22/03/2008
Ano 9 - Número 573


 


 
Cissa de Oliveira

 

BORBOLETAS NA ILHA
 


 

Cissa de Oliveira - CooJornal

 

Eu estive lendo – e creio que sempre estarei – Borboletas nos Jacatirões, de Luiz Carlos Amorim (Ed. Hemisfério Sul, Blumenau, 2007). O próprio autor nos expõe numa das crônicas: "a poesia não está confinada no poema". Ocorre que era isso exatamente o que eu sentia, embora de maneira indefinida, enquanto redescobria em mim, através das letras dele, como é mesmo que se faz para desnudar a alma. E se cada um haverá de ter um jeito, por certo todos haverão de ter, fundamentalmente, algo em comum: a naturalidade, característica mais do que evidente no referido livro. Essa naturalidade em Luiz Carlos Amorim fez com que eu sorrisse, chorasse, me surpreendesse, enfim, que eu me emocionasse.

Uma das minhas primeiras impressões foi a de que a proposta do livro seria a de mostrar um apanhado tanto da vida quanto da literatura do autor, seja devido à organização do mesmo em capítulos cujos títulos demonstram um arranjo cronológico, seja pelas temáticas que esses capítulos encerram. Agora eu faço uma pausa para dizer que independente de qualquer divisão ou estilo de apresentação – uma belíssima apresentação aliás -, tudo no livro remete a uma das mais belas declarações de amor à terra e às coisas da terra – destacando-se o grande lírico Mário Quintana. Que bom Luiz Carlos Amorim, que bom, que em meio aos jacatirões, aí no Sul, você reverenciou e imortalizou ainda mais o nosso – se me permite – menino Quintana.

A minha segunda impressão veio com ares de confirmação, e muito antes de encerrar a primeira leitura de Borboletas nos Jacatirões. Ela é a seguinte: a trajetória de vida e a de literatura em Luiz Carlos Amorim sempre estiveram misturadas, confundidas mesmo; portanto, impossíveis de se dissociarem algum dia. O que faz um menino que escolhe, entre tantas opções próprias da infância, ouvir fábulas no rádio? Por mais que ele não pressinta, é poesia o que ele faz. O que faz o adulto que devolve às árvores dos jacatirões, em forma de borboletas, toda a beleza que as flores despertaram nele? Poesia! Por isso, seja enquanto conta da infância, da família, da natureza, dos outros poetas ou da trajetória literária, na verdade o autor nos fala o tempo todo da magia - inclusive quando nos desvenda os bastidores da literatura - e porque não dizer, da poesia viva que é a literatura.

Por certo, algum crítico, coisa que nunca serei, falará com mais propriedade sobre o Borboletas nos Jacatirões. Ainda assim, eu não me furtaria em falar das flores que eu vi por lá e de como, com as borboletas, alada ficou toda a "ilha". Reitero a afirmação da escritora Urda Alice Klueger: "... nem todos os dias saem livros assim...".

Sim, eu continuarei lendo o Borboletas nos Jacatirões. Nem sempre aos domingos, mas será como se fosse.


(22 de março/2008)
CooJornal no 573


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com
Campinas - SP