14/01/2006
Ano 9 - Número 459


 


 
Cissa de Oliveira

 

PARA LER EM FRENTE AO MAR, OU COMO SE FOSSE



 

 

Há alguns dias o meu marido me deu uma espécie de marcador de estado de espírito. Trata-se de uma tira de papel azul onde aparecem desenhadas cinco figuras que pretendem indicar diferentes estados emocionais, nessa ordem: felicidade, tranqüilidade, estresse, exaustão e histeria. Acoplado a esse simples mas aparentemente complicado sistema, vem uma espécie de grampo de papel deslizante cuja função é indicar ali, como nos sentimos. O “bichin”, possuidor de um azul que não é o do mar, está aqui, na parede em frente ao computador. O meu primeiro impulso foi de colar o tal grampo de papel na figura indicativa da histeria. Ponderei, achando depois que seria mais honesto escolher a exaustão. Depois, concluí que não; eu durmo super bem e o cansaço é apenas uma sensação que vai se acumulando na semana. Por fim e ao menos por hoje escolhi entre a tranqüilidade e o estresse, talvez mais para tranqüilidade.

E já que eu não posso viver com os olhos fixos na tranqüilidade azul do mar, penso num conto para ser lido em frente a ele; ou como se estivesse.

“Parecia um milagre que em pleno mês de janeiro, temporada de calor e férias, a praia estivesse vazia. Algumas nuvens muito claras se apressavam lá em cima mas era por culpa do vento, bastante agitado naquela tarde. Peguei a cadeira e coloquei na beira da praia, de forma que as águas bastante mornas, vez em quando vinham me banhar os pés. Os óculos escuros filtravam o excesso da luz intensa, o que me permitia alternar a atenção entre a paisagem e as páginas do livro de poemas Arte do Vôo(1), “... agora não tenho a certeza / de nada nem do tempo mas cá estou / caminhando nas nuvens em direção à ti...”.

Não pensei nos versos, seria uma heresia e apenas me permiti senti-los. Então, se viver era acordar de um sono profundo ou se perder entre constelações marítimas, ali eu não sabia, pois acabara de me permitir não saber de nada. O sol estava forte e eu usava o último presente que me dei: um chapéu de praia branco e ostentado por borboletas de suave colorido intercalado com uma minúscula e transparente pedraria.

Recostada na cadeira continuei ausente e de olhos fechados.

 A ventania aumentava? As águas se quebravam mais fortes e vez em quando me banhavam até as coxas? Creio que sim e então eu fui até o guarda-sol para deixar o livro de poemas. O vento estava realmente forte e com violência arrastou o guarda-sol, as toalhas, os óculos, e até o meu chapéu já se agitava no ar, quando, por sorte, consegui agarrá-lo.

O chapéu ganhou asas e fomos carregados, ele e eu, como numa daquelas fantásticas produções de Walt Disney. A sensação não poderia ser melhor, e de repente o surpreendente já nem era mais o fato de estar voando com uma legião de borboletas coloridas, bordadas e desprendidas de um chapéu de praia, era sim, a paisagem vista lá de cima. Percebi como se engana quem pensa que o mar é uma coisa horizontal. As águas formavam paisagens verticais, tanto rurais quanto urbanas e a terra era apenas uma lembrança impossível. Seria esta a arte do vôo? Pensando nisso, as minhas mãos deixaram escapar o chapéu e eu despenquei da altura das nuvens. Ia já me afogando quando acordei. A brincadeira de uma onda mais forte acabara de me banhar, juntamente com a cadeira de praia.

Eu havia cochilado ou melhor, sonhado. Verdade que foi meio acordada e nisso não existe qualquer mistério. Esse ficou mesmo por conta do meu chapéu que havia desaparecido. Teria sido levado pela arte das borboletas?”.

Voltando ao marcador do estado de espírito... se me dão licença, vou reler o conto.


(1) Arte do voo - José António Gonçalves
– Ed. Ausência – Portugal - 2005.



(14 de janeiro/2006)
CooJornal no 459


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com