19/11/2005
Ano 9 - Número 451


 


 
Cissa de Oliveira

 

O Cão do Segundo Dia



 

 

Neste final de semana estreou mais uma vez, em não sei quantas vezes, a peça "Farsa da Boa Preguiça" de Ariano Suassuna. Foi na sexta, no sábado e no domingo. De certeza que o teatro do conservatório Carlos Gomes, em Campinas, lotou nos três dias, embora eu só tenha comprovado isso na sexta e no domingo.

Uma das vantagens de se assistir uma peça mais de uma vez é que das outras vezes a gente curte mais o que não foi dito, embora implícito. Na primeira vez em que eu assisti, lá estava o poeta Joaquim Simão submetendo a sua "Cantiga do Canário" para a dona Clarabela, uma "entendida nas artes", digamos assim. A cena é cômica, não pela cantiga cheia de graça e que até nem é engraçada já que o passarinho morre. O engraçado é a expectativa que a cena traz em contrapartida com a decepção estampada na cara da dona Clarabela. Ora, o poeta está sendo analisado e apresenta uma cantiga que no fundo é um relato de uma cena aparentemente corriqueira mas que aos olhos do poeta não escapou. Aos meus olhos cresceu o poeta.

Da segunda vez em que eu assisti, lá estava a mesma cena. A Dona Clarabela com sua cara de decepção e espanto enquanto o poeta se apresentava e a mulher do poeta ria feito um passarinho. Do que se ria a mulher do poeta? Não me pareceu que fosse pelo destino do pássaro. Na carinha dela estava estampada a admiração e o orgulho que sentia pelo mundo interior do poeta. Entre as preocupações com a bolacha das crianças e em se livrar das investidas do marido da Dona Clarabela, seria outra poeta, a mulher do poeta? Aos meus olhos cresceu Nevinha, a mulher do poeta.

Uma outra cena que eu gostei de "reler" foi quando o poeta e a mulher rezaram um Pai Nosso e uma Ave Maria para salvar a Clarabela e o marido, um rico avarento, do inferno. Da primeira vez que eu assisti, vi ali toda a grandeza de espírito do casal que rezava para aqueles pelos quais foram tantas vezes humilhados. Da segunda vez eu vi mais: note-se que ele rezava a metade do Pai Nosso e ela completava, o mesmo acontecendo com a Ave Maria. Quase como aquela mensagem: a família que reza unida permanece unida. Que bela junção de coisas boas, poesia, caridade, fé, perdão, compaixão, enfim, coisas que habitam o lado mais iluminado das pessoas. Cresceu o casal, a peça, o autor, os atores e a própria vida, com os seus ensinamentos.

Mas nessas minhas incursões ao teatro, em meio a santos, diabos e poetas, uma coisa me deixou aqui mais com os meus botões. Na cena em que os diabos carregam para o inferno a Dona Clarabela e o marido, iriam também os americanos imperialistas, os reacionários, os alemães... não me recordo com exatidão como e quem mais. Importa dizer que no primeiro dia de apresentação, a essa cambada foi acrescentado um nome: Genoíno. Isso levantou a platéia, que explodiu em riso e palmas. No terceiro dia da peça, alguém lá no palco arrastou mais gente para as profundezas: ... José Dirceu, Lula! Outra reviravolta na platéia.

Foi muito bom, foi. Eu continuo em brotoejas, me perguntando quem teria sido o cão levado de volta pra casa do segundo dia? O Cão Ditadura? Não... esse parece que já descansa por lá, ou não? Seria o Cão Fome? Não... esse sempre ronda por aí. O Cão Maluf? O Cão Juiz Assassino de Porteiro de Supermercado? O Cão Corrupção? O Cão Indústria da Seca?

Talvez não tenha sido nenhum desses pois a lista é mesmo infinda, e que eles, se lessem isso, dissessem com a maior simplicidade o que disse a cabra dessa mesma peça enquanto cruzava as duas patas como se fossem dois dedos: isola!



(19 de novembro/2005)
CooJornal no 451


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com