16/03/2021
Ano 24 - Número 1.214



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CAROL CAMPOS




 

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Carol Campos

RETIDa

Carol Campos - CooJornal, Revista Rio Total



Pelas ruas do meu bairro, folhas amareladas e um silêncio barulhento demais. Não estávamos acostumados a ouvir o silêncio pela janela.

Motos entregando almoço, jantar, garrafas, chocolate. Muito chocolate no meu caso.

Outras motos trazendo receita médica. Daquela que uma via fica retida na farmácia.

Eu me sinto retida.

Compramos máscara, aspirador robô, álcool 70 e uma coisa que se chama mop, que acabei não usando muito, mas que ocupa um lugar especial no meu coração. Não sei explicar. Acho que tem a ver com o compartimento onde dá pra colocar produto de limpeza e passar nas janelas. Nos poucos dias em que usei, enchi de álcool e quis passar nas paredes. E em nós três aqui de casa.

Acho que queria mesmo era passar mop no mundo e varrer esse vírus daqui.
Se não houver vida em outros planetas, não vejo nada de mais em jogar partículas microscópicas letais pelo Universo. Se bem que eu acredito que o que a gente joga pro Universo, acaba voltando pra gente.

No décimo mês da pandemia que a princípio seria uma quarentena, meu irmão me convidou para fazer uma Meditação chamada 21 dias de abundância. Decidi ficar repetindo esses 21 dias até que o Deepak Chopra venha pessoalmente me tirar do grupo.

Minha vizinha teve uma bebê. Alice, bem-vinda ao país que não é das maravilhas. Bebê de pandemia não recebe visitas, mas também não gasta com bem-nascido.

Meu filho de cinco anos conversa com a Alice, agora com sete meses, pela fresta da varanda. Mesmo morando parede com parede, eles nunca puderam brincar juntos.

Sabia que se uma criança de cinco anos arremessar o controle remoto na tela plana, o conserto fica quase o preço de comprar uma TV nova? Mesmo que isso aconteça no meio de uma pandemia, a Porto Seguro não cobre.

Esse ano já entrei várias vezes no aplicativo do meu seguro de saúde pra decorar os hospitais onde tenho cobertura. Também já fiz mentalmente o trajeto da minha casa até os dois que confio mais. No meu último mês de gravidez, também fiz esse trajeto mental. Mas naquela época, meu trajeto era feliz.

Adotamos dois gatos esse mês. Somos agora duas mães, duas cachorras, dois gatos e uma criança. Preciso lembrar de inserir os gatos na guirlanda antes do Natal. Nossa guirlanda é personalizada e preciso que os gatos se sintam acolhidos. Nunca fui fã de gatos mas eles parecem não entender. Ou não acreditar. Ou simplesmente sacaram que quando eles dormem no meu colo, meu batimento cardíaco entra num ritmo mais normal.

Meu filho está triste hoje. A escola reabriu e uma semana depois ele teve que ficar em isolamento porque a professora está com Covid. Ele assiste Rei Leão todos os dias e eu definitivamente não sei o que isso significa.

Ser mãe na pandemia deve ser equivalente a ser mãe durante uma guerra. Não existe garantia de proteção. Daí você reza. Pra que seu filho não se contamine. Pra que você tenha saúde mental e consiga sorrir. Por todo mundo que seu filho ama, porque você sabe o que é lidar com perdas na infância. E, claro, pra que o Deepak Chopra nunca descubra onde você mora.




Carol Campos
SP




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