16/02/2020
Ano 23 - Número 1.161

 


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CAROL CAMPOS




 

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Carol Campos

O que eu aprendi com o tempo

Carol Campos - CooJoornal, Revista Rio Total


Se você estivesse sentado no banco de madeira de um Campo de Concentração, pediria aos céus para que o tempo andasse devagar. Se estivesse sentado no banco da escola, esperando seus pais atrasados pra te buscarem, olharia pro céu, escurecendo cada vez mais depressa, e a cada nova tonalidade seu coração ficaria mais apertado. Uma gestação pode passar rápido ou devagar. Assim como uma cerimônia de casamento. Pra um paciente terminal, o tempo muda de dimensão a partir do momento em que seu médico enche sua cabeça com nomes bizarros como mielograma ou rabdomiossarcoma, e taxas de sobrevida. Pra uma criança que perde a avó, os termos “nunca mais” e “pra sempre” trazem novas esferas de tempo. O que é para sempre?

Meu pai gostava de passar o tempo jogando buraco. E eu gostava muito desse seu gostar. Era um jeito de ficarmos sentados por horas, eu, ele e meus irmãos ou minhas primas ou minhas amigas, ouvindo música e baixando canastras sujas ou reais. Sem pensar em mais nada. Esquecendo de todos os nossos medos, sujos ou reais.

No jogo de buraco, o tempo teoricamente não importa. O que importa é baixar sequências de sete ou mais cartas do mesmo naipe, formando canastras com seu parceiro. É não se desestabilizar quando sua dupla estiver vulnerável. É prestar atenção quando uma pessoa da dupla oponente sorri ou só respira aliviado ao comprar seu descarte da mesa.

Jogar buraco sempre me acalmou. Sempre me trouxe um certo aconchego. Até quando eu perco. Nunca jogo pensando na competitividade ou até na vitória. Raramente decoro o que os outros três jogadores andaram comprando da mesa. Pra mim, só significa estar com pessoas queridas por algumas horas. Ou muitas horas, dependendo da empolgação do quarteto.

Pro meu pai, era jogo sério. Quase Olimpíadas ou final de Copa do Mundo. Ele tinha uma maneira particular de dizer, com a sobrancelha, que tal jogada de sua dupla tinha sido um erro. E quando esse erro atrapalhava demais sua estratégia, cantarolava trechos como “Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa”... Conheço parceiros que não podem escutar essa música até hoje sem sentir arrepio na espinha! Foi mal, Chico. Mas se valer como pedido de desculpas, quando eu escuto, me dá uma vontade imediata de convocar três pessoas, estender uma toalha verde na mesa, e embaralhar dois baralhos completos de cinquenta e duas cartas.

No jogo de buraco, o tempo teoricamente não importa. Mas um dia, ele chegou em casa com uma pequena ampulheta de areia lilás: “Vocês demoram tanto pra baixar jogo que eu decidi que vão ter prazo. Quem perder pro tempo, perde a vez”.

Um dia, meu pai perdeu pro tempo. Eu sigo. Tentando fazer pequenas canastras na vida. Todas limpas. 



Carol Campos
SP




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