16/09/2018
Ano 22 - Número 1.113


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Chico Alencar



BOECHAT, UM VULCÃO DO BEM

 


Tinha acabado de escrever meu artigo pro JB, falando das 352 mortes evitáveis no Brasil dos últimos 15 dias, quando veio a do fim do Ricardo Boechat. Um choque, que não passa!

Conheci Boechat há muitas décadas. Gostava do jeito afirmativo, corajoso, "brigão" dele. Nascido em B. Aires, crescido em Niterói, era um carioca da gema, agora radicado e feliz em SP. Um jornalista e apresentador de alta qualidade, sempre muito bem informado. Assertivo mas jamais dogmático e sectário. Preso à vida, que hoje perde estupidamente.

Boechat sempre respondia meus emails e zaps com borbotões de argumentos. Insistia que os decentes do Parlamento apenas eram "cereja do bolo", legitimando aquele "antro de falcatruas". Claro que nisso, e em vários outros pontos, divergíamos. Mas sempre havia carinho e respeito nesse dissenso.

Boechat era meu companheiro do amanhecer. Quase sempre, às 7h30, entrava, nas ondas do rádio, no meu café da manhã ou nas minhas caminhadas.

Vai ser duro, muito duro, nesse Brasil de tantas e tão seguidas e devastadoras perdas, ficar sem a voz provocadora, contundente do Boechat. Suas gargalhadas e complementos hilários ao Zé Simão darão lugar a um silêncio sem graça. Os do poder são tristes e medíocres.

Boechat, além de "despudoradamente" proclamar toda hora o amor pela sua "doce Veruska" e pelas filhas e filhos - meu abraço solidário e consternado a eles, que vivem dor inimaginável -, também vivia reiterando "já ser um velho". Pois é raro ver um "idoso" tão jovial, com aquele pique e uma voz tão forte e comunicativa.

Boechat, autêntico, também repetia que era ateu. Pois eu, aqui da choupana da minha fraca fé, peço a Deus, o Todo Poderoso Amor, que o abrigue no seu útero cósmico da plena Paz. Boechat brilhará, com seu fogo e paixão pela vida intensa, na constelação dos que constituem, luminosos, o que de melhor a Humanidade produziu.

Clarice Lispector escreveu: "morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa".

Não era o caso, Boechat não estava cansado (quando estava, sumia do pedaço até se reanimar). Precisava muito continuar entre nós, com sua verve crítica e independente, nesses tempos de treva e estupidez.

Vazio. Saudades. Dor.

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Chico Alencar,
historiador e escritor
Rio de Janeiro


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