'
15/12/2013
Ano 17 - Número 870

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Carlos Trigueiro



O CLUBE DOS FEIOS (6)

Carlos Trigueiro - CooJornal


O tempo voara. E assim as ideias passaram e revoaram na cabeça da Srta. Milfford.

Mas entre o campo das ideias e o da ação há um limbo mágico que num dado momento se desfaz. E isso é que caracteriza os vencedores, essa capacidade de materializacão, como se fosse milagre, porém que é apenas esforço, muito esforço, e que começa pela vontade impalpável e termina na molecularização das coisas, na dinâmica dos atos e, finalmente, na sinfonia dos fatos.

Foi caminhando decididamente. O passo firme, o porte altivo, a vontade férrea. Havia nevado na noite anterior. As calçadas mantinham-se escondidas sob mantos de neve, deixando evidentes apenas as trilhas marcadas pelos caminhantes. A manhã, porém, tinha discreto brilho solar e, de quando em quando, algum feixe de luz desdobrava a sua silhueta projetando-lhe a sombra longilínea adiante dos passos, quase como um espasmo de sua determinação de ir em frente.

Reconhecia as casas e os pequenos edifícios. Aqui e acolá um pormenor estimulava-lhe a memória. Observou algumas mudanças originadas pela síndrome devastadora da guerra. Pensou em tanta coisa. Pensou em levar seu caso à Justiça, a um tribunal de árbitro internacional, afinal de contas ela - a Srta. Milfford - tinha sido violentada no que possuía de mais seu: sua face, sua identidade para o mundo. Recordou as conversas das enfermeiras que lhe prestaram assistência quando estava no hospital. Os litígios entre médicos e pacientes por questões disso e daquilo. Mas já havia decidido que essa possibilidade estava superada. E girou por Spring Street, apertando o passo e a garganta, pois a emoção das vizinhanças do Clube já especulava qualquer estimulo hormonal nos obedientes neurotransmissores. O coração bateu mais forte quando chegou à esquina de Westbourn Terrace, a sensação de um espasmo levíssimo ocorreu-lhe sobre a membrana ocular esquerda. Havia anos não sentia aquele sinalzinho de excitação nervosa. Tentou recordar quando acontecera. Não conseguiu. Mas conseguiu reconstituir a própria fisionomia extinta. Era como uma recordação longínqua. Nada tinha a ver com aquela mulher, agora quarentona, ainda bela e atraente. E o que era ser bela? - perguntou a si mesma. Tentou descrever-se: as maçãs do rosto coradas pelo frio, arredondadas com estilo; a boca enigmática, com lábios finos e sorriso cativante; o nariz afilado e charmoso, ligeiramente arrebitado; os grandes olhos azuis bem guardados por cílios longos e sobrancelhas ricas, dadas ao redesenho e pouco retoque. A testa sempre fora alta, anunciando frontes cavadas que iam se esconder sob vasta cabeleira quase ruiva, mas absolutamente natural. No centro do queixo ligeiramente ovalado havia uma imperceptível fissura circular que se tornava visível nos sorrisos acentuados. A habilidade do Dr. Miguel de tal aproveitara a massa bruta forjada pela natureza, qual um monólito de mármore, e cinzelara-lhe a face concomitante com os sopros da vida e a ciografia do bisturi.

Estava agora exatamente diante da sede do Clube. Olhou em volta, mas pouco viu. A emoção já lhe tolhia a perspectiva da observação. Mas decididamente bateu à porta quatro vezes, como era de praxe entre os associados, valendo-se de uma mãozinha de bronze que pendia da portinhola por onde se enxergavam os visitantes. "Tudo como antigamente" pensou. Alguns minutos depois, a portinhola se abriu e uma voz conhecida indagou: "Quem está aí?" Era a abnegada Sra. Maiden, agora com seus setenta e tantos anos. A voz agora mais débil, porem inequívoca para a Srta. Milfford que se anunciou. Alguns momentos decorreram. Finalmente a porta se abriu e o vulto da Sra. Maiden movimentou-se logo atrás. A Srta. Milfford estendeu-lhe a mão recem-nascida das luvas, mas a velha senhora hesitou em cumprimentá-la, como se não a reconhecesse, embora a voz lhe fosse algo familiar. "Sou eu mesma', disse resoluta a ex-frequentadora. "Deixe-me entrar, preciso falar com os membros do Conselho, hoje é quinta-feira e sei que todos estarão presentes daqui a pouco" A Srta. Milfford não tirou o chapéu, nem o lenço que lhe protegia o pescoçoo, de modo que não era muito fácil comparar a nova fisionomia com a imagem arquivada na memória ótica da velha senhora, ainda mais que estava sem os óculos e, seguramente, sua visão regredira naqueles 11 anos. "Está bem, Srta. Milfford... parece-me diferente, sente-se aqui nesse sofazinho mais perto da luz", aquiesceu a anciã. E acrescentou: "Enquanto isso, vou avisar ao Sr. McEnroe, agora ele faz parte do Conselho. Bem, aconteceram muitas coisas nesses anos aqui, minha filha; você já saberá. E antes que me pergunte pelo meu Franklyn, antecipo-lhe que já se foi desta para melhor... e também..., mas, aos poucos saberá de tudo, volto logo", e desapareceu pelo corredor, cruzando o vestíbulo principal.

