12/11/2005
Ano 9 - Número 450


 


 
Cissa de Oliveira

 

A Intuição e a Técnica na Escrita


 

 

Ser escritor significa também não nos esquecermos de que estamos inseridos num sistema literário, com regras e leis bem definidas, as quais temos que conhecer, nem que seja para contestá-las. É importante que saibamos a respeito de assuntos práticos, como edição, divulgação, direitos, políticas literárias, agente literário, prêmios, enfim, de todo um sistema de produção. E falando em produção, eu tenho lido a respeito do que se chama: “técnicas de construção de textos” e cada vez mais me questionado sobre a questão da intuição. Ou seria mais acertado, na escrita, chamá-la de dom?

No escritor iniciante o que há é muita ausência, mesmo que seja daquela saudável, a dos textos, porque estes estariam ainda na “pontinha dos dedos”, ou dos vícios, porque estes só chegam com o tempo. No escritor experiente, o exercício constante, o conhecimento, e cada vez mais, a leitura. Sim, porque não dá para falar em escrita sem se falar em leitura. O ato da escrita é gêmeo do ato da leitura, e se não é, deveria ser, sob a pena de sucumbirem ambos. É ela quem alarga os horizontes, impõe novas cores e saltos à fantasia e aprofunda o conhecimento. Quem dera ser um gênio, e não conhecendo de fato um determinado meio, construir um romance em torno dele. Depois da vivência, é a leitura o grande carro do questionamento humano.

Mas algumas perguntas relacionadas à “intuição” e à “técnica na escrita”, poderiam ser feitas, por mais remotas que pareçam as respostas. Aqui eu faria duas: - O ato de compor um texto, pode ser atribuído unicamente à intuição ou à sorte? - Tema proposto nos cursos de técnicas de construção de textos, o que se poderia chamar de “os elementos naturais da escrita”? Não tenho estas respostas, apenas mais questionamentos.

Escrever nos impõe, antes de tudo, a quebra de alguns tabus culturais, a começar pelo fato de que não se prevê a expressão individual, indiscutível direito do escritor. Que eu saiba, a quebra de tabus não é algo que possa ser ensinado. A fala do escritor ocorre num determinado ambiente onde muitos outros conversassem ao mesmo tempo e onde alguns, naturalmente já se destacassem por falar mais alto e claro. E essa é, forçosa ou naturalmente, a técnica mais sadia e acertada, porque ao mesmo tempo em que ela nos lança ao meio, nos cobra a viagem ao mais profundo de nós.

Tenho lido sobre cursos que se propõem a ensinar técnicas de escrita, discutindo sobre a importância da diversificação no vocabulário, coesão, gramática, originalidade, etc. Acho construtivo porque são pontos que contribuem para a riqueza do texto, mas a minha pergunta continua, porque ela está ligada ao nascimento do texto, e de como ocorre o processo criativo até a sua finalização. Que caminhos o autor escolhe? Se ele parte de uma idéia maior ou central, e depois constrói os pormenores, enfim os detalhes, de forma que esse texto prenda tenha beleza suficiente para prender o leitor. Haveria ali idéias que de tão originais estivessem escondidas nas entrelinhas, quase como se o texto fosse uma lenda? É possível de se imaginar que através de uma seqüência de pequenas idéias que culminassem noutra, até então insuspeita, uma espécie de assombro, se chegasse a um texto com grandes chances de prender ou impressionar fortemente o leitor? Isso se faz apenas por intuição? Talvez. Acho mais que não. Caberia aí uma outra definição. Mas também acho que não é um curso de técnica de construção de texto quem vai ensinar.

A briga, a nossa briga maior, é mais vasta e solitária, quase como se ela ultrapassasse a questão da intuição: porque antes de alcançarmos o leitor precisamos ultrapassar mesmo é a suposta leveza do papel em branco.




(12 de novembro/2005)
CooJornal no 450


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com