01/06/2020
Ano 23 - Número 1.175

 


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CAROL CAMPOS




 

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Carol Campos

Minha Zona de conforto ou conforto na minha zona

Carol Campos - CooJoornal, Revista Rio Total


Ontem assisti uma live – e eu jurei nunca na minha vida de quarentener começar um texto com essa frase, mas também jurei nunca me chamar de quarentener – enfim, assisti uma live.

Não estou assistindo lives loucamente. Faço faxina aos sábados, acompanho os encontros virtuais das professoras do meu filho com a turma três vezes por semana, coloco roupa na máquina, troco roupa de cama e banho durante a faxina dos sábados, durmo, faço pães porque me falaram que fazer pão é um ato de amor, compro comida pronta embalada à vácuo da minha amiga empreendedora, busco pacotes variados no elevador – de material de artes, frutas e verduras orgânicas, ração das cachorras, supermercado online. Mas lives, confesso que só tinha assistido duas sobre Escrita Criativa, uma sobre maternidade na quarentena e dois shows direto da casa dos artistas. Obrigada, artistas! Essa de ontem não estava no meu radar. Mas Simone chegou de fone pra tomar café da manhã, Pedro pegou um dos fones do ouvido dela e me pareceu interessado no que ouvia, então perguntei sobre o que era. Simone tirou o fone, para que eu ouvisse.

Na verdade era um workshop sobre o “novo normal” e as implicações e oportunidades que estão surgindo como resultado do novo Covid-19. Muito novo na mesma frase, eu sei, mas é tudo muito novo mesmo. Tudo tão novo que as pessoas, todas as pessoas, estão cruzando limites o tempo todo. Tentando entender como será esse tal “novo normal”, que eu por enquanto só consigo usar entre aspas. Mesmo que isso não faça nenhum sentido pra gramática. Ou pra mim.

Saí dessa live workshop e fui lavar a louça do café. Mentira. Fui colocar a louça dentro da maquina que estava quebrada e encostada, beirando o estorvo, desde Março de 2019, quando foi ligada na tomada 220 e queimou. Passou um ano queimada, servindo de apoio para produtos de limpeza, correndo o risco de ser jogada fora, enquanto a louça ia direto pra pia. E a gente também. Não tenho a menor ideia de qual foi a principal razão da máquina ter passado um ano assim: preguiça nossa, vontade de adquirir um modelo mais novo, procrastinação, desleixo, descuido com quem de fato lava mais louça na nossa casa do que nós? Todas as alternativas? Alguma “nova alternativa”?

Comecei a analisar todos os cantos da minha casa e a perceber quantas outras coisas estiveram em situação semelhante pré Covid-19. Algumas evoluíram, outras seguem paralizadas. Ou a gente segue paralizada em relação à elas. Nem sei dizer… Quatro fotografias incríveis da nossa amiga artista aguardavam moldura desde o meu aniversário do ano passado foram penduradas semana passada; papéis e mais papéis que guardamos por anos, e nem sabemos pra quê, foram reciclados; ainda existe um caos interno no meu guarda roupa e na varanda há um monte de pacote de sementes que eu ia plantar no inicio da primavera; no canto da sala há uma caixa de papelão lotada de vestidos de festa que iriam virar bazar em Janeiro do ano passado; uma quantidade incalculável de receitas que eu ia experimentar nas férias de Julho passado foi entocada embaixo dos potes de vidro na cozinha, mas dá pra enxergar se você chegar bem perto; uma caixinha com abotoaduras do meu pai que eu ia entregar pra um dos meus irmãos no Natal decidiu morar na minha mesa de cabeceira, ao lado da pilha de livros que comprei com urgência para ler em 2019; meu cv está aberto na tela do computador desde o Reveillon, porque eu ia procurar emprego como redatora em março; o álbum de fotos do primeiro ano de vida do Pedro, com as fotos já reveladas, está convivendo na mesa do escritório, potes de tinta, argila, pincéis, cartolina, bolas de isopor e três rolos de fita crepe; os documentos pra Declaração de IR eu simplesmente guardei de novo assim que soube que teríamos mais dois meses para enviar. A lista não parou por aí. Mas eu parei de pensar nela. Pra não pirar. Se é que ainda não pirei…

O pessoal da live workshop discutiu muito sobre como estamos todos sendo obrigados, de uma forma ou de outra, a sair de nossa zona de conforto. Eu ri, pensando em como estou dentro da zona da minha casa, saindo da minha zona de conforto, que acaba englobando inclusive a minha casa. Estamos experimentando novos serviços, descobrindo novos produtos de limpeza e tipos diferentes de papel de dobradura, aprendendo a fazer coisas básicas e nem por isso fáceis, encontrando na gente aptidões ou total falta de aptidão. Criando novos hábitos, deletando projetos, adiando sonhos, buscando apoio até nos lugares onde não existe a menor possibilidade da gente se apoiar nesse momento: no outro. E assim chego onde quero chegar. O outro está como nós. O outro e eu somos a mesma coisa. Estamos todos juntos, num momento de mudança. De uma mudança que não entendemos ainda tão bem. Ou nem um pouco. Mas que é também uma grande chance de descobertas. Do que queremos, do que nos serve, do que podemos abrir mão, do que iremos reciclar e transformar em outra coisa, do que deveria ser nossa vida se não estivéssemos sempre tão ocupados correndo atrás do nosso próprio rabo na loucura da vida. O Covid-19 nos fez parar, desacelerar. Mas também nos fez enxergar em nós mesmos um transbordar de emoções, um leque de oportunidades. Nos fez ter que conviver e enxergar a nós mesmos.




Carol Campos
SP




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