23/06/2007
Ano 11 - Número 534


 

ARQUIVO

O Ateu
Publicado em 1964 no livro "O brasileiro perplexo"

RACHEL DE QUEIROZ

Era uma vez, já faz muito tempo, havia um homem que era ateu. Naquele pequeno povoado onde morava não existia nenhum outro ateu igual a ele, de forma que o coitado vivia em grande isolamento. Mas era orgulhoso e não se queixava, mesmo quando se sentia mais solitário, por exemplo nos dias de domingo em que todo o povo da terra ia ouvir missa e ele ficava vagando entre as árvores da praça; ou na véspera de Natal, quando as pessoas só se preocupavam com o Presépio e com a Missa do Galo. Tocavam os foguetes, os sinos repicavam, todo o mundo se alegrava e ia cear, mas o ateu declinava os convites que lhe faziam: não tendo rezado não se achava com direito à ceia, pois ele com ser ateu não deixava de ser honesto; trancava-se em casa e ficava de vela acesa, lendo um dos seus livros de ateísmo. E, se alguma das pessoas vindas de longe para assistir às festas naquele povoado, estranhava a silhueta do homem solitário a ler junto à fresca da janela e perguntava por que não estava ele na missa ou na ceia, o povo da terra explicava:
- Ele não pode, coitado. É o nosso ateu.

No mais, o ateu vivia como os outros. Trabalhava no seu ofício, plantava couve e orégano no quintal, criava dois cachorros perdigueiros e, à boca da noite, tomava parte na roda dos conterrâneos que conversavam sentados nos degraus do chafariz. E quando a conversa tocava em assunto de religião sempre havia um a observar:
- Você, que é ateu...

Não era para ofender que eles diziam isso, mas só porque era verdade; realmente todos na terra o estimavam, pois sendo ateu, era um bom ateu.

Mas então chegou um ano em que o nosso ateu, por diversas razões, parece que deu para se sentir ainda mais só. Esqueci de contar que ele era solteiro. Embora a cidade alimentasse um certo orgulho em possuir aquela singularidade - um ateu público -, as moças não sentiam coragem de casar com um homem assim marcado e que, mal expirasse, iria decretado para o inferno. Veio uma peste canina e matou os dois cachorros perdigueiros; parecia castigo para mais agravar a solidão do pobre ateu. E os livros dele, de tão lidos e relidos, já não lhe contavam mais nada. De dia, o trabalho ajudava a fazer companhia; e de tarde tinha os amigos. Mas nessas eras antigas os homens eram muito religiosos e grande parte do tempo levavam na igreja: de manhã era a missa, de tarde o terço, de noite a novena e, a qualquer pequena festa, as procissões. E nessas horas numerosas em que toda a gente se metia na igreja, o ateu saía de casa, sentava à sombra do cruzeiro, sentia o cheiro bom do incenso queimando nos turíbulos, e lhe dava uma certa vontade de entrar, de ver o dourado nas vestes dos santos, e escutar o belo latim do padre. Mas continha-se; que diria o povo se o visse lá dentro?

Outras ocasiões de inveja tinha-as nos dias de procissão, quando todos os seus amigos vestiam uma opa de seda colorida e iam carregar o andor, as varas do pálio ou os tocheiros acesos, e ele ficava nas esquinas, as mãos penduradas dos cotovelos, na sua roupa velha do diário. Então voltava a trabalhar, embora fosse dia de festa, e ninguém se escandalizava com isso pois todos compreendiam a sua condição de ateu, embora lhe lamentassem a desventura.

E foi aí, na altura do fim desse ano, apareceu uma moça - por sinal sobrinha do padre - que se apaixonou pelo ateu. Como começou ninguém sabe, mas o amor tem disso: vai passando uma moça pela rua, vê um homem que toda a vida viu, e de repente sente um baque no peito e está amando aquele homem. Ele a princípio ficou apenas enternecido ante os olhos que ela lhe punha, tão doces e amigos; mas depois, descobrindo-se amado - ele, a quem ninguém amava -, começou a amá-la também.

E todas as pessoas do lugarejo lamentavam os namorados, sabendo que não podiam pensar em casamento, que o padre não iria entregar a sua ovelhinha inocente às mãos de um ateu confesso.

Assim chegou o Natal e foi arrumado o Presépio e começou a romaria dos visitantes que iam beijar o pé do Menino. E a namorada do ateu deu de teimar para que ele a acompanhasse nessa visita obrigatória. Ele dizia que não e só com muito custo consentiria em entrar na sala e ficar a um canto, enquanto ela fizesse a sua devoção. Mas assim a rapariga não aceitava:
- Que é que custa um beijo? Você não me beija? Ele sorria:
- Mas você é gente, é de carne e eu lhe quero bem. O Menino, como vocês chamam, é um bonequinho de louça.