A Srta. Milfford não se sentia confortável, porém não sabia dizer exatamente como. Sentia qualquer coisa estranha. Recolheu o sobretudo ao cabide, sempre solícito, da entrada do Cllube e pousou o chapéu num de seus ganchos. Sabia tudo o que ia dizer aos conselheiros. Que se arrependera de ter deixado o grupo por todos aqueles anos em busca de uma vã e inexistente felicidade baseada na beleza estética; e estava disposta a retornar ao convívio; e que, agora, poderia ser até mais útil à pequena comunidade ajudando a Sra. Maiden, já que Franklyn partira para sempre. Sim, poderia morar na própria sede e cuidar da arrumação, da limpeza, organizar os suprimentos, encarregar-se da contabilidade e demais tarefas administrativas. Estava certa de que convenceria aos membros do Conselho. E somente naquele momento foi capaz de entender o conflito alimentado entre seu interior e a aparência exterior. Ocorreu-lhe que um dos dois havia evoluído e o outro continuava na imperfeição.

Mantinha o pensamento nesses caminhos, quando pelo corredor reapareceram o vulto e a voz da Sra. Maiden: "O Sr. McEnroe disse que você pode subir ao segundo andar, mas recomendou mirar-se no 'Grande Espelho' antes de se encaminhar às escadas" De repente, a Srta Milfford sentiu grande alivio. Fitou mentalmente o espaço que a separava do "Grande Espelho", ergueu-se resoluta e entrou no vestíbulo. Estava agora bem à frente de sua imagem refletida, não parecia alegre nem triste; tinha o semblante amadurecido. Virou-se rumo ao corredor que levava às escadas, quando sentiu dor lancinante na face, como se os músculos se repuxassem todos de uma vez: as pálpebras, o nariz, os lábios, a ponta do queixo, a fronte,  mesmo o pescoço e as orelhas. Sentiu um rubor nas faces tal como se estivesse sendo esbofeteada - qual na infância e adolescência, por seus algozes familiares. Mas continuou caminhando, subiu os degraus pausadamente, ritualmente. Percebeu que a figura da Sra. Maiden desaparecera outra vez lá em baixo. Atingiu o patamar, girou ligeiramente à direita e viu a saleta onde se reuniam os conselheiros. A porta estava semiaberta, conseguiu ver quatro cadeiras vazias de frente para a escrivaninha do presidente do Conselho. Atrás da escrivaninha, lá estava o Sr. McEnroe, que se alçou do assento com uma mesura cavalheiresca, deixando escapar vivamente: "Cara Srta. Milfford, que enorme satisfação tê-la de volta ao nosso convívio!" E estendendo a mão, arrematou visivelmente emocionado: "Você não mudou absolutamente nada, apesar dos anos ainda parece aquela mesma assustada senhorita que vi no trem pela primeira vez"

Ao impacto emocional a Srta. Milfford não pôde responder de viva voz, porém duas lágrimas abundantes rolaram-lhe face abaixo e teriam despencado no velho tapete turco, não fosse o lenço do Sr. McEnroe interceptar-lhes a queda. Agora, começara a sentir-se ligeiramente corcunda, tinha a sensaçao de que os ombros se envergavam para dentro, como antigamente. Por fim, disse: "Mirei-me no 'Grande Espelho' e..." "Não se preocupe", atalhou o conselheiro, "O 'Grande Espelho' continua fazendo a mesma coisa de sempre: só corrige as imperfeições".


(Em O CLUBE DOS FEIOS & outras histórias extraordinárias-
2ª edição - Editora 7 Letras)


(15 de dezembro/2013)
CooJornal nº 870


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ

carlostrigueiro@globo.com
www.carlostrigueiro.com


Direitos Reservados