Muito longe, no céu, em Júpiter ou Saturno, ou melhor ainda em Sírius, dois astrônomos dirigiram seus telescópios para a Terra. Um deles é um velho siriata, sábio ilustre, e outro seu discípulo, ainda principiante. Neste instante é o último que, com o olho na ocular observa os astros.
O VELHO ASTRÔN0MO - Olha. Esse globo luminoso e pálido é a Terra. Ela acaba de atravessar o solstício de inverno e começa aquilo a que seus habitantes chamam um novo ano. Com uma ampliação maior, vou fazer com que os veja a correr pelas ruas de suas cidades. É quando, sem dúvida para se tranqüilizarem nessa época de noites longas e frias, eles se presenteiam reciprocamente e celebram festas noturnas... (Faz girar uma manivela.) 135, 136, 136, 5... isto deveria bastar... Dize-me o que estás vendo.
O DISCÍPULO - Que espetáculo admirável, mestre! Vejo imensos povoados, em agitação. Cobre-os um nevoeiro cinzento e nesse nevoeiro caminham alegremente homens e mulheres. Todos carregam embrulhos amarrados com barbantes de cor. Alguns apertam nos braços uma árvore coberta de geada. As mães levantam os filhos e mostram-lhes os brinquedos guardados em gaiolas de vidro. Os mais pobres compram um presente qualquer. Quem esperaria encontrar tanto amor em criaturas tão miseráveis?
O VELHO ASTRÔNOMO - Gosto dessa pequena raça; é corajosa. Há quinze mil anos terrestres que a venho observando. Ela procura construir uma felicidade durável. Todas as vezes que o edifício parece próximo de sua conclusão, desaba e sepulta milhões de terráqueos. Todas as vezes, sem desanimar, essas efêmeras recomeçam seus minúsculos esforços.
O DISCÍPULO - Lembro-me, mestre. Faz alguns dias, quando o senhor me dava suas primeiras lições, mostrou-me os terráqueos que procuravam destruir-se mutuamente. Era horroroso. Membros e cabeças arrebentavam. Gases mortíferos asfixiavam rebanhos inteiros. Seus povoados ardiam. Eu não podia compreender a fúria desses animálculos... Como é possível, mestre, que os mesmos seres revelem hoje tanta bondade? Pelo menos repararam suas ruínas?
O VELHO ASTRÔNOMO - Observa tu mesmo.
O DISCÍPULO, (deslocando suavemente a luneta) - A desordem ainda é grande. As casas estão reconstruídas, mas as trilhas das caravanas continuam desertas e os navios estão nos portos, inúteis. No oriente, à orla de um grande oceano, alguns insetos batalham. Por toda a parte estão paradas as fábricas, por toda a parte vejo milhares de seres desocupados que
buscam penosamente com que se alimentar... Oh! mestre! Eis um espetáculo inacreditável. Nesse mesmo glóbulo de lama onde há terráqueos morrendo de fome, outros terráqueos acumulam e deixam apodrecer colheitas que parecem inúteis... Estarão loucos?
O VELHO ASTRÔNOMO - Realmente, esse é o mais louco de todos os planetas. Tal qual o estás vendo hoje, ou o vi, eu que o conheço bem, dez vezes, cem vezes, no decorrer de sua história. Após cada convulsão, são-lhe necessários quinze ou vinte anos terrestres para recuperar o equilíbrio. Depois ele goza trinta ou quarenta anos de paz, e recomeça.
O DISCÍPULO - Mas não compreenderá a vaidade desses passatempos cruéis?
O VELHO ASTRÔNOMO - Talvez comece a compreender. Eu desesperaria desses terráqueos se não verificasse que, desde que os observo, no fim de contas, progrediram um pouco. Vi-os fracos e miseráveis, refugiados no alto das florestas para escapar às feras, famintos. A pouco e pouco vi-os tornarem-se os senhores do planeta.
O DISCÍPULO (rindo) - Senhores de uma gota de lama...
O VELHO ASTRÔNOMO - Para eles ela é o mundo. Vencedores dos animais, investiram contra os elementos. Comparar sua ciência à nossa seria cômico. Apesar disso, para animálculos insignificantes, que
vitória! E agora, têm a seu serviço tantas forças novas que se vêem em dificuldades com elas. Breve entrarão, como os siriatas, na era dos ócios inteligentes.
