16/10/2020
Ano 23 - Número 1.193

 


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CAROL CAMPOS




 

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Carol Campos

Ave Maria Pompeu de Campos

Carol Campos - CooJoornal, Revista Rio Total


Ave Maria Pompeu de Campos. Era assim que eu rezava quando criança. Achava que essa tal Ave Maria era uma tia distante, talvez prima da tia Ana Maria, da tia Aída Maria e da tia Sônia Maria. Mal sabia que essa tia distante era Mãe. Minha e sua. Nossa Senhora… literalmente… que vergonha de ter rezado assim tantas e tantas vezes. E de ter colocado Nossa Senhora numa posição tão sem destaque! Que vergonha!!

Meu pai sempre rezou a Ave Maria nas horas de desespero. E nas de agradecimento. Sem o nosso Pompeu de Campos, mas com um aperto de mão constante, ritmado, que acompanhava as silabas da oração: Ave Maria – aperto – cheia de graça – dois apertos – o Senhor é convosco – apertão rápido – bendita sois vós entre as mulheres – aperto leve – e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus – essa parte toda era rezada com vários apertozinhos breves. Hoje em dia, quando rezo em grupo, tenho a tentação de fazer isso também - o aperto de mão ritmado em cada sílaba. Quase certeza que faço...

Uma pessoa da minha família, quando pequena, rogava por nós, PESCADORES, agora e na hora da nossa morte, amém. Não temos pescadores na família, mas sempre achei bonita essa preocupação, desde criança, pedindo proteção aos desbravadores dos sete mares. Isso pode ter vindo de histórias infantis contadas a ele, realmente não sei. Só sei que acho fofo.

Uma grande amiga que não sei se posso citar o nome, porque pode ser que ela perca pontos no quesito elevação espiritual se eu divulgar sua identidade, faz pequenas alterações nas orações, como por exemplo não falar que está comendo o corpo e bebendo o sangue de Cristo na comunhão. Ela diz que prefere pensar que está sentada conversando com Cristo inteiro e não ingerindo pedaços. E simplesmente não consegue rezar essa parte.

Não fiz Primeira Comunhão quando criança. Minha mãe teve algum tipo de discussão na igreja onde eu iniciei as aulas de catecismo, e decidiu que eu não voltaria. Nunca saberemos qual foi o motivo da discussão. Nunca saberemos um monte de coisas sobre minha mãe... Enfim, quando, aos 25 anos de idade tive Hepatite C, achei que ia morrer – aliás tive toda certeza – e pedi ao Frei Betto que me ajudasse com Primeira Comunhão e Crisma, tudo de uma vez, pra não correr nenhum risco. Pra estar menos lascada na hora do juízo final. Ele prontamente me enviou seu Catecismo Popular Brasileiro e, graças a Deus, ou ao Frei Betto, ou a ambos (sejamos justos), deu tudo certo.

Apesar de ter dado meu sobrenome à Nossa Senhora, aos 36 entrei pro Grupo de Oração do Frei Betto. Nunca contei pro pessoal do grupo sobre a minha “tia”. E desde então, busco evoluir espiritualmente. Hoje existem diferentes formas de oração na minha vida: no meu bordado, ao fazer meu filho dormir, quando olho pro mar, em alguns abraços, quando me sento para escrever, ao meditar, em encontros com amigos. Essas minhas orações não estão escritas, não fazem parte de um catecismo. Mas me colocam, quase que diariamente, cara a cara com Deus. 




Carol Campos
SP




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