15/04/2006
Ano 9 - Número 472


 


 
Cissa de Oliveira

 

Um doce para Cora Coralina


 

 

Eu posso ouvir a batida dos talheres sobre o inox da pia. Alguém prepara um doce. Para imaginar um tacho sobre um fogão à lenha, daqueles à moda sertaneja eu não precisaria fechar os olhos mas fecho. Outra casa, outra época, outra pia, sem inox. Todo o presente se esvai, como se acompanhasse o eco que os talheres fazem.

O tempo se curva como uma flor no útero. Sou eu o bebê. Nascerei numa casinha rodeada de natureza, e por algum desses desígnios conviverei com a Aninha da Ponte da Lapa. É querer muito? Pode ser que eu venha meio sinhá, escrava, ama de leite, dama da corte, não sei, mas uma coisa é certa, antes disso eu serei miúda, miudinha mesmo, sem a consciência exata de que mais tarde correríamos pelo sertão, entre os leitos ora transbordantes, ora secos, dos rios.

Talvez a Aninha, vez por outra me confundisse com uma formiga - de incansável na traquinagem, ou por gostar muito de doces, ou porque eu novamente nascesse com os cabelos da cor do “ ponto” dos caramelos. De miudinha seria como uma marca entre os bordados que a luz do sol faz no chão quando filtrado pelas árvores de copas altas, ou muito escassas, que isso depende da época e da vontade dEle.

Por certo não faltariam os adultos, Aninha, a imporem hora pra criança dormir, o que comer e quando, o que vestir e o que falar. Estaria certo isso, Cora, digo, Aninha? Talvez me ajoelhassem no milho se descobrissem o meu plano secreto de fuga – pura curiosidade - pelo leito seco do rio, numa manhã qualquer. Estaria saudoso o rio, estaria: menos das águas e mais do colorido das rodilhas nas cabeças das mulheres, da meninada pulando, “tibum”! e dos peixes silenciosos nos seus requebros muito alinhados.

Por fim eu encontraria o mar: Copacabana, Santos, Guarujá, tanto faz. Importa que eu sentiria saudades. Talvez pelo que agora se prepara lá na cozinha, e eu sei pelo barulho dos talheres: é para esta criança que eu não fui, lá no passado. Está escrito. Cristalizado.

Só mais uma coisa, Cora: - Seria de laranja da terra, o doce, certo?
É querer muito?
Audácia maior seria dizer que o bebê dessa história eras tu, Cora,
e o doce, ora vejam, feito por mim, mão cheia em abrir vidros de compotas.


Homenagem a Cora Coralina (1889 – 1985).
Poeta natural de Goiás e reconhecidamente uma doceira de mão cheia.





(15 de abril/2006)
CooJornal no 472


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com
Campinas - SP