13/05/2006
Ano 9 - Número 476





 
Cissa de Oliveira

 

“BALACOBACO”


 

Cissa de Oliveira - CooJornal

 

Por acaso são nos finais de semana que eu tenho mais tempo para a leitura e para a escrita. Principalmente para a escrita, já que para exercer o direito à leitura, além da disponibilidade do tempo eu preciso apenas do livro e, cada vez mais, dos óculos. Já o da escrita... há que se ter os óculos e mais tempo, muito mais tempo, nem que seja apenas para apagar e refazer tantas vezes um texto que eu acabe por fazer inimizade com ele enviando-o para a lixeira, sem qualquer peso na consciência.

O problema é a vista que se tem do meu apartamento. Nenhum prédio nas proximidades. Se na época da escolha eu soubesse que ainda cismaria de escrever, teria comprado outro, de preferência com vistas para o mar, coisa que nem sequer há em Campinas. E já que não há mesmo o mar, para onde é que o povo vai durante o dia, nos finais de semana? Para diversos lugares, com certeza, mas principalmente para o... clube. Eu sei porque existe um, a quatro avenidas depois do prédio. É ele o “xis” da questão.

Pela manhã é quase imperceptível mas a situação toma corpo, aliás um mau corpo, se é que dá para fazer aqui um trocadilho entre a situação-problema e a atividade exercida na parte da tarde quando, pelo microfone, os instrutores fazem a piscina inteira dançar. Verdade seja dita: fazer ginástica. Se o poema está pelo menos ao meio, ainda dá para terminá-lo. Uma martelada aqui, uma lixa mais ali, um verniz, um sopro e eis a obra. O problema é resolver escrever depois de começada a ginástica. Parece que a música está na sala ao lado. Se até midi eu estou dispensando que dirá o balacobaco!

Querem saber: me poupem!


(13 de maio/2006)
CooJornal no 476


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com
Campinas - SP