23/03/2012
Ano 15 - Número 779



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Cissa de Oliveira

 

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Cissa de Oliveira


Gavião sem Asas
 

Cissa de Oliveira - CooJornal

Alegria de peão de rodeio é Maria Breteira, beber cerveja, fama, chapéu, calça de couro, bota, colete e esse mundão de meu Deus. Dinheiro? Peão não ta nem aí pro dinheiro, quer dizer: pra emprego fixo! Esses eram os argumentos antigos da Ângela, minha mulher. Ainda assim ela mantinha a serenidade.

O meu sonho maior era ir pro Texas, ela sabia, mas isso foi só até a notícia que recebi em Barretos. Naquela véspera de rodeio, do nada, se materializou na minha frente o meu cunhado Paulo. Nem sei como me achou entre o amontoado de peão acampado na arena. Só não digo que passei vergonha porque ali quem não tinha passado igual, é porque tinha provado do pior. Ao menos eu estava desacompanhado, né? Humilhar a minha Ângela com uma notícia vergonhosa seria mais doloroso do que cair do lombo de boi bandido.

Vergonha quem passou foi o Vanderlei, professor de Odontologia que se bandeava pros rodeios pra namorar os peões. Até peão de vitrine esse aí pegava. Pegava e pagava. À distância pouca, lá estava ele, redobrado em chamegos com um peãozinho desconhecido. Simples, me explico, quem acompanhava o meu cunhado era ninguém mais ninguém menos do que um tio do professor. Aquilo não ia dar certo. Mas deixei a vida deles pra lá.

Morreu o teu filho Lucas. Armei um soco bem no meio da cara do Paulo, que se esquivou no ato. Agarrei nos colarinhos dele, gritando, xingando. Não tinha o que fazer? Aquilo era coisa da Ângela, pra me assustar, não era? Pela cara dele, olhos de quem espera o outro despertar, eu me dei conta da verdade. O meu Lucas? Como tinha sido aquilo? Eu ia questionando enquanto recolhia as minhas tralhas.

Pulou da laje da frente da casa, com uma capa de super herói feita com a bandeira do teu time do coração. Criança pequena acredita nos pensamentos. Tentava me consolar. Ele foi levado ainda com vida para o hospital, enrolado na bandeira. Não resistiu. Eu gritava, quase exigia mais detalhes, como se esses pudessem trazer o meu caçula de volta. Se ao menos eu estivesse lá; eu deveria estar lá! A bandeira do meu time eu guardava dobrada, na gaveta das meias. Quando ia imaginar que um menino de quatro anos prestava atenção nessas coisas?

Desde o dia do enterro do Lucas a minha mulher passou da serenidade à tristeza profunda. Eu deixei de lado as ilusões com os rodeios, me desencantei com as alegrias do futebol, especialmente com aquele time, e arranjei emprego fixo. A bandeira do Corinthians? Gavião sem asas, mandei queimar.



(23 de março/2012)
CooJornal nº 779



Cissa de Oliveira é bióloga, escritora e poetisa
SP
cissa.oliveira@gmail.com



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