A moça argumentou que de louça também era a xícara que ele levava aos lábios e não lhe fazia mal nenhum. Ele então alegou o seu amor-próprio. Afinal era o ateu dali, o único. A moça nesse ponto começou a chorar, a dizer que se ele tinha mais amor-próprio do que amor a ela estava tudo acabado. O ateu se assustou com a ameaça e consentiu, embora constrangido. Acompanhou à moça triunfante; entrou na fila atrás dela, enfrentou os olhares de espanto. De um em um, os devotos paravam diante da manjedoura, dobravam o joelho, rezavam uma jaculatória e beijavam o pé do Menino. Chegou a vez da namorada que, feita a sua reverência e dado o beijo, virou-se e sorriu para o seu bom ateu, a fim de o animar. Ele correu o olhar em torno e viu em todos o mesmo ar de animação e esperança. Resolveu-se: dobrou o joelho áspero, curvou a cabeça sobre os pezinhos do santo. E sentiu debaixo dos lábios, não o frio da porcelana, mas o calor da carne, o movimento, a pulsação da carne. Ergueu os olhos assombrado. Encarou o Menino e viu que Ele lhe sorria radioso, e dos olhos lhe saía uma luz que jamais olhos de louça teriam.

Dizem que o ateu caiu no chão, com os braços em cruz, chorando e adorando. E naquela noite de Natal acabou-se o único ateu do povoado.

Mas dizem também que ele não se casou com a namorada. Não podia, pois largou tudo e foi ser frade.


Sobre a autora

Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras e ocupava a cadeira número 5, para a qual foi eleita em 4 de agosto de 1977.
Nascida em Fortaleza (CE) em 1910, Rachel de Queiroz começou a escrever cedo e, em 1930, publicou o romance "O Quinze", onde narrava o drama da seca no Nordeste. Ela descendia pelo lado materno do escritor José de Alencar, autor de "O Guarani", e foi professora, jornalista, romancista, cronista e teatróloga.
Depois da seca que assolou o Ceará em 1915, Rachel veio com a família para o Rio de Janeiro em 1917. Em seguida, a família Queiroz mudou-se para Belém do Pará, onde ficou por dois anos, retornando então para Fortaleza, onde ela se formou no curso normal aos 15 anos.
Rachel estreou no jornalismo em 1927 no jornal "O Ceará", sob o pseudônimo de Rita de Queluz. Depois de publicar seu primeiro livro em 1930, a escritora começou a ganhar destaque na vida literária do país com obras de fundo social.
Em 1932, Rachel publicou seu segundo livro, intitulado "João Miguel", seguido de "Caminho das Pedras", em 1937, e "As Três Marias", com o qual conquistou o prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira dois anos depois.
Residindo no Rio a partir de 1939, ela colaborou durante vários anos para jornais como o "Diário de Notícias" e "O Jornal", e para a revista "O Cruzeiro".
A escritora militou no Partido Comunista Brasileiro na década de 30 por um curto período, mas continuou depois a atuar politicamente. Participou da campanha que levou à queda de Getúlio Vargas em 1945 e ajudou nas articulações do golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart.
Como dramaturga, escreveu as peças "Lampião" (1953) e "A Beata Maria do Egito" (1958). Em 1992, publicou o romance "Memorial de Maria Moura", que se tornou um sucesso e acabou sendo adaptado para a TV.
Rachel de Queiroz lançou, juntamente com sua irmã Maria Luíza, o livro de memórias "Tantos Anos" no final de 1998.
A escritora morreu no Rio de Janeiro no dia 04 de novembro de 2003 aos 92 anos. (Faria 93 anos no dia 17 de novembro).



Principais obras de Rachel de Queiroz:
- "O Quinze" (1930), romance
- "João Miguel" (1932), romance
- "Caminho de Pedras" (1937), romance
- "As Três Marias" (1939), romance
- "A Donzela e a Moura Torta" (1948), crônicas
- "O Galo de Ouro" (1950), romance - folhetins na revista "O Cruzeiro"
- "Lampião" (1953), teatro
- "A Beata Maria do Egito" (1958), teatro
- "100 Crônicas Escolhidas" (1958)
- "O Brasileiro Perplexo" (1964), crônicas
- "O Caçador de Tatu" (1967), crônicas
- "O Menino Mágico" (1969), infanto-juvenil
- "As Menininhas e Outras Crônicas" (1976)
- "O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas" (1980)
- "Cafute e Pena-de-Prata" (1986), infanto-juvenil
- "Memorial de Maria Moura" (1992), romance

Obras Reunidas de Ficção:
- "Três Romances" (1948)
- "Quatro Romances" (1960)
- "Seleta", seleção de Paulo Rónai; notas e estudos de Renato Cordeiro Gomes (1973)