O DISCÍPULO - Compreendem ele sua história? Que pensam da aventura de sua raça?
O VELHO ASTRÔNOMO - Abre o auscultador inter-estelar.
0 jovem siriata regula, não sem dificuldade, um aparelho de mil engrenagens. Primeiro "pega", estouvadamente, Saturno, Vênus, depois acha a Terra. Vozes a principio confusas tornam-se claras.
AS VOZES TERRESTRES
Crise sem precedentes - Catástrofe - Feliz Natal - Boas Entradas - Desta vez, é o desastre definitivo - Mas não, meu querido, nada há de definitivo - Feliz Natal - Boas Entradas - Estou arruinado - Que leva aí? - Alguns presentes para as crianças - Feliz Natal - Boas Entradas -.
O DISCÍPULO - Como podem eles misturar assim votos festivos e
lamentações?
O VELHO ASTRÔNOMO - Não têm razão? Não sabes tu mesmo que esse hemisfério, atualmente velado pela bruma e a neve, cobrir-se-á com as flores viçosas da primavera dentro de três ou quatro meses? A árvore negra e contorcida estará então como um ramalhete rosa ou branco, a relva viridente sairá da terra nua e a ordem da desordem. Assim marcha o mundo.
O DISCÍPULO - Mundo estranho e cruel.
O VELHO ASTRÔNOMO - Mas que não é destituído de beleza.
ANDRÉ MAUROIS
André Herzog, como civilmente se chama, nasceu em Elbeuf, a 26 de julho de 1885.
Fez o curso de ciências e letras no Liceu de Rouen, e em seguida passou a dirigir, durante dez anos, importante indústria fundada por seu pai.
Empregava seus descansos em copiosas leituras e em ir escrevendo alguns ensaios literários que guardava em sua mesa de trabalho, sem a intenção de publicá-los.
Quando da guerra de 1914, abandonou seus negócios para se dedicar à defesa da França. Foi nomeado oficial intérprete, entrando em estreito contato com as forças inglêsas.
De suas experiências e observações da guerra foram fruto seus primeiros livros, publicados algum tempo depois de terminar a contenda: "Les silences du colonel Bramble" (1918) e "Les discours du docteur O'Grandy", de fino humorismo, sutil penetração psicológica e alto valor literário.
Em seguida, apareceu, alcançando retumbante êxito, a primeira das suas biografias, gênero em que tantos triunfos logrou: "Ariel ou la vie de Shelley" (1923).
"La vie de Disraeli" (1921) veio firmar sua reputação como biógrafo de alta perspicácia. Nesse mesmo ano, outra obra valiosa sua viu a luz pública: "Études anglaises", entre os quais merece especial menção seu ensaio sobre Dickens.
Em breve tempo toldos estes livros foram traduzidos a uma infinidade de idiomas, granjeando para seu autor celebridade mundial.
Consagrado por inteiro às letras vivia André Maurois quando a segunda guerra mundial veio arrancá-lo da França, impor-lhe o caminho do êxodo e fazer-lhe confiar sua dor de patriota, de artista e de homem, num dos mais belos livros que referentes à atual luta perduração: "Tragédie en France", que teve sua primeira edição publicada em inglês, em New York (1940), onde se acolheu o grande escritor ao vir para nosso continente.
Incorporado ao movimento dos franceses livres, André Maurois serve nestes momentos sob a bandeira tricolor, alternando uma vez mais as armas com pena.
Outras obras de André Maurow:
"Ni ange ni bête" (1919); "Le démon de la tendresse" (1924); "Arabesques" (1925); "Meipe
ou la délivrance" (1926); "Rouen" (1927); Bernard Quesnay" (1928); Climats"; "Aspects de la biographie" (1929); "Byron" (1930); "Turgueniev" (1931); "Le cercle de famille"; "Le ,peseur d'âmes; "Sentiments et coutumes" (1938); "Un art de vivre"; Etats Unids" (1939); "Toujours l'inattendu arrive" (1943). E mais: "L'instinct du bonheur"; "Les mondes imaginaires"; "Dialogue surle commandement"; "La machine à lire les pensées"; "Mes songes que voici"; "Magiciens logiciens"; "La conversation"; ''Lyautey"; "Édouard VII et son temps"; "Historie d'Angleterre".