16/03/2020
Ano 23 - Número 1.165

 


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CAROL CAMPOS




 

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Carol Campos

Mães de menino

Carol Campos - CooJoornal, Revista Rio Total




Sábado, 9h30. Ele entra pelo portão da escola, meio que empurrado por mim, porque ele sabe que é sábado e preferia ir pra piscina, pro parquinho ou ficar brincando em casa. E fica meio puto porque mesmo sendo sábado estou empurrando ele portão adentro. Chora, resmunga, até que consegue ver os miniamigos, e os enfeites espalhados pelo pátio, pois é dia de celebrar a natureza, a conscientização do uso da água, o trabalho das abelhas, o Sítio do Pica Pau Amarelo. Ele me olha, do auge dos seus um metro e cinco centímetros, e abre aquele sorriso que é capaz de alterar o curso das águas do oceano inteiro.

Segunda-feira, 1h05. Ele começa a chorar porque o nariz tá entupido e eu me levanto, xingando mentalmente porque estou com sono, pra buscar soro fisiológico, sugador de meleca, água, controle remoto, dedoche de urso, um amuleto, o terço da minha avó. Qualquer coisa que faça ele ficar mais calmo e dormir. Que ME faça voltar a dormir. E assim segue a madrugada, até que às 4h45 ele chupa o dedão da mão direita por dois segundos e capota. Eu não.

Quarta-feira, 5h15 pm. Ele se levanta da mesa da classe e sai correndo, me abraça antes mesmo de eu falar oi. E depois me solta, pega a mochila e sai correndo. Para, me olha novamente, lá da frente do portão da escola, e grita “Vem!”. E vou. Claro que vou. Pro parquinho, contrariada, ou pro estacionamento, contrariado.

Domingo, 12h35. Ele resolveu, antes de completar um ano e meio, que às vezes quer ser um pouco vegetariano. E começa a separar os pedacinhos de frango da comida e jogar pras nossas duas cachorras. E eu explico que ele pode comer o frango porque ele precisa da proteína. E ele, que não está muito preocupado com taxas de proteína, glicose, carboidrato no organismo, segura cada pedacinho até que caninos afiados cheguem bem perto. E gargalha quando as cachorras abocanham o que ele estava segurando. O tomate cereja, a abobrinha, a lentilha e o brócolis vão sendo devorados, após criteriosa análise, porque ele gosta de comer tudo separado.

Tive Pedro aos 39 anos de idade. Menos energia do que várias amigas que foram mães mais cedo, mas com um pouco mais de experiência. Era o que eu achava. Posso dizer que NADA me preparou para tantas sensações. Eu nunca joguei bola, empinei pipa ou andei de skate. Mas ele não liga. Ele gosta quando eu pego um boneco de cabelo rastafári que ele ganhou e finjo penteá-lo. Ele é dessa geração que nasceu com menos rótulos “brinquedo de menino” ou “cor de menina”. Ele não tem pai. Tem doador. Eu não sei seu nome, mas sei que ele gosta de esportes, tem um lindo sorriso e que ninguém de sua família teve doenças graves. Uma boa carga genética era meu ponto de partida na escolha, já que ter perdido meus pais tão jovens por motivos de doença me deixaram com medo de ser mãe até os 38. Quase todo dia eu rezo por esses antepassados misteriosos desse doador misterioso. E agradeço por essa atitude de um cara que resolveu sair de casa, passar numa clínica, e nos dar um milagre sorridente, de covinhas, que nasceu com pouco cabelo e que talvez perca uma boa quantidade de cabelo pela vida. Peço desculpas antecipadas caso ele fique calvo aos trinta. Ele tem duas mães. E sabe disso muito bem. De acordo com ele, uma Grande e uma Pequena. Eu sou a Pequena. E é democrático: se eu peço pra ele dar um abraço na mamãe, ele dá primeiro na outra, me olhando de rabo de olho durante todo o tempo que o beijo levar, e depois vem com aquela boquinha melada pra minha bochecha.

Talvez ter duas mães seja meio cansativo, porque ele ganha amasso demais. Se bem que meu pai também amassava filhos... Uma vez um amigo dele perguntou pra mim se as duas mães conferiam se ele escovou os dentes. Os amigos do meu filho não acham estranho ele ter duas mães. Alguns reclamam por só terem uma. Pode ser que ter duas mães dificulte um pouco na hora dele se casar: duas sogras chega a ser uma afronta. Mas ele vai saber lidar com tudo isso.

Acredito que os bebês escolham onde querem nascer. Acredito de verdade nisso. Se eu estiver certa, e ele fez essa escolha em 2015, foi uma escolha bem corajosa!.



Carol Campos
SP




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