16/04/2011
Ano 14 - Número 731


 


 
Cissa de Oliveira

 

O Deus de Nelson Rodrigues
 


 

Cissa de Oliveira - CooJornal

 

“Deus só freqüenta as igrejas vazias”. Nelson Rodrigues.



Por essa e por outras, muitas outras, é que é praticamente impossível nos lembrarmos de Nelson Rodrigues sem que nos venha à mente o seu mais marcante sucesso: a série “A vida como ela é”.

E se a vida é como ela é, então por que deixar isto à parte da literatura, a uma das mais belas, disseminadas e acessíveis obras de arte? Assim, o autor se tornou célebre também pelas suas “tiradas”, frases deixadas em textos famosos e também em avulso, a maioria delas polêmicas.

A maneira pela qual Nelson Rodrigues se expressava era escancarada, atirada, muitas vezes beirando a vulgaridade, mas nem por isso impensada. Dono de uma ironia toda própria, ele fazia tremer convicções, provocando com a sua forma aguda de se expressar, a sociedade, sobretudo os conservadores. Por isso, falar sobre ele ou sobre as tiradas dele é se colocar, literalmente, numa cilada.

Então como é mesmo isso de que “Deus só freqüenta as igrejas vazias”? Que Deus é esse, o de Nelson Rodrigues? Teria ele chegado a tal conclusão através de desgraças presenciadas – ele foi repórter policial - ou teria ele próprio procurado por Deus e, não vendo seus anseios realizados, se colocado a desdenhar da ação de Deus? Quer parecer que com essa frase o autor atribui a Deus o nível máximo de indiferença para com a humanidade, a ponto de lhe virar a face, justamente no local onde, ao menos teoricamente, Ele é mais buscado.

E o que é essa “igreja vazia”? Teria Nelson Rodrigues considerado, mesmo de forma inconsciente, que uma igreja vazia é, como qualquer espaço esvaziado, vazia de tudo? Vazia de fiéis, sim, mas também de todo e qualquer objeto e ritual de cunho religioso, de interpretações, símbolos, adjetivos e até mesmo de fé. E ainda mais, se o local que Deus frequenta é vazio, seria vazio Dele mesmo? É provável que a frase de Nelson Rodrigues não tenha esse alcance, até porque é uma abordagem afirmativa. O Deus de Nelson Rodrigues existe, embora seja um Deus que, na medida em que frequenta somente as igrejas vazias, escolhe o afastamento, recusando-se a estender a mão. Mas que Deus é esse, o de Nelson Rodrigues, se na bíblia pode-se ler: “porque onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mateus 18,20).

O Deus contido nessa abordagem de Nelson Rodrigues é inatingível, e ali está, aparentemente, apenas para marcar uma ausência imensurável, e significativa a ponto de fazer a vida ser como ela é, e não do jeito que se gostaria, mas que a gente – e isso inclui o autor – continua buscando, sempre, mesmo que através de subterfúgios e negações, como se cada dia fosse um domingo e estivéssemos caminhando, não por coincidência, em direção à igreja.

 

Nelson Rodrigues (1912 – 1980), escritor, jornalista e dramaturgo pernambucano, foi repórter policial durante vários anos, além de grande representante da literatura teatral. Autor de grandes sucessos, tendo se destacado desde a série “A vida como ela é” que foi inicialmente o título de uma coluna escrita por ele entre 1951 e 1961, no Jornal Última Hora. O autor produzia sob pressão jornalística diária, seis dias por semana. A série, constando de contos e crônicas, foi sucesso popular, publicada também em livros, além de ter feito sucesso no teatro.
 

 

(16 de abril/2011)
CooJornal no 731


Cissa de Oliveira é
Bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e escritora
cissa.oliveira@gmail.com
Campinas - SP