04/02/2006
Ano 9 - Número 462


 


 
Cissa de Oliveira

 

UM TIRO NO PÉ


 

Cissa de Oliveira - CooJornal

 

Vai ver... eu não corro é porque não tenho mesmo medo de polícia. Vai ver, quem sabe, eu tenha um problema no pé. Ou seria na cabeça? Pior: vai ver, a coisa nem é simples assim. Vai ver eu tenho mesmo é que estudar para um concurso. Explico-me: quando num congresso eu ouvi dizer que ter doutorado hoje em dia era algo como dar um tiro no pé, confesso, achei engraçado. Chegar nesse estágio exige, depois da faculdade, em média, mais seis anos de estudo, distribuído entre mestrado e doutorado. Dava para fazer outro curso!

Por isso, tal menção acabou gerando em mim um aprofundamento no assunto, com uma  pesquisa do tipo interrogatório informal. “... você acha que fazer doutorado é dar um tiro no pé, quando...”. Eis algumas declarações:

Quando o seu projeto é daqueles bem trabalhosos, dificultando o seu envolvimento com outros trabalhos.

Você recebe bolsa de estudo para ter dedicação exclusiva ao projeto. Isso significa: quando o projeto-bolsa acaba, você tem os mesmos direitos de um trabalhador que nunca foi registrado.

Quando você não consegue dar aula no ensino médio porque a experiência comprovada não é suficiente; claro, você voou do banco da faculdade para a bancada da pesquisa!

Quando você não consegue dar aula numa universidade pública, ao menos não tão imediatamente, porque os seus concorrentes que já sofrem há mais tempo do que você têm mais publicação na área.

Quando você não consegue aula nas universidades particulares porque para elas é mais lucrativo pagar um professor especialista do que um professor doutor.

Quando você, que já era metido, ficou ainda mais metido, nem que seja apenas na boca de quem não tem o que dizer.

Quando você não é médico. Quando você não é dentista. Quando você não é advogado. Esses já nascem com o título de doutor, o que não os impede de também, um dia, darem um tiro no próprio pé. Teria surgido daí o termo “um tiro pela culatra?”

Quando você que pensa em relatório, prazo, resultado, enquanto os outros pensam na próxima estréia no cinema, se sente um alienígena. 

Você, ora você recém doutor, chega dessa coisa, que não tem tempo nem para o esquema big brother-novela-Faustão - alguma vantagem imediata haveria de existir –  sabe o que você é?

Um professor sem aluno.

Um pesquisador sem pesquisa.

Enfim, é um desarmado que, desarmado que é, dá um tiro no pé.

Medo de polícia?

Ah...

Hummm...

Claro! Pois se eles não atiram bem longe do próprio pé?

 


(04 de fevereiro/2006)
CooJornal no 462


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com