01/08/2019
Ano 22 - Número 1.135
 

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CARLOS TRIGUEIRO

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Carlos Trigueiro



“RETRATO DO BRASIL” - Ficção de verdade


Carlos Trigueiro - CooJornal


(Conversa de jovem leitora com antigo livreiro no Rio de Janeiro) -
Arrastado da Revista eletrônica Rio Total/CooJornal, editada por Irene Serra e Luiz Guedes
em 15-11-2017, antecipando a publicação neste “Arrastão de textos”.


– Oi, aliás... Boa tarde! Vocês têm aí o Retrato do Brasil, do Paulo Prado, o aristocrata intelectual da Semana...?

– Acho que ainda temos sim, senhorita, talvez dois ou três exemplares. Desgraçadamente, a realidade que está aí ofuscou o Retrato.

– Por curiosidade, que tipo de livros atrai os leitores atualmente?

– Livros de ficção estrangeira, claro! Também há procura por livros de autores nacionais de não-ficção mas que mentem!

– Será que eu entendi bem? Livros de autores nacionais de não-ficção mas que mentem têm procura?

– Isso mesmo. Ficção e realidade no Brasil de hoje se confundem. As pessoas estão dessensibilizadas, pois o absurdo está em toda parte! Então, os leitores de livros de autores nacionais preferem assuntos de não-ficção mas que mentem!

– Mas o que será que as pessoas buscam nesses livros de não-ficção que mentem?

– Num país incerto até nas dimensões geográficas e que durante séculos foi desvinculado de qualquer sentimento nacionalista, histórico e político, formado por estrangeiros e aventureiros que se acasalavam com índias, escravas africanas ou serviçais lusitanas, as pessoas que vivem o presente precisam de certezas, imploram por isso. Nesses livros mentirosos, durante alguns momentos, digo, algumas páginas, as pessoas têm certeza de que só há mentiras!

– Mas e o nosso presente, digo, a realidade nacional com essa corrupção política e econômica viralizadas? E cadê o papel da imprensa sobre tudo isso? Cadê a crítica à realidade comportamental e sobre a depravação dos costumes? Cadê o resgate histórico, pelo menos dos últimos cem anos? Cadê a reação moral contra a globalização cultural e viral trazida pela tecnologia? Por que o Congresso não aprova a criação de um novo Código Penal para adequar suas frouxas penalidades à violência desenfreada atual? O nosso Código Penal é de 1940! E parece feito para uma civilização superior, para um país escandinavo, ou pra Suíça, Japão, Canadá...

– São assuntos que despertam parco interesse aos poucos leitores, pois já sabem disso pelos telejornais, pelas redes sociais nos celulares, e na internet... Já se acostumaram... Faz parte do dia a dia... E quanto ao nosso Código Penal, claro, está mais do que mofado..., tanto quanto o nosso Congresso...

– Mas isso é um atestado de decadência social, ética e moral!

– Espere aí! Mas é por isso que os leitores que entram aqui procuram a ficção estrangeira! Apesar de ficção, são histórias contadas sem os venenos da hipocrisia moral, do atraso social, da corrupção institucionalizada, da violência desenfreada e sem castigos... Bem, é o que dizem...

– Mas isso é desanimador! Sou autora brasileira! Levei dez anos pesquisando a poemática nacional genuína: raízes sertanejas, interioranas, costumes e expressões indígenas, crenças dos escravos africanos, caboclismos, manhas de tabaréus, de arigós! Desse jeito, vamos ter que procurar outro país, outra cultura, outra língua!
– Talvez outra realidade! Talvez a realidade dos poetas!

– Nesse caos brasileiro que acabamos de comentar, o senhor vê algum futuro para a poesia nacional?

– Li numa revista literária que toda poesia está fadada a ser coisa de colecionadores. E seu status de produção artística será reduzido a algo parecido à filatelia, numismática, ou taxidermia de rimas e metáforas...

– Taxidermia de metáforas? Mas a metáfora é um dos expoentes da inteligência humana! Está nas paredes dos homens das cavernas, nos hieróglifos e tumbas egípcios, nos livros dos cantares chineses de 3.000 anos antes de Cristo, na eloquência pré-islâmica dos persas, na identificação greco-romana da arte verbal! Que acontecerá com os sonhos, a magia dos amores, os mistérios da alma?

– Bem, a senhorita entrou aqui procurando o Retrato do Brasil do Paulo Prado, um retrato centenário, e descambou para um assunto que não tem tamanho... Mas vou dar uma sugestão: para encontrar o atual e genuíno Retrato do Brasil baixe o aplicativo “Os Três Poderes Invencíveis” que é utilizado por todos os nossos congressistas, representantes políticos em Brasília, e, p.f., apague a nossa conversa gravada no celular dentro da sua bolsa importada!

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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro@globo.com


(15 de novembro/2017)
CooJornal nº 1.053


Carlos Trigueiro é escritor e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil). RJ
contato@carlostrigueiro.art.br
www.carlostrigueiro.art.br



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