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29/11/2013
Ano 17 - Número 8ó8

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



O CLUBE DOS FEIOS (4)

Carlos Trigueiro - CooJornal

"A primeira providência que tomei no sentido de regularizar a vida cotidiana foi escrever ao Clube pedindo minha exclusão, alegando retorno à Escócia. Mas continuaria a contribuir. Não foi uma atitude fácil. Remoeu-me milhares de vezes nos escaninhos da mente. E esgrimi prós e contras. Mas quando postei a carta, retirei de dentro de mim enorme sofreguidão. Dirigi a missiva à Sra. Maiden para que comunicasse aquela decisão ao Conselho do Clube. Sim, o tempo passa e o pensamento voa.

"Ah! O Clube" pensava. "Naqueles últimos dez anos - caramba! - dez anos de convivência com aquelas pessoas fora do comum, fugidas do tempo, do espaço, de si mesmas, de tudo... Eu tinha 25 anos quando pelas mãos do Sr. McEnroe associei-me ao Clube. Minha feiura obrigava-me a trabalhar em horário noturno, como espécie de vigia num galpão perto do Tâmisa. Eu viera dos arredores de Kirkintilloch, a nordeste de Glasgow, das frias colinas escocesas, tentando achar um futuro onde ninguém me conhecesse ou reprovasse. Meus próprios familiares induziram-me a sair de casa, pois minha feiura perturbava e manchava-lhes a reputação. Nos lugarejos pequenos todo mundo se conhece. Todo mundo sabe onde se mora, que apelido tem, com quem namora, de que signo zodiacal provém, ou quantas vezes se vai à igreja, e se peca e com quem peca, e tudo o mais que interessa à maledicência provinciana. Quanto menor a província, maior a murmuração; acho que é isso mesmo. Ter nascido ali já devera ser por algum pecado original. E permanecer ali era penitenciar-se. Por isso quando me enxotaram de casa, com desculpas e ardis, até achei bom. Londres era uma outra dimensão. Enorme e anônima. Eu teria algum futuro ali. Era assim que eu pensava. Mas foi tudo muito difícil. Achar moradia, conseguir emprego, legalizar documentos. Minha feiura sempre comprometia as melhores intenções. Pensei em prostituir-me. Até procurei uma cafetina. Mas a velhaca riu-me na cara e disse que com aquela feiura morreria virgem. Pior: tinha razão. Amor e sexo, eu só conhecia de livros surrupiados. Aprendera a masturbar-me para sufocar as investidas da natureza e era tudo o que havia aprendido de sexo. Nenhum homem jamais havia me olhado como mulher. Olhavam-me como um traste, uma penúria, um fenômeno. às vezes até rezava para encontrar um tarado que me possuísse. Mas era uma coisa muito indecorosa. E eu afastava aqueles maus pensamentos. Até o dia em que encontrei o Sr. McEnroe no trem noturno. Fazia frio e eu tentava esconder fraqueza e feiura dentro do abrigo e debaixo do xale. Mas ele, que era um sujeito experiente, principalmente nas lides do aspecto físico disforme, logo percebeu que eu me escondia mais do que me abrigava. Estendeu-me a mão, mostrou-me sua face mutilada com um ar de antiga cumplicidade e poucos dias depois lá estava eu sendo apresentada ao Conselho do Clube. E foi no Clube que renasci. Reaprendi a viver. Constatei que a coesão de ideais tem muito maior forca do que se imagina. E conheci a magia do 'Grande Espelho'. Era realmente fantástico que diariamente quando chegávamos ao Clube e passávamos, um a um, em frente ao 'Grande Espelho, tivéssemos a fisionomia instantaneamente modificada, ou melhor, corrigida, de modo que o convívio era realizado nos padrões estéticos que deveríamos ter original ou teoricamente, conforme o infortúnio de cada qual. E, após o convívio, quando nos retirávamos, a passagem obrigatória pelo vestíbulo onde ficava o 'Grande Espelho' nos devolvia a fisionomia natural do dia a dia; era como se despertássemos sempre do mesmo sonho. Mas não podíamos nos fixar na imagem mais do que oito segundos.

"Embora os estatutos do Clube proibissem qualquer tipo de relacionamento entre os agremiados fora da sede, foi pelas mãos do Sr. McEnroe que conheci os prazeres da carne. Unimos nossos corpos. Trocamos beijos como se encapuzados - como os amantes concebidos pelo surrealismo de Magritte. Mas não houve amor entre nós. Não havia campo estético para o amor brotar. Houve gentileza - talvez um eufemismo de fraqueza. Fiz mais por uma questão de gratidão. Fiz. Não me entreguei. Fiz porque também queria me sentir como todo mundo. O mundo que me negava quase tudo começara a soltar migalhas de beleza através da feiura de uma sofredora como eu. Continuamos amigos e víamo-nos sempre nas conversas vespertinas do Clube, ou em algum torneio de bridge. Vez por outra tomávamos chá no mesmo grupo. E em alguma quinta-feira, durante as cerimônias de meditação, trocamos vibrações de mútua gratidão.

