento de irreprimível emoção, mesmo por parte dos profissionais de branco, passantes fingidos e conhecedores do caso apenas no transpirado da ética médica para a esfera da vulgaridade humana. Lógico que havia muito mais pessoas do que as normalmente necessárias no dia a dia da enfermaria, porém, a curiosidade, a maledicência e a inveja são companheiras inseparáveis dos inconformados com a própria sorte, às vezes nem sempre tão má. Daí a natureza humana, por ser como é, ter garantido na espiral dos tempos a má formação dos ladrados, cochicheios e mexericos.

Mas vejamos a Srta. Milfford. Obviamente que ficou procurando no espelho sua antiga imagem. Rebuscando seria exatamente a expressão, porque como não se encontrou refletida na forma que os sentidos lhe habituaram, chegou a conferir o fundo do espelho, girando o cabo ligeiramente primeiro para um lado, depois para o outro. Por fim, deteve-se na imagem vista. Uma bela mulher estava em seus olhos, no fundo dos olhos: pendeu a face esquerda levemente para não quebrar tal encanto e foi constatando, centímetro por centímetro, tratar-se dela mesma. Era incrível. Olhar para si mesma e ver-se outra pessoa. E loucura, loucura maravilhosa: tinha se tornado bela, lindíssima. Apalpou a ponta do queixo, deslizou os dedos pelo pescoço. Talvez sonhasse. E corou. A imagem espelhada corou também. E descorou. E sua imagem imitou-a. Olhou em volta e viu os homens de branco sérios, mas contentes. Reparou que Dr. Miguel de tal recebera dois ou três discretos apertos de mão. Lembrou que embora as regras do Clube proibissem o uso de espelhos em bolsas, trazia o seu escondido - como é próprio da vaidade feminina -, um espelhinho redondo, distribuído a titulo de propaganda por uma mercearia do bairro. Pediu para lhe entregarem a sua bolsa. Prontamente a enfermeira lhe passou uma sacola de couro de cor sépia onde num falso fundo estava lá o tal espelhinho. A Srta. Milfford corou de novo, mas continuou sua investida rumo à prova final. Segurou o espelhinho como se o mesmo pudesse voar-lhe das mãos, tão excitada estava. E trouxe-o de frente e de perto até que sua imagem preencheu a superfície do objeto. Chegou quase a sorrir, e o espelhinho mostrou seu quase sorriso. Contraiu as sobrancelhas e o espelhinho obedeceu. Arregalou os olhos e foi assim que se deu conta de que era ela realmente quem estava ali. Não sonhava, nem delirava. Ao contrário, um pesadelo havia terminado - o pesadelo que havia sido toda sua vida de feiura. Aquela cena permaneceria para sempre em sua mente. Descobriu que renascera fisionomicamente; que a atormentada, lúgubre e horrorosa Srta. Milfford desaparecera como por encanto em meio a um punhado de faixas, ataduras, bandagens, esparadrapos, tufos de algodão, e pomadas e cremes espremidos. Foi quando começou a perpassar-lhe o horizonte de uma nova existência a advir. E ela, a própria Srta. Milfford, escorraçada do mundo, da vida normal, dos grupos mundanos, seria a protagonista de uma vida diferente, construída sobre alicerces de... por que não dizer?... Da beleza... sim, pela primeira vez na vida, o senso da beleza trazia-lhe o alento da felicidade.

No dia da alta no Hospital, a Srta. Milfford despediu-se dos atendentes e enfermeiros com um ar nostálgico. Aos cirurgiões desejou-lhes inspiração divina. E quando o Dr. Miguel de tal beijou-lhe a mão, duas lagrimas fluíram-lhe frouxas e densas, rolando paralelas face abaixo até que um lencinho amarrotado sorveu-lhas em ato duplo. Trajava roupas doadas ao Hospital, porque as vestidas no dia do acidente ficaram imprestáveis. A primavera incipiente obrigava ainda ao uso do sobretudo, de modo que ao cruzar a porta do nosocômio, cabeça encapuzada, corpo ligeiramente encurvado pelo hábito de tentar esconder a feiura, a aparência do vulto nem de longe se coadunava com o turbilhão de pensamentos que se sucediam naquela mente exercitando a audácia de quem busca o novo e a ansiedade inútil dos que tentam recuperar o tempo.

(continua)

(Em O CLUBE DOS FEIOS & outras histórias extraordinárias-
2ª edição - Editora 7 Letras)


(22 de novembro/2013)
CooJornal nº 8ó7


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

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