Se deves escrever em um lugar muito freqüentado, coloca diante de ti, em posição vertical, uma folha escrita, como se a estivesses copiando. Que ela fique bem visível a todos. Coloca deitadas as folhas nas quais realmente escreveres e recobre-as, deixando visível apenas uma linha de uma página na qual terás efetivamente recopiado algumas linhas, e que todos que por ali passarem poderão ler. As folhas já escritas, esconde-as sob um livro ou sob outra folha, ou ainda coloca-as atrás da folha posta em posição vertical.
Se alguém te surpreende lendo, vira imediatamente várias páginas de uma vez, para que não adivinhe qual o objeto de teu interesse. Mas é preferível ter diante de ti uma pilha de livros, de modo que quem te espionar não saberá qual deles estás lendo. Se alguém se aproxima enquanto lês ou escreves uma carta, alguém aos olhos de quem essas atividades possam te tornar suspeito, imediatamente, de modo a parecer que tenha algo a ver com o livro ou a carta, faze-lhe uma pergunta sem qualquer relação com tua ocupação naquele momento. Como se, por exemplo, escrevesses a alguém que te houvesse pedido para guiá-lo, etc. Interroga esse hóspede inesperado: "Como me manifestarei sobre este caso que me submeteram? Ele exige prudência e sabedoria." Podes também perguntar sobre as últimas novidades, para - dirás pretender - reportá-las em tua carta. Age de acordo com os mesmos princípios, quando fizeres contas ou leres um livro.
Resigna-te a escrever de próprio punho os documentos que pretendes manter secretos, a menos que utilizes uma linguagem cifrada. Mesmo nesse caso, deves utilizar uma linguagem legível e inteligível por todos, como aquela proposta por Trittenheim em sua Polygraphia. É o método mais seguro, se não quiseres escrever tu mesmo esses documentos, pois uma linguagem cifrada que oferece um texto ilegível provoca a suspeição e o teu documento será interceptado se o deres a um outro para escrever. A única solução será, então, codificá-lo tu mesmo.
Dar, presentear
Dá generosamente o que visivelmente não te custa nada, como, por exemplo, privilégios cujos benefícios não poderás nunca usar.
Um pedagogo não deve jamais retirar de seu aluno a esperança de que, com sua ajuda, poderá aprofundar seus conhecimentos sobre determinado assunto. Ao presentear o filho, o pai deve fazer-lhe sentir que ainda não gozou de todos os efeitos de sua bondade, que pode esperar ainda muito mais. O princípio é o mesmo quanto às relações entre senhor e servidores. Se o senhor dá a um deles uma propriedade, que o servidor permaneça dependente de sua boa vontade: que dele necessite, por exemplo, para os bois, a água ou o moinho.
Se um contrato ou um documento deverá ligar o senhor ao servidor, que uma cláusula seja acrescentada estipulando que o ato é revogável segundo a vontade do senhor.
Se alguém é digno de uma função pública e quiser recusá-la no momento em que lha conferes, não aceites a recusa, a menos que aquele a quem a ofereces expresse essa recusa publicamente. De outro modo, pensar-se-ia que teu favor não é a recompensa de seus méritos. E, para que ele não possa esquivar-se, faze-o assumir suas funções no mesmo dia em que lhe deres o posto e, em seguida, deixa a cidade imediatamente. Desse modo, ele será forçado a te escrever para significar sua recusa e, esperando tua resposta, terá começado a exercer suas funções.
Faze favores que não te custem nada: concede indultos, ou na forma de presente; renuncia a impor uma nova taxa que, a exemplo de um vizinho, estavas prestes a estabelecer, apesar de seu caráter injusto.
As pessoas que empregares não deverão ter gosto pelo luxo, nem amor às armas, jóias e cavalos, pois assim poderás gratificá-las sem que isso custe muito à tua bolsa.
Adota formas originais de presentear: por exemplo, para presentear um arcabuz, organiza antecipadamente um torneio de tiro e recompensa o vencedor. Seja por estares certo de sua vitória, seja por quereres deixar a sorte decidir.
Se queres tomar alguém a teu serviço, não lhe faças promessas, ele se recusará a te atender, porque prometer é forma de não dar e é pagar as pessoas só com boas palavras.
Quem se vangloria em público de seus bens encoraja os que o escutam a lhe fazer pedidos.
Evita revogar decisões de teus predecessores, pois eles estavam em condições de prever coisas que te escapam. Também evita conceder privilégios perpétuos, pois se um dia precisares com eles gratificar um outro, não poderás mais fazê-lo.
Não assumas ares de quem prodigaliza favores. E, para que o beneficiado te seja reconhecido, evita fazê-lo sentir o preço do favor. Observa atentamente quem está necessitado, o que lhe falta, qual a sua situação. Se ajudares alguém, não divulgues aos outros, tu o ofenderás e parecerá que o censuras. E se, no entanto, tens a intenção de abordar o assunto, dirás que se tratava de uma dívida, que não é nem favor nem prova de reconhecimento. Mas se és tu que recebes um presente, por menor que seja, trata de te mostrares reconhecido.
Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarino é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.
CARDEAL MAZARINO
Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".