"Qualquer um de nós se sentia inteiramente à vontade no Clube. Todos tinham plena consciência do que estavam fazendo ali. Ninguém se iludia com a vida lá fora. Não havia promessas do lado de lá. Além do Clube não se vivia. Purgávamos. Muitos de nós desaprendiam a sorrir além do Clube. Os músculos do sorriso, que são tão elásticos, atrofiavam. Lembro-me de que a primeira vez que sorri, depois de anos, minha face doeu. Porém, como era minha alma sorrindo, os músculos tiveram de obedecer e foram se reacostumando. Mas só funcionavam nas dependências do Clube.

O tempo continuava a passar e o pensamento a voar: reaprender a viver sem nunca ter realmente vivido foi uma árdua experiência. A começar pela minha voz. Nunca tinha pensado nisso. Mudei de rosto, era outra pessoa, mas minha voz ficara como uma especie de impressão digital. Foi por isso que tive de mudar de endereço. Era constrangedor - para quem não acreditava, nem poderia - estar explicando ao carteiro, às poucas pessoas da vizinhança, que sofrera um acidente, mas estava viva. Sentia que lhes parecia um fantasma. A rigor, era outra mulher falando com a minha voz.

"Reaprender a ter postura corporal digna de pessoa normal também foi muito complicado. Observei que durante toda a vida, além de tentar esconder minha feiura, baixando o rosto, cobrindo-o de disfarces - ora o cabelo comprido, ora um lenço, ou o que coubesse melhor segundo as estações do ano -, havia curvado a coluna de modo convergente, sem perceber, acorcundando-me. Os ombros também se curvaram parara dentro todos aqueles anos, de modo que, tudo somado, havia diminuído minha estatura.

"Sempre tive vontade forte. Recuperei postura e estatura. Arranjei trabalho novo. Tornei-me vendedora em uma loja de vestuário feminino na Oxford Street. Com minha boa aparência, não foi difícil. Não que o trabalho de vender me encantasse. Atraía-me, sim, a condição de poder falar com as pessoas, dizer-lhes coisas amáveis e ser cumprimentada com delicadeza, com fino trato. Comprazia-me estar perto das pessoas, olhando-as de perto e sendo olhada - às vezes até admirada por algum sorrateiro olhar masculino que escapulia da vigilância da mulher. E a loja tinha espelhos enormes onde podia de vez em quando refletir minha silhueta esguia. No começo, estranhei um pouco dirigir o olhar para espelhos grandes. O único a que me acostumara tinha sido o 'Grande Espelho' do Clube. Mas aquele era um espelho especial; todos no Clube sabiam de sua origem egípcia e de suas propriedades mágicas: corrigir imperfeições.

"Foi por um daqueles espelhos da loja que conheci o amor. Surpreendi-me sendo admirada por um cavalheiro que me seguia através dos reflexos da imagem de vários espelhos no interior da loja até chegar aos espelhos da vitrina. Entrou, comprou um lenço de seda e desfiou uma conversa que se estendeu por mesas de restaurantes, jardins do Hyde Park, e se enredou em meus lençóis. Foi belo enquanto durou. De início, os carinhos entranhados em cada gesto ou olhar. Cada entrelace de mão, cada abraço, beijo ou afago redimensionavam o começo da vida a partir dali. E a vida estava sempre recomeçando, não havia meio nem fim - o amor é assim mesmo, é essência de começos, é concentração de inícios, tem centelhas, é explosão. Mas, quando a vulgaridade do cotidiano fez-se inevitavelmente presente, surgiram as desavenças, os ciúmes, as intermináveis querelas da desconfiança, os remoinhos das suposições infundadas, o sentimento da posse absurda, enfim, os ingredientes mesquinhos que a maioria carrega dentro de si por insegurança, por incapacidade de vislumbres mais altos, por impotência de manter o amor sempre na atmosfera emocional do inicio. E aí surge a rotina maçante do dia a dia: o amor começa a sofrer interferências fora da estesia e tende a desconcentrar-se num movimento contrário a sua lógica. Amor entre homem e mulher não evolui. Se evoluir deixa de ser amor. Desloca-se do desejo para o interesse. Nenhum interesse pode explodir como o desejo amoroso. E por isso o cavalheiro inverteu a trajetória: primeiro saiu de meus lençóis, depois das mesas de restaurante, dos jardins do Hyde Park e, por  fim, desviou-se da calçada da Oxford Street e dos reflexos dos espelhos da vitrina. De meu coração já havia desertado. Ele demorou a reconhecer a involução de nosso relacionamento. Mas demonstrei-lhe com a precisão que o caso exigiu. E foi tudo.

(continua)

(Em O CLUBE DOS FEIOS & outras histórias extraordinárias-
2ª edição - Editora 7 Letras)


(29 de novembro/2013)
CooJornal nº 8ó8


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
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