21/01/2006
Ano 9 - Número 460


 



 
Cissa de Oliveira

 

UMA PROSA PARA VICTOR



 

Cissa de Oliveira - CooJornal

 

 

O hálito daquela manhã ainda fresca se espalhava pelo ar. Se eu não soubesse que era verão e que logo mais se acenderiam todos os girassóis, eu poderia me enganar pensando que era primavera. As raízes do flamboyant, a maior árvore da praça, pareciam se espreguiçar sobre a gramínea de um verde quase infantil.

 

Bem que eu poderia me permitir sentar em algum daqueles bancos, mas  a primeira idéia limitante a esse respeito foi a de que eu tinha horário para marcar a minha presença, aliás com a digital do indicador. Não existem duas iguais que eu saiba, então era atravessar a praça, um túnel de pedestres no quarteirão seguinte e descer mais dois, virar à esquerda e andar mais um quarteirão. A segunda idéia era mais encorpada, para não dizer, óbvia: eu não me sentaria num daqueles bancos por pura falta de hábito. Ia ser estranho eu ali... sentada na praça, olhando o avermelhado das flores do flamboyant, ou não?  Depois me desculpei pensando que ainda nas duas próximas manhãs eu passaria por ali. Seria esta a duração do meu compromisso, três manhãs de curso numa espécie de reciclagem, moda nova, para renovar a carteira de motorista. Não por coincidência, os nossos pés podem tomar um caminho e a mente, outra, e então eu fui pensando... quem sabe, amanhã?

 

No dia seguinte ao passar por ali eu me lembrei do hálito da manhã, lembrei sim, mas não sei porque não o senti. Inventei então com os meus botões que algo se impregnava por toda aquela praça. Mas o que? Vaguei pelo chão o meu olhar. Não era titica de nenhum animal, por certo que não era. A praça era até bem cuidada. Seria alguma coisa pior, estagnada. Mas para sabê-lo eu deveria parar e ter capacidade de enxergar ao meu redor com um segundo olhar. Os bancos que lá estavam me olhavam com a quietude sábia que somente o concreto possui, porque o tempo, o compromisso e o impregnar da digital, gritavam que me esperavam. Atravessei o túnel e fui, incapaz de contar as alegres pedrinhas das ruas, como fazem os poetas quando ensimesmados.

 

No terceiro dia, o que dizer da praça naquele terceiro dia? A manhã estava abafada? Alguma coisa havia atacado a minha bronquite alérgica, e acho que eu não vinha pensando em nada. Sentei-me num banco para procurar a bombinha de Aerolin que habita um canto sempre incerto da minha bolsa. Achei-a no momento em que alguma coisa, ali na praça, também me achou: foi o hálito da manhã que sempre estivera por ali. Respirei aliviada e depois, fui. Eu estava tão bem que poderia até contar as pedrinhas das calçadas. 

 

Foi na vigésima primeira que eu me lembrei: era dia 21 e aniversário do Victor, meu afilhado.  A despeito do tempo, que ele tenha, sempre, um verde infantil na alma.

 


(21 de janeiro/2006)
CooJornal no 460